Una: O confronto com o abusador

Una: O confronto com o abusador

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Estreou este mês em nossos cinemas o filme Una, do diretor Benedict Andrews. O enredo retrata o reencontro de Una (Rooney Mara) com Ray (Ben Mendelsohn), quando ela aparece de surpresa em seu trabalho, após anos de distanciamento. E tal “separação” tem motivo claro: aos 13 anos de Una, ela foi abusada por ele, acreditando viver um romance. O retorno dela não tem motivo claro, e esse é um dos fatores que torna o filme tão interessante.

Ao longo de toda a produção, vemos muita confusão em Una perante Ray. Vemos frequentemente que ela ainda nutre sentimentos por ele, como ciúmes e mágoa pelo “abandono” que ela acreditava ter sofrido, por mais que ela tenha respostas a todas as tentativas dele de romantização do abuso. E tudo isso torna do filme um relato muito verossímil sobre pedofilia.

Na época do ocorrido, Una “era apenas uma garota estúpida com um crush estúpido”, como ela mesma se define. Acreditava que viviam um relacionamento amoroso, e chega a fugir com ele, na busca de poder vivenciar isso. Agora, já adulta, ela percebe toda a problemática em torno disso, o que não o impede de ainda tentar mudar a visão dela sobre isso, tentando transformar o abuso em uma “história de amor complicada”, e reforçando as típicas falas que muitas de nós já ouvimos quando adolescentes, como “você é muito madura para a sua idade” e “eu não me relaciono com outras garotas da sua idade, mas você é especial/diferente”.

Mas mesmo falando e tentando fazê-la acreditar nessas baboseiras, Ray sempre soube que era errado. E isso vamos vendo nos flashbacks ao longo da trama. Suas artimanhas para comunicação com a garota, indicam claramente que ele tentava esconder a situação, porque sabia que isso nunca seria aceito justamente por ser errado de todas as formas possíveis. E o mais assustador disso tudo é que, no fundo, Una tem uma visão disfuncional dele. O que nos leva a outra questão abordada no filme, que é a quebra da imagem de que pedófilos são sempre homens estranhos e desconhecidos.

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Ray era o vizinho de Una, um amigo da família que frequentava a casa dela. Nos dias atuais, é um homem casado, tem uma filha, um emprego de alta função e uma bela casa. Com o nome alterado para Peter, ninguém mais ao seu redor sabe quem era o Ray. Uma vida completamente diferente da de Una, que ainda vive na mesma casa, convivendo diariamente com olhares atravessados. Mas, se o filme acerta na dificuldade de uma mulher lidando com o abuso sofrido na infância e com a quebra de estereótipo do pedófilo, ele ainda tem problemas que achamos irreparáveis, ainda mais na temática que se propõe.

Apesar de conter protagonismo feminino, a produção falha até nisso (e também no Teste de Bechdel). As demais mulheres apresentadas na trama não possuem basicamente nada de construção e pouquíssimas falas (e quando falam, é sobre homens). Além disso, algo que nos incomodou foi a exploração do corpo de Rooney Mara. Por três vezes somos expostas aos seios da atriz, em cenas completamente desnecessárias, com uma nudez que não acrescenta em nada para a trama, enquanto o máximo mostrado dos personagens masculinos é as costas. E isso não é um apelo para ver mais o corpo masculino sendo explorado nas telas, e sim para que os corpos femininos parem de ser expostos sem necessidade alguma.

Apesar dos apesares, ainda é uma obra que vale a nossa atenção, por ser um assunto tão delicado, e dificilmente exposto de forma “correta”. Una traz uma concepção completamente contrária de Lolita, e se assemelha muito mais a “Elle” (com Isabelle Huppert, e dirigido por Paul Verhoeven) e “Confiar” (dirigido por David Schwimmer), por nos trazer uma diferente perspectiva de uma mulher lidando com o abuso sexual.


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“O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia.” (Ressurreição, Machado de Assis). 20 anos, estudante de Engenharia e que prefere passar o dia vendo filmes do que com a maioria das pessoas.
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