O Ódio que Você Semeia: as consequências que recaem sobre nós

O Ódio que Você Semeia: as consequências que recaem sobre nós

Compartilhe

Em inglês, o título do livro O Ódio que Você Semeiaé The Hate You Give ou, para citarmos dupla e corretamente o contexto, “ [Tu] ‘Pac disse que Thug Life, ‘vida bandida’, queria dizer The Hate You Give Little Infants Fucks Everybody, ou ‘o ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo’.’’. E tal concepção não poderia estar mais correta. Afinal, é essa a base e a razão de tudo isso (leia-se, sistema étno-racio-socio-gênero discriminatório), não é? O ódio.

A justiça é cega?

De uns anos para cá voltou a ficar em evidência a constante e direcionada ação governamental opressiva a grupos minoritários, principalmente sobre aqueles de pele mais escura que a branca, através de violência policial e da posterior proteção estatal – à seus agentes – do julgamento sobre as ações fundadas claramente em discriminação de classe e de raça.

E é em meio a esse retorno que se passa a história de O Ódio que Você Semeia, obra de Angie Thomas, onde vemos em primeira mão, não apenas a visão de uma adolescente negra durante tal época, mas a visão de alguém diretamente vitimada pela ação governamental. Starr é objeto direto da violência policial.

O Ódio que Você Semeia

Confira a sinopse:

Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos – no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.

A pressão que Starr sente a partir desse momento serve como gatilho para a mesma perceber, mais intensamente, todas as questões étnico-socio-raciais que já estavam presentes em sua vida antes do episódio, fazendo com que a mesma questione a si própria e a todos ao seu redor.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

Isso não impede, porém, que ela ainda seja brilhantemente retratada por Angie Thomas como uma adolescente comum. As brigas e questões normais da adolescência, como amizade e namoros, ainda estão plenamente presentes na vida de Starr. Só há uma diferença, uma que todos os jovens de minorias enfrentam, especialmente quando em um meio majoritariamente branco e rico: Starr é negra e pobre.

O Ódio que Você Semeia
A autora, Angie Thomas. Imagem: Reprodução.

As diferenças de classe são mostradas logo nos capítulos iniciais de O Ódio que Você Semeia, com Starr nos confessando que suas amigas – da escola abastada – não se sentiram seguras em sua casa – no gueto – na única (e última) vez que lá foram ou que seu namorado – também branco e rico – nunca foi à sua casa; tais constatações são parte integrante de quem Starr e o livro são e sem elas, ousamos dizer, seria difícil contextualizar a história com nossa atual situação.

Mesmo assim, a parte que mais nos toca é a racial, principalmente nos embates que Starr tem com uma pessoa que ela considerava sua melhor amiga. Quantas vezes nós, pessoas negras, não tivemos um amigo racista que, só por não nos chamar de macaco, não se achava racista, apesar de suas atitudes? Isso é claramente refletido na situação de Starr, em que o fato de ter postado algo informado sobre o absurdo que foi a morte de Emmet Till fez com que alguém que considerava ser sua amiga, se afastasse. A dor que veio com essa revelação, contudo, traz um dos melhores momentos da história, com a união de duas representantes de grupos minoritários raciais (negro e asiático) contra a supremacia e privilégio branco, mesmo que em uma pequena escala.

O Ódio que Você Semeia nos proporciona, nesse quesito, uma verdadeira noção de feminismo, um que não favorece e nem se limita a lutas vistas como “universais” (leia-se, feminismo branco), mas um que com a união de mulheres de grupos minoritários busca atender a todas as demandas de uma maneira interseccional e, em nossa visão, unicamente válida. É bom ver que mesmo que apenas na ficção, esse pode ser o nosso futuro.

O Ódio que Você Semeia não se vende como uma quebra de estereótipos, mas apenas como um relato da vida de uma jovem que sua própria existência, por si só, é uma quebra de estereótipos. Apesar de se passar também no gueto, o livro não retrata seus habitantes como estritamente maus, bestiais ou inferiores, mas como humanos, sendo um contraste direto em relação a como os mesmos são representados pela grande, conservadora e governamental mídia tanto nos EUA, onde do livro é adaptado, quanto aqui no Brasil, no caso da representação unilateral, classicista e racista que é feita da periferia e de seus moradores.

“Mas às vezes o certo não é suficiente, né?”

As reflexões feitas por Angie Thomas, sejam através de Starr ou não, são tão pungentes que ao mesmo tempo em que sentimos um profundo reconhecimento das mesmas, sentimos uma profunda dor frente a frustração e até impotência que aqueles vitimados – aqui nos incluindo – se veem a mercê.

Parece, tanto no livro quanto aqui fora, que um simples pedido de “parem de nos matar” não tem possibilidade de ser ouvido e que, mesmo nós – a minoria – agindo conforme as regras do dominador, mesmo fazendo tudo certo, não somos dignos da humanidade retirada de nós.

O Ódio que Você Semeia
O Ódio que Você Semeia. Imagem: Editora Record (Reprodução)
Leia também:
>[LITERATURA] 8 livros escritos por mulheres para ler no mês de outubro!
>[RESENHA] Hibisco Roxo: A colonização da Nigéria no primeiro romance de Chimamanda Ngozi Adiche

Mesmo assim, ainda é retratado o discurso do salvador branco, aquele que “sempre quis fazer a diferença nas vidas de lá [do gueto].”. E se mesmo nos submetendo a tal salvamento não é possível que sejamos reconhecidos como humanos, como agir então? Como atender a constante demanda dos dominadores de “não agir com violência”?

“Assim como vocês acham que somos todos ruins por causa de alguns, nós pensamos o mesmo de vocês. Até vocês nos darem motivo para pensar diferente, nós vamos continuar protestando.”

Mas, também, à quê a violência nos leva? Historicamente, como no caso de Emmet Till, vemos como o dominador, mesmo sendo o agressor direto, é protegido pelo sistema. Analisando e comparando os sistemas penais falidos – socialmente falando – dos EUA e do Brasil, vemos como a punição extrema e incessante sobre o dominado não tem resultados que possam ser vistos como excelentes, isto é, que devam necessariamente ser repetidos.

É dito em O Ódio que Você Semeia: Nós fizemos tudo aquilo ontem à noite porque estávamos furiosos, e aquilo fodeu com todos nós”, então vemos que mesmo as vítimas agindo com violência – da forma que os dominadores agem sobre elas – tal ação só tem resultados efetivos e negativos sobre elas mesmas, e apenas com uma mudança no senso comum da sociedade, é que esse ciclo deixará de se repetir.

O Ódio que Você Semeia

O ódio é semeado tanto sobre os dominadores quanto sobre os dominados, porém, apenas aos dominadores é permitida a função extra de jardineiros, trabalhando para a permanecia desse ódio de forma sistemática e agindo de cima para baixo. Com isso eles tem a permissão de agirem como bem quiserem e por vezes até utilizando da cultura dos dominados – a mesma que é suprimida pela dominante – sem, por isso, serem ridicularizados ou vistos como inferiores, como os criadores da cultura são, afinal:

“É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

A história é tão importante e infelizmente atual, que uma adaptação cinematográfica já está em produção, com veteranos como Regina Hall e novatos como Amandla Stenberg e Issa Rae no elenco.

O Ódio que Você Semeia

Ao ler O Ódio que Você Semeia somos a todo tempo agredidas pela intensa verdade da história de Starr, história que é a mesma de muitos indivíduos negros ao redor do mundo, como Emmet, Philando, Trayvon, Amarildo, Cláudia e muitos outros.

Mas assim como Starr, temos que nos perguntar se estamos dispostos a efetivamente fazer parte da luta por mudanças, se vamos fazer a nossa voz, a nossa válida e importante voz ser ouvida, mesmo por aqueles que não desejam ouvi-la. Starr já fez a sua escolha, agora cabe a nós decidir.


O ódio que você semeiaO Ódio que Você Semeia

Autora: Angie Thomas

Editora Galera Record

378  páginas

Compre aqui!

Comprando através do link acima, você ajuda a manter o Delirium Nerd no ar, com os gastos da manutenção do site e futuras melhorias no conteúdo, além de ganhar nossa eterna gratidão por apreciar e apoiar o nosso trabalho! 


Compartilhe

Written by:

102 Posts

View All Posts
Follow Me :