Invisível: os efeitos da criminalização do aborto e o sexo como tabu

Invisível: os efeitos da criminalização do aborto e o sexo como tabu

No momento em que o Brasil passa por um grande retrocesso de direitos e as mulheres correm o risco de perderem garantias conquistadas em meio a muita luta, Invisível (Invisible), filme do diretor Pablo Giorgelli – premiado em Cannes com pelo filme “Las Acacias” – propõe uma reflexão a respeito do desamparo que milhares de jovens enfrentam quando se veem diante de uma gestação indesejada.

O longa Invisível é uma coprodução entre Brasil, Argentina, Uruguai, Alemanha e França e estreia amanhã (09/11) nos cinemas brasileiros.

Invisível nos apresenta um breve recorte na vida de Ely (Mora Arenillas), uma humilde jovem portenha que vive no bairro da Boca, em Buenos Aires, com sua mãe. Ela tem 17 anos, cursa o ensino médio e trabalha num pet shop para complementar a renda de sua família quando descobre que está grávida.

Os efeitos da invisibilidade e desamparo na criminalização do aborto

Através de uma silenciosa narrativa, uma estética crua e poucas intervenções, Invisível nos conduz a experimentar, ao lado de Ely, sua crescente angústia e a sensação de desamparo frente a sua atual condição. Sem poder contar com sua mãe, que está desempregada e doente, Ely entra num estado de estupor e solidão enquanto tenta descobrir o que fará de sua vida.

A ideia aqui parece muito mais retratar o grande desamparo familiar e social na vida de Ely, e a sensação de invisibilidade que cresce dentro dela, à medida em que não encontra suporte e acolhimento na relação com sua mãe, e tampouco amparo na sociedade como um todo.

Invisível

É sabido que os adultos tem grandes dificuldades em encontrar canais para se comunicarem com adolescentes. Essa limitação pode ser de ordem geracional, pode estar relacionada à tarefa complexa de lidar com um(a) adolescente e suas profundas mudanças no período – hormonais, inclusive -, ou ainda o reflexo de uma sociedade que não entende e não sabe muito bem o que fazer com os jovens na passagem para a idade adulta.

Em Invisível, para o diretor Pablo Giorgelli, passou da hora de nos conectarmos a esses jovens e falarmos abertamente de situações como gravidez na adolescência, aborto, abuso e outras questões que, em maior ou menor escala, aparecem em seu longa metragem. Invisível propicia reflexões interessantes sobre nossa sociedade e como ela orienta, acolhe e auxilia milhares de jovens que, assim como Ely, engravidam antes de completar a maioridade, sem nenhum recurso financeiro ou amparo.

Em pleno século 21, ainda não temos consenso sobre como falar com os jovens sobre educação sexual. Nas escolas vemos poucas iniciativas em abordar o tema e convidar a sociedade a tratar do assunto de forma natural. Nas famílias ainda encontramos a questão como tabu e muitas vezes a religião é usada de forma a controlar impulsos sexuais, que são naturais nessa fase.

Invisível

Evidentemente que todos sabemos desde muito cedo como os bebês são feitos, porém, mesmo com todo o conhecimento a nossa disposição, os jovens – e principalmente as meninas de classes sociais menos favorecidas -, não são amparadas e orientadas, ou sequer são incentivadas a falar sobre sua vida sexual.

Muitos podem ser os motivos de uma gravidez precoce: inexperiência do casal, mal uso de um método contraceptivo, ou ainda, a falta de um método real baseado na ideia fantasiosa que muitos temos, segundo a qual algo desagradável não nos acomete e, claro, o desejo sexual em si no calor do momento. Mas existem também com frequência maior do que gostaríamos de acreditar as situações de violência e abuso cometidas diariamente contra meninas e mulheres em todo o mundo.

A criminalização do aborto no Brasil e o sexo como um assunto tabu

Por outro lado, quando falamos de gravidez na adolescência esbarramos numa problemática ainda maior, o aborto. No Brasil, o aborto é proibido e considerado crime pelo Código Penal Brasileiro. Porém, existem situações onde o aborto é permitido: quando há risco de morte para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro, ou se o feto for anencefálico (desde decisão do STF pela ADPF 54, votada em 2012, que descreve a prática como “parto antecipado” para fim terapêutico).

Invisível

O sexo é algo presente na vida de todo ser humano. Praticamos sexo por prazer, para demonstrar amor e afeto por alguém, para reprodução humana, ou como imposição de poder e forma de violência. Apesar do sexo sabidamente estar ligado a ideia de propagação da espécie e, portanto, ser um comportamento natural nos seres vivos, evitamos falar abertamente sobre o tema com nossos jovens e dessa forma damos a oportunidade que o “entendimento” do assunto chegue aos adolescentes por vias pouco adequadas ou francamente distorcidas.

A ausência da educação sexual vai empurrá-los a descobrir o sexo na prática, o que os deixa em perigo diante de doenças sexualmente transmissíveis, violências e submissão de todo o tipo, além claro, da possibilidade de uma gravidez precoce.

Não é possível avançarmos na ideia de uma civilização equiparada e igual, se nos furtarmos a responsabilidade de falar com esses jovens através de canais adequados de comunicação e acolhimento. Evidentemente que orientação apenas não seria em si uma ferramenta para evitar situações que coloquem em risco a vida dos adolescentes, mas sem dúvida nenhuma a informação é uma instrumento que empodera o indivíduo e o capacita para suas escolhas.

Invisível

O aborto, assim como gravidez precoce, é a linha condutora de Invisível, mas o diretor está nos apresentando sua preocupação com a jovem e a dificuldade que ainda temos enquanto sociedade em acolhê-la e ampará-la em suas dificuldades, no início da vida adulta.

Quando os jovens recebem orientação de sua família e grupo social onde estão inseridos (isso inclui a escola), a sociedade cria condições para que, em qualquer situação, garotas e garotos possam se defender e escolher o que desejam para si e para seu corpo, além de respeitar o corpo e a vontade de outrem.

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Cavalo de Tróia: PEC 181/2015 viola os direitos reprodutivos das mulheres no Brasil

Atualmente tramita na Câmara Legislativa uma proposta de emenda à Constituição, a PEC 181/2015, conhecida como Cavalo de Tróia, que visa alterar os artigos 1 º e 5 º da Constituição Federal. Esta emenda busca ampliar o período de licença-maternidade em casos de partos prematuros, mas esconde uma armadilha, pois propõe também a proibição do aborto em casos de estupro e fetos anencéfalos, mesmo nos casos em que a lei já autoriza.

Enquanto vivermos sob regras e leis feitas por homens, não avançaremos enquanto uma sociedade que deveria proteger suas meninas e mulheres.

[Atualizando] Ontem 08/11/2017, a proposta de emenda à Constituição, PEC 181/2015 foi aprovada em comissão na Câmara dos Deputados por 18 votos a 1 e agora segue para plenário, onde precisa de 308 votos, em duas sessões, para seguir para o Senado.

No mundo ideal as mulheres seriam responsáveis e donas de seus corpos, fariam suas próprias regras e poderiam decidir sobre leis que acarretam consequências diretas as suas vidas. Mas, no mundo real e mais precisamente no Brasil, cujo congresso é formado  majoritariamente por homens e com baixa representatividade feminina, as leis aprovadas para mulheres refletem o machismo e a misoginia de nossa sociedade. 

Meu corpo, minhas regras!

Para saber mais sobre a PEC 181/15:

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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