[LIVROS] Enterro Celestial, de Xinran: Devoção e morte se encontram nos planaltos do Tibete

[LIVROS] Enterro Celestial, de Xinran: Devoção e morte se encontram nos planaltos do Tibete

Segundo livro da escritora chinesa a ser publicado no Brasil, Enterro Celestial conta a história de uma médica nascida na China que empreende uma viagem rumo ao Tibete em busca do marido, supostamente morto em conflito. Procura que durou 30 anos.

Quando tinha apenas 5 anos, em 1963, a escritora e jornalista chinesa Xinran andava pelas ruas de Pequim quando ouviu fragmentos de uma conversa que a aterrorizou por anos: a de um soldado chinês que havia sido morto por tibetanos e jogado aos abutres para que seus restos mortais fossem devorados pelos animais. O motivo de tão terrível sina, de acordo com os boatos, foi o fato de o soldado ter ele mesmo matado um abutre.

A história perseguiu a pequena Xinran e nunca lhe saiu da cabeça. Afinal, era aquilo produto de sua imaginação, um exagero de seus conterrâneos, ou de fato ocorrera? Se sim, qual era a razão de se condenar alguém a uma sentença tão absurda por ter matado um simples abutre, considerada uma ave suja e de mau agouro?

Muitos anos depois, em 1994, quando a escritora estava com 36 anos, ela teria um encontro que a mudaria profundamente. E que seria o pontapé para que escrevesse aquele que é um dos seus mais primorosos livros, certamente no qual sua vocação para contar histórias encontra o seu auge: a obra Enterro Celestial, publicada no Brasil em 2003 pela Companhia das Letras. Ali ela começaria a amarrar as pontas da história que tanto a amedrontou na infância.

Resumir a saga de sua protagonista, a médica chinesa Shu Wen, é uma tarefa imensamente difícil. Ela é a mulher com quem Xinran se encontrou em 1994, um encontro que nunca mais se repetiu, já que Shu Wen, assim como misteriosamente adentrou a vida da escritora, misteriosamente saiu dela, sem deixar vestígios.

Enterro Celestial

É uma história real, mas que ganha contornos de realismo fantástico ao dialogar com uma visão sagrada e silenciosa do mundo, que Xinran descreve muito bem em poucas palavras – são apenas 160 páginas. Durante dois dias, a escritora ouviu quase ininterruptamente a mulher, agora uma idosa de pele grossa e vincada, vestida como uma tibetana, mas no terceiro dia, ao procurá-la no hotel em que Shu Wen se hospedara, descobriu que ela havia partido.

Enterro celestial é sobre a longa viagem de Shu Wen em busca de explicações sobre o que ocorreu com seu marido, Kejun, médico do Exército Popular de Libertação que, em 1958, parte em direção ao Tibete para cuidar dos incontáveis feridos deixados no meio do caminho pelo sangrento conflito entre China e a nação do Dalai-lama, a noroeste.

Para os chineses, a expedição era pintada como uma forma de levar a civilização e a ajuda humanitária aos tibetanos – mas, para esses, a presença chinesa era vista como uma forma de destruição de sua cultura e religião, o budismo tibetano. A resistência dos tibetanos ao massacre de seus templos e à prisão e assassinato de seus cidadãos (muitos deles, monges budistas) se tonou lendária.

Uma viagem de 30 anos

A história começa quando, apenas 100 dias após se casar, e logo após o marido ter chegado ao Tibete, Wen – na língua chinesa, o sobrenome antecede o nome, portanto, seu primeiro nome é Wen – recebe a notícia de que ele está morto; recebe um telegrama lacônico, impessoal e até insensível que não lhe dá maiores explicações sobre quando, onde, por que e em quais circunstâncias Kejun fora morto.

Sozinha e desconsolada, Wen se alista no Exército e pede para ser mandada para a mesma unidade e o mesmo local em que o marido servira. Inicia ali uma viagem para chegar às imponentes montanhas Bayan Har, viagem que, descobrimos depois, irá durar 30 anos e transformá-la profundamente.

Logo no início da jornada, tem-se uma ideia do enorme desafio à frente de Wen, então uma médica dermatologista de 26 anos: o Tibete ficava a milhares de quilômetros de sua cidade natal, Suzhou, na parte sudoeste do país. Seria preciso literalmente atravessar a imensa China para chegar àquela que seria a última morada do marido, uma terra desconhecida, inóspita, silenciosa, com imensas montanhas e uma singular cultura que os chineses sofregamente tentavam desbravar.

Enterro Celestial
Mulher nômade budista tibetana (Kevin Frayer/Getty Images)

Pouco após a chegada de Wen ao Tibete, o pior advém e ela é separada do comboio militar. Tem como companhia uma outra mulher, de origem tibetana e herdeira de grandes propriedades que terminou na miséria após a morte do pai. É com ela, Zhuoma, que Wen estabelece a relação mais duradoura da viagem, e é a união das duas que lhes permite sobreviver no clima impiedoso do lugar, a mesclar um sol escaldante com ventos gélidos e noites glaciais, além dos desfiladeiros que levavam para a morte quem se perdia na escuridão da noite.

Após perambularem pelas montanhas tibetanas, deparam-se com uma família de nômades que as aceita e com quem passam a viver. A descrição da rotina da família é particularmente tocante – de forma simples, a escritora narra seu cotidiano, seus hábitos alimentares, sua relação com o sagrado, como os pais se relacionam com os filhos e entre si, suas vestimentas coloridas, a simplicidade e a autossuficiência que marca a vida do povo tibetano.

O tempo adquire outro significado na vida de Wen, muito mais profundo, e as estações substituem o relógio. Toda ação, antes de ser tomada, precisa levar em conta o que dizem o céu, as planícies, o orvalho das plantas e os animais. O povo nômade tibetano está tão desconectado do mundo exterior que, segundo Wen, sequer tomam conhecimento da presença chinesa na região – e ela também prefere não mencionar.

A forma desinteressada com que a família ajuda as duas mulheres, o respeito ao silêncio de uma parte e de outra, a dedicação ao interesse comum, assim como a coragem e até a ingenuidade de Wen quando inicia sua saga emocionam na medida certa. Ao mesmo tempo, a vida guiada pelas estações e a exigência de uma infinita paciência dão uma sensação de angústia, afinal, Wen corre contra o tempo.

O enterro celestial

Após 30 anos, Wen obtém a resposta que tanto ansiou, e as pontas da história se reconectam. Um dia, enquanto acampava à beira de um lago, descobre que um homem também a procurava há 30 anos. Será o marido? A resposta é simples, mas, ao mesmo tempo, complexa, e adentra, afinal, o mundo dos enterros celestiais, um ritual fúnebre e religioso que é símbolo da grande discussão por trás do livro: o encontro entre culturas diferentes, do qual pode resultar o entendimento e a empatia, ou então o embate fatal.

Enterro Celestial
Abutres “aguardam” o início da cerimônia fúnebre conhecida como “enterro celestial”. Imagem (Reprodução)

O enterro celestial que dá o título ao livro diz respeito ao ritual sagrado dos tibetanos de esquartejar o corpo dos mortos e entregá-los para serem comidos pelos abutres. Para seus adeptos, esta é uma forma de o espírito que abandona o corpo ascender aos céus. Os abutres, tidos como animais nobres sagrados, seriam os responsáveis por levar, em seus bicos, o espírito do morto até os céus, apressando a reencarnação. Um desentendimento entre chineses e tibetanos enquanto o ritual estava sendo realizado é a chave para que Wen ponha fim à sua espera de três décadas.

Uma história de amor – mas, também, mais do que isso

Uma passada de olhos pela sinopse do livro pode confundir e levar a entender que a história contada pela escritora é mais uma entre as milhares de histórias sobre o choque entre culturas e a viagem a um país exótico e desconhecido em busca do grande amor. Não é o caso. Tampouco é uma história sobre a relação entre chineses e tibetanos do ponto de vista político, militar ou econômico.

Uma vez que Xinran se especializou em contar histórias de mulheres invisibilizadas por uma cultura repressora, o foco é em Wen e em toda a sua complexidade. É uma história de devoção de uma mulher à vida que levou ao lado de um companheiro carinhoso e dedicado, mas vai além. É um relato, mais feito de silêncios do que de palavras, sobre ser mulher em tempos de grandes mudanças, entre o que a tradição exige e o que de fato se deseja, em um país estranho, sem referências ou apoio, tendo de sobreviver como pode.

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Enterro Celestial
As montanhas Bayar Har, onde o marido de Wen foi visto pela ultima vez. Imagem (Reprodução)

Antes de escrever o livro, Xinran chegou a viajar ao Tibete a fim de percorrer os passos de Wen, e ao fim do livro a escritora faz um apelo comovente: pede a Wen que a procure, pois foram muitas as perguntas não respondidas naquele encontro. Porém, 15 anos após a publicação da obra, e 23 anos após o único encontro entre as duas, Xinran não tem ideia de onde estará a protagonista de sua história mais marcante.

Terá morrido? Voltou a encontrar algum membro de sua família? Voltou ao Tibete? E o que ocorreu com Zhuoma? Indagações que, num paralelo com grande parte da trajetória de Shu Wen, ainda aguardam uma resposta.


Enterro CelestialEnterro celestial

Autora: Xinran

Editora: Companhia das Letras

160 páginas

Ano: 2003

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