[LIVROS] Queer: A escrita como subversão, terapia e experimentalismo (resenha)

[LIVROS] Queer: A escrita como subversão, terapia e experimentalismo (resenha)

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Finalmente temos a chance de ler mais uma obra de William Burroughs em português. Queer faz parte de uma espécie de trilogia inicial do autor, ao lado de Junkie e Almoço Nu (esses já existem há anos em português). Queer é o livro do meio e, apesar de ter sido escrito entre 1951 e 1953, só foi publicado pela primeira vez em 1985.

Alguns alegam que este atraso na publicação se deu por motivos de censura, já que o livro aborda temas como sexo gay e uso de drogas (Isso lá nos anos 50…). Mas há quem diga que demorou tanto porque, na época, nenhum editor viu muita qualidade literária na obra, incluindo o próprio Burroughs, que diz ter ficado décadas sem reler o manuscrito. No entanto, ele tinha seus motivos.

O livro pode ser considerado uma sequência de Junkie. Neste, acompanhamos o dia a dia de um viciado. Já em Queer, o vício em drogas pesadas (opiáceos, morfina, heroína, etc) não é tão presente e dá lugar à maconha e ao álcool.

Na história, acompanhamos o alter ego de Burroughs, Lee, por ruas periféricas do interior do México. Ele vaga entre bares e hotéis baratos e procura preencher seu vazio com bebida e sexo casual e vive cada dia de uma vez. Até que conhece Allerton. Então, Lee desenvolve uma verdadeira obsessão pelo rapaz. Procura por ele em todos os lugares, tenta estar sempre junto a ele, mesmo que seja humilhante ou degradante e busca conquistá-lo a qualquer custo.

Acaba conseguindo “conquistar” Allerton, pela insistência e pelos mimos oferecidos. Os dois então viajam para a América Central em Busca da Ayahuasca, a droga xamânica. Depois retornam ao México e acabam perdendo contato.

A história de Queer é basicamente esta e, como parece, não tem nada demais. A escrita é linear e de fácil leitura – completamente diferente das obras posteriores de Burroughs. Mas Queer é muito mais do que só uma história curta e simples. Veremos os motivos.

Antes de continuarmos, uma observação em relação ao nome da obra. Na época em que foi escrito, o termo Queer era pejorativo, homofóbico e agressivo, destinado às pessoas que não se enquadravam nos padrões comportamentais da época. Era o mesmo que pederasta, vagabundo, doente…

O tradutor Christian Schwartz, na introdução de Queer, explica o contexto e que optou por manter o equivalente em português ao longo da obra: bicha. Em uma época em que poucas pessoas ousavam expor sua orientação sexual, Burroughs foi além.

Ele escreveu sobre sexo casual gay, amor gay e era abertamente bissexual. Foi a primeira ressignificação do termo queer/bicha (décadas antes de Judith Butler), que foi incorporado como um lifestyle e teve seu sentido  original torcido e transformado em uma forma de empoderamento contracultural e subversivo. Essa ressignificação também foi abordada no excelente documentário “Bichas“, de Marlon Parente, onde seis homens gays contam como suas famílias lidaram com a revelação da sexualidade, além de explicarem como o termo bicha significa uma forma de defesa dentro da comunidade gay. “Ressignificando a palavra, a gente muda a nossa perspectiva”, explica João Pedro Simões no documentário. 

Queer

Da tragédia ao ícone pop

Voltando ao livro: a história por trás de Queer é maior do que a obra em si (e parte dessa história pode ser lida em um apêndice sincero e dolorido escrito por Burroughs ao fim da edição. Na época, William Burroughs vivia com Joan Vollmer, beatnik com quem tinha um conturbado relacionamento. O consumo intenso de drogas e álcool não ajudava muito.

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Durante uma noite de bebedeira, ele quis brincar de Guilherme Tell com a esposa, que aceitou a brincadeira. Ela colocou um copo com água na cabeça e Burroughs atirou. O tiro a atingiu fatalmente. Joan morreu momentos depois. Burroughs ficou preso no México por alguns dias, até que policiais e delegados foram subornados e o soltaram. Ele respondeu em liberdade, viveu por mais um tempo no México e depois voltou aos EUA. Foi condenado por homicídio culposo, mas a pena foi suspensa. 

Um parêntese: Mesmo sendo um acidente, é impossível não se indignar com este fato. O crime/a morte de uma mulher foi apenas isso: um acidente simples, um percalço no caminho do homem, algo do qual ele se livrou facilmente, com a ajuda de outros homens. Joan foi esquecida e sua trágica história é usada apenas para ilustrar a loucura e subversão do escritor com o qual foi casada. Se tornou simplesmente “a esposa que William Burroughs matou”.

Do pouco que sabemos sobre ela, podemos dizer que foi uma beatnik importantíssima, que abrigou em seu apartamento, que dividia com Edie Parker, todos conhecidos nomes da época, onde encabeçava profundas discussões filosóficas, artísticas e políticas noite adentro.

Queer
Joan Vollmer

Queer foi escrito no período que sucedeu a morte da esposa, como uma forma de terapia, de não pensar no ocorrido. O trauma causado pela tragédia seguiu Burroughs pela vida inteira e, segundo ele, foi o que o motivou a começar a escrever. Burroughs disse certa vez que usa a escrita como “vacina”.

Com o passar das décadas, Burroughs se tornou um fenômeno pop. Gravou com U2 e Nirvana. Lançou álbuns musicais, curtas experimentais, fez cameo em alguns filmes, escreveu livros mais experimentais ainda (foi pioneiro na utilização da técnica de Cut-up) e tinha amigos como Patti Smith, Andy Warhol e Kurt Cobain. 

Sobre a Obra

Em Queer, assim como em Junkie, é possível já notar características de conteúdo que se tornariam sua marca. Nos momentos de solidão e abandono, Lee cria monólogos surreais, fala sozinho em bares e hotéis. A obra seguinte, Almoço Nu, seria inteiramente escrita através deste ponto de vista – e de forma extremamente experimental. Inclusive há em Queer a menção de personagens e situações que reaparecem em Almoço Nu.

Outra característica do autor já presente em Queer é o lirismo. Em meio a cenas banais, bizarras ou eróticas, há momentos como este:

Queer

Conclusão

Queer se trata de um ótimo ponto de partida para quem quer conhecer a obra de William Burroughs. Com menos de 150 páginas, a leitura é rápida e fluida. Um aviso: quem não aprecia literatura erótica/pornográfica, cheia de temas tabu, momentos bizarros e subversivos, pode não apreciar Queer. Para estas pessoas indicamos outra obra bem diferente dele: O Gato Por Dentro. Espécie de diário sobre seus gatos, é um livrinho repleto de trechos delicados e íntimos de puro amor por felinos.


Queer

Queer, de William Burroughs

Companhia da Letras

144 páginas

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