Tom e Greg: uma leitura queer da 2ª temporada de Succession

Tom e Greg: uma leitura queer da 2ª temporada de Succession

Succession, série da HBO de 2018 criada por Jesse Armstrong, prevalece com altas doses shakespearianas de jogos políticos e conspirações na segunda temporada. Se nos primeiros dez episódios da série vimos como seria Rei Lear habituado nos dias atuais em um cenário corporativo e bilionário, nessa nova temporada nos deparamos também com um outro lado dessa competição entre os irmãos Roy.

O escândalo sexual acobertado na divisão de cruzeiros da companhia ameaça o futuro da empresa e, diante de tantos riscos, Logan Roy (Brian Cox) e seus quatro filhos tentam se unir para conservar a privilegiada condição de vida da família e todo o poder conquistado pelo patriarca.

A questão de quem será o sucessor ainda prevalece e, consequentemente, a guerra entre os irmãos pelo trono também, mas agora somos apresentados ao começo de uma nova e importante questão dentro da trama: vender a Waystar Royco ou resistir?

No entanto, em meio a todo o caos dos Roys, vemos também um maior desenvolvimento dos forasteiros da família: Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen) e Greg Hirsch (Nicholas Braun), que tentam a todo custo crescer na Waystar e, para isso, decidem aproveitar tudo o que o outro tem a oferecer, por mais pouco que seja.

Trabalho, poder e (a falta de) amor: os relacionamentos em Succession

Tom (Matthew Macfadyen) e Shiv (Sarah Snook) na 2ª temporada de Succession
Tom e Shiv na 2ª temporada de Succession | Imagem/Reprodução: HBO Max

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É preciso entender que o ponto central de quase todo relacionamento em Succession é voltado à empresa. Nunca vemos os irmãos Roy se juntarem para conversar sobre seus problemas ou vitórias pessoais, porque o que os une e o que os separa é justamente a Waystar e a relação complicada que todos dividem com o pai, Logan.

Com base nisso, é compreensível que a lua de mel de Tom e Shiv (Sarah Snook) torna-se mais uma reunião de trabalho e não um momento íntimo e importante na vida dos recém-casados como deveria ser convencionalmente, porque o relacionamento amoroso entre os dois também gira em torno do poder.

Isso é perceptível quando Shiv questiona se Tom quer desistir da lua de mel e ele nega nitidamente incomodado, mesmo sabendo que a esposa precisa voltar logo ao jogo, assim como ele próprio precisa, por causa da possível decisão de Logan de vender a empresa.

Shiv pode não amar Tom, mas ela se importa minimamente com ele nessa temporada. O fato dela ter conseguido uma boa posição dentro da Waystar para o marido é um exemplo disso. É como se a “linguagem de amor” de Shiv fosse interligada ao trabalho, porque essa é a única maneira que ela aprendeu a se relacionar com qualquer um, inclusive com Tom.

Quando os dois não estão discutindo sobre negócios, é possível ver as rachaduras da relação mais claramente: No episódio Vaulter, Shiv começa a tirar sarro junto a Roman (Kieran Culkin) sobre a vestimenta de Tom e ele se sente humilhado com a situação. Para resolver a intriga, Shiv apela novamente para um assunto de trabalho, porque essa é a única maneira que eles sabem interagir sem se deparar com os problemas.

Tom e Shiv na season finale da 2ª temporada de Succession
Tom e Shiv na 2ª temporada de Succession | Imagem/Reprodução: HBO Max

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É possível ver outra rachadura do casamento no último episódio da temporada, This Is Not For Tears, quando Shiv sugere sexo a três e Tom, apesar de fingir estar animado com a proposta, tenta a todo custo impedir que isso aconteça porque ele não se sente confortável: “Você me disse que queria um relacionamento aberto na nossa noite de núpcias. Eu não quero fazer sexo a três”.

Quando ambos param para conversar sobre o casamento em si, fica claro o quão insatisfatório e doloroso a relação se tornou entre os dois.

“Se eu parar para pensar, acho que na maior parte do tempo me sinto muito infeliz. Eu amo você. Amo mesmo, mas fico pensando se a tristeza que eu sentiria sem você seria menor que a tristeza que eu sinto estando com você”.

Tom & Greg: os coadjuvantes da grande guerra

Se na primeira temporada tínhamos Tom e Greg como os dois figurantes da família, agora temos os dois como os principais coadjuvantes. Tom é colocado como presidente da divisão internacional de notícias da ATN e, obviamente, leva o primo Greg como o seu assistente executivo.

Na segunda temporada também vemos uma maior aproximação entre Kendall (Jeremy Strong) e Greg, e isso vai desde Greg comprar drogas para Kendall até Kendall oferecer um apartamento ao primo. Essa aproximação não passa despercebida por Tom, pois ele comenta sobre isso no terceiro episódio, Hunting, de maneira bem clara:

“Greg, é bom ver você, cara! Você passa tanto tempo com o Kendall que uma garota pode começar a desconfiar”

Antes disso, eles não estavam tão próximos quanto esperávamos, mas é a partir desse episódio que vemos um maior desenvolvimento no relacionamento entre os dois na temporada, porque Greg falou com uma repórter e sente que pode ser prejudicado por isso, então pede ajuda a Tom: “Já passamos por muita coisa, certo? Posso confiar em você?”

Tom & Greg: os coadjuvantes da grande guerra

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A questão da confiança é crucial e curiosa na dinâmica dos dois, porque apesar de Tom aconselhar Greg a não confiar em ninguém, ele nunca quebra essa confiança, mesmo que Greg faça isso em outros momentos do seriado.

O próprio Tom diz no episódio sete, Return, que não confia em Greg porque sabe que, apesar de tudo, o primo dos Roys não é alguém confiável, mas sim alguém desesperado por segurança e trairia qualquer um por isso.

Mas Tom nunca deixou de cuidar do outro, como havia dito na primeira temporada que faria, e nunca contou que foi Greg quem se reuniu com a repórter para falar sobre Logan, mesmo sabendo que poderia ser beneficiado se escolhesse contar.

Paralelos entre Tom & Shiv e Tom & Greg

As razões de Tom ter colocado Greg sob suas asas, mesmo que não precisasse ou tirasse muitos benefícios ao fazer isso, podem ser diversas: desde uma necessidade de ter alguém mais fraco a quem comandar e cuidar até por nutrir uma simples ou grande afeição ao outro.

Por isso, no episódio quatro, Safe Room, quando Greg sugere sair do departamento de notícias para se arriscar em outro setor, Tom fica fora de si. A interação deles tem um paralelo direto e claro com a interação entre Tom e Shiv a respeito do casamento aberto.

“Fico pensando se não seria interessante para nós dois se eu fosse trabalhar com outra pessoa por um tempinho”

“Desculpe… Você está tentando terminar comigo, Greg?”

“É que… Eu não gosto daqui, não gosto mesmo. Quero sair e explorar. Podia ser uma relação comercial aberta”

Tom e Greg na 2ª temporada de Succession
Tom e Greg na 2ª temporada de Succession | Imagem/Reprodução: HBO Max

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Quando Greg sugere “terminar a relação” ou ter uma relação aberta com Tom, fica evidente as semelhanças entre Tom & Shiv e Tom & Greg, mas também as diferenças: Tom aceita ter uma relação aberta com Shiv, mesmo que isso o faça infeliz, mas não aceita ter uma relação aberta com Greg.

“Não é um bom sentimento, Greg, que você está me provocando, sabe? Eu estou me sentindo… eu me sinto meio… sabe?”

Tom claramente se sente chateado com isso, assim como ficou chateado ao ouvir a sugestão da esposa, mas a situação com Greg tem algo a mais: Tom se altera e começa a gritar e jogar garrafas de água no outro, deixando seu lado possessivo à mostra ao dizer “Não vou deixar que faça isso comigo!” e “Não vou abrir mão do que é meu!”.

Porque sim, Tom vê Greg como algo dele, como alguém que é dele por direito porque Tom o protegeu e o colocou sob suas asas à sua maneira, seja essa maneira beirando ao abuso, ou não, aos seus próprios olhos.

Depois da confusão, Tom se desculpa e diz que não irá abrir mão de Greg, porque, segundo suas próprias palavras, Greg é “inteligente, ambicioso e leal”. Diferente dos Roys, Tom não se preocupa com as questões de poder inexistentes de Greg porque ele, genuinamente, gosta de mantê-lo por perto.

O mais curioso da situação é quando Greg tenta chantagear Tom da maneira mais desajeitada possível e ao invés de ficar furioso novamente, Tom fica, na verdade, orgulhoso e diz que irá promovê-lo e aumentar seu salário. Alguns podem ler isso como uma última tentativa de fazer Greg ficar e, felizmente para Tom, essa tentativa funciona porque Greg continua na “relação fechada” deles.

Não se faz um Tomelette sem quebrar alguns Greggs

No começo da segunda temporada, Tom se mostra incomodado com a possibilidade de Shiv tornar-se CEO, porque o plano sempre foi ele ocupar essa posição e se mostrar realmente necessário na vida dela, sem precisar de alguém entre eles.

É notório que Tom tem esse desejo de ser necessário, apreciado e amado, mas também de ter controle e posse. E ele definitivamente não acha que terá isso de Shiv se ela estiver no topo, se ela tiver mais poder do que ele, porque a relação dos dois é só sobre isso. Poder.

E talvez essa seja a principal razão pela qual Tom gosta de Greg: ele não tem poder nenhum, e consequentemente, obtém um desejo de cuidado, mas quando Greg quer isso em outro lugar, com outra pessoa, Tom não sabe o que fazer ou sentir, porque apesar dele não querer estar abaixo de ninguém, ele também quer ser necessário a alguém.

Shiv não precisa de Tom e os dois sabem disso, logo o relacionamento entre eles nunca funciona. Mas Greg está sempre necessitado de proteção, já que não tem um real apoio dentro da família e por isso seu senso de “lealdade” se baseia na pergunta “O que você pode fazer por mim?”.

A principal preocupação de Greg é ser cuidado e, querendo ou não, ninguém protege incondicionalmente ele como Tom. Então Greg preenche a necessidade de Tom de cuidar de alguém, enquanto Tom preenche a necessidade de Greg de ser cuidado, tornando essa relação praticamente uma codependência que não é abordada.

É justo ditar a dinâmica dos dois como estranha, triste e abusiva, mas também leal, atenciosa e necessária. E é por isso que os dois funcionam na história e terão um destaque ainda maior nas próximas temporadas.

Succession não passa de uma grande, bela e doce tragédia shakespeariana e isso não é visto somente na grande guerra dos Roys, mas também nas batalhas de Tom e Greg.

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Escritora, estudante de jornalismo e leitora voraz de fanfics. Assiste filmes, séries e shippa casais gays mais do que deveria. Parece fria e séria, mas já chorou escrevendo sobre Sherlock Holmes e John Watson na internet.
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