[QUADRINHOS] Sopa de Lágrimas: as mulheres de Palomar e o realismo mágico

[QUADRINHOS] Sopa de Lágrimas: as mulheres de Palomar e o realismo mágico

Já falamos por aqui da série Love and Rockets, produzida pelos irmãos Hernandez. Ela se dividia em dois núcleos de histórias: Lôcas e Palomar. Hoje vamos falar das protagonistas femininas que se destacam na HQ Sopa de Lágrimas, que se passa no núcleo de Palomar, com autoria de Gilbert Hernandez.

O primeiro volume de Sopa de Lágrimas foi lançado aqui no Brasil pela Editora Veneta, em 2016, e nos apresentava aos habitantes do vilarejo de Palomar, um lugar perdido abaixo da fronteira do México com os Estados Unidos. 

Diferente da série Lôcas, que é focada nas protagonistas Maggie e Hopey, em Sopa de Lágrimas acompanhamos diversos personagens em uma trama que consegue dar destaque para todos, sem perder o fio da meada, avançando de forma coesa e satisfatória. Temos personagens interessantes e complexos, tanto masculinos quanto femininos. São personas diversas que englobam LGBTs, pessoas de cor e de todas as formas e tamanhos corporais, juntando tudo o que basicamente falta na cultura pop, de um modo geral. Em Sopa de Lágrimas, o que não falta é diversidade.

Outra característica importante em Sopa de Lágrimas é a sua semelhança com o universo do realismo mágico do escritor Gabriel Garcia Márquez, que apresenta elementos fantásticos e irreais junto ao cotidiano e a realidade habitual da população. O próprio autor Gilbert Hernandez só foi conhecer o trabalho de Garcia Márquez quando já estava no décimo volume da série.

Sopa de Lágrimas pode ser descrita como uma novela mexicana em quadrinhos: cheia de reviravoltas, personagens interessantes, tramas envolventes, junto com a simplicidade do cotidiano e a sensualidade/sexualidade natural das narrativas latinas. Mas além de tudo isso, o grande destaque no protagonismo das histórias fica com as personagens femininas. Elas são o motor que move Palomar e carregam a trama nas costas. Nesse contexto, nada mais justo do que focarmos a análise do primeiro volume nas mulheres de Palomar, destacando cinco das mais importantes.

Chelo

Sopa de Lágrimas

Chelo é a parteira oficial da cidade e a história começa justamente narrando a vida dessa mulher forte e sofrida, trazendo ao mundo os habitantes da cidade. Ela funciona como a base do lugar. Após sofrer uma violência de seu pai, ela fica impossibilitada de ter filhos e acaba tratando todas as crianças que trouxe ao mundo como seus filhos.

Junto com Chelo vemos essas crianças crescerem, se apaixonarem, sofrerem e envelhecerem. Além de servir como base da trama, Chelo também é quem impõe as regras da cidade e acaba virando a comandante do lugar, mandando e desmandando. Mesmo que suas ordens sejam esdrúxulas e até machistas às vezes, como proibir as moças de andarem com saias curtas, ela sempre o faz pensando no bem de seus habitantes e da comunidade.

Ela também protagoniza um momento tocante de sororidade com Luba, que a princípio seria sua rival nos negócios, mas ela consegue reverter a rivalidade feminina que surge entre as duas, de uma maneira muito interessante.

Luba

Sopa de Lágrimas

Luba é a forasteira do lugar, e de longe, a personagem com mais bagagem e carga dramática. Ela poderia ser considerada a protagonista da história, se a trama não fosse tão rica em suas outras personagens. Só o arco da Luba daria pano para manga e preencheria uma HQ sozinha.

Luba já chega em Palomar causando com a sua primeira filha Maricela e com sua prima Ofelia – que ajuda Luba na criação das crianças e é considerada uma segunda mãe por elas. Ela abre uma casa de banhos e começa a competir com Chelo, mas no desenrolar da trama as coisas se resolvem, e Luba acaba se integrando a Palomar.

A personagem é vista como alguém que desperta o ódio das mulheres e a paixão dos homens. É descrita como uma “devoradora de homens” por alguns personagens, apenas por não querer se envolver, nem ter compromissos sérios. Luba também é uma mulher sem problemas com a sua sexualidade, que é algo natural da personagem. Aliás, a maneira como Hernandez retrata a sexualidade de todos os personagens é digna de nota. Em alguns momentos fica claro que Luba prefere os garotos mais novos (adolescentes), o que é uma inversão em uma característica geralmente associada aos homens.

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Ao longo da história Luba tem mais três filhas, somando quatro ao todo, sem nunca revelar quem são os pais das crianças. As características físicas de Luba, como os seus seios grandes, são constantemente motivo de comentários dos outros habitantes, principalmente das mulheres, vista como rival por algumas delas.

A carga dramática que a personagem carrega é algo importante para a trama. Ela acaba mexendo com a vida de vários habitantes da cidade, se tornando um membro importante da comunidade de Palomar.

Luba também é uma empreendedora que faz de tudo para poder cuidar de suas filhas. Além da casa de banhos, também torna-se dona do cinema da cidade, que também é um elemento importante na história, onde exibe clássicos do cinema que são citados em Sopa de Lágrimas.

O arco de Luba se torna ainda mais importante no segundo volume da série, Diastrofismo Humano (Leia AQUI a resenha).

Carmen

Sopa de Lágrimas

A primeira história de Sopa de Lágrimas se inicia com a pequena Carmen. Com dez anos, faz de tudo para ajudar o pobre coitado e seu amigo Tipín Tipín. Ele acabou de levar um fora (e uma surra) de sua amada e está sofrendo muito, a ponto de não querer sair de casa. Carmen faz de tudo para ajudá-lo, até levando-o para sua casa.

Essa é melhor descrição da personagem: ela é determinada e faz de tudo para ajudar aqueles que ama, mas também tem o pavio curto. Na fase adulta acaba desenvolvendo uma certa antipatia por Luba. A importância da personagem se dá pela sua personalidade forte e disposição de ajudar suas amigas próximas, incluindo sua irmã adotiva, Pipo. Carmen foi adotada pela mãe de Pipo que a achou abandonada em uma feira ainda bebê, com um bilhete preso nela.

Carmen se torna um tipo de conselheira na cidade, além de estar sempre disposta a ajudar a sua amiga Tonantzin e aconselhá-la, também dando pitaco na vida de sua irmã Pipo, cuidando de seu marido. Ela vira uma dona de casa, mas com uma participação importante na cidade.

Pipo

Sopa de Lágrimas

O arco dessa personagem é algo que compete, de igual para igual, com o protagonismo de Luba nas histórias, por isso não podemos dizer que Luba é a única personagem com destaque.

Pipo é descrita como uma das meninas mais bonitas de Palomar, e ainda criança desperta o desejo de vários homens adultos, perdendo a sua virgindade aos 13 anos de idade com um homem mais velho. No desenrolar da trama, ela acaba se envolvendo com diversos homens mais velhos, que afetam a sua vida de maneiras irreversíveis, transformando a personagem em vítima de abusos e até de violência; o que poderia descrever a personagem como alguém frágil e suscetível aos homens que a cercam. Mas a maneira como Pipo é construída e como ela evolui na trama, acaba fazendo com que ela cresça mais do que os homens que a rodeiam, tornando-a uma personagem forte e relevante, apesar de todo o abuso sofrido.

Ela também tem uma ligação próxima com Luba, que mesmo disputando o mesmo cara, nunca a trata com desprezo ou rivalidade.

Tonantzin

Sopa de Lágrimas

De todas as mulheres descritas até agora, Tonantzin é o ponto mais fora da curva. Na primeira aparição da personagem, ela parece ser alguém que transa com qualquer um que vê pela frente e desperte o seu interesse. Ela tem o sonho de ir para os Estados Unidos e se tornar uma estrela de Hollywood. Seu sonho faz com que ela seja usada por um estrangeiro, que chega a Palomar para retratar o lugar com o seu olhar de colonizador.

Tonantzin poderia ser facilmente encaixada no lugar de objeto sexual nas histórias, pelo seu corpo escultural e sua sexualidade livre, mas não é isso que acontece. A personagem tem uma relação muito próxima com a sua irmã mais nova, e todas as suas atitudes vistas como frívolas e sem sentido acabam se tornando um ato político, conforme o seu desenvolvimento na trama. Com certeza é uma das personagens mais complexas de Palomar. Ao mesmo tempo em que poderia ser vista como alguém que os homens usam, ela também usa os homens para satisfazer seus desejos e sonhos, subvertendo as relações.

Para finalizar, as descrições e histórias de fundo das personagens têm passagens como violência doméstica, abandono, abuso, aborto, gravidez na adolescência e uma série de situações que são comuns a existência feminina, em uma sociedade machista e violenta. Gilbert Hernandez consegue expor essas situações como algo inerente a vida das personagens, e mostra como isso afeta a trajetória de cada uma na trama, mas sem que isso se torne o elemento principal da motivação delas.

O que motiva as personagens femininas de Sopa de Lágrimas é a necessidade de viver e sobreviver em meio a todas essas situações. Além disso, suas existências não se resumem apenas as violências que vivenciam. É interessante notar também que apesar das brigas e mal entendidos, as personagens sempre acabam se apoiando umas nas outras nas horas de dificuldade.

Por essas e outras que Sopa de Lágrimas é considerada uma das melhores HQs dos últimos 35 anos, nas palavras do próprio Neil Gaiman.


Sopa de LágrimasSopa de Lágrimas

Gilbert Hernandez (Autor, Ilustrador)

Editora Veneta

288 páginas

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Formada em artes visuais e apaixonada por arte, música, livros e HQs. Atualmente pesquisa sobre mulheres negras no rock. Seu site é o Sopa Alternativa.
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