[QUADRINHOS] Sem Dó: Mistura de quadrinhos e cinema ao retratar a São Paulo dos anos 20

[QUADRINHOS] Sem Dó: Mistura de quadrinhos e cinema ao retratar a São Paulo dos anos 20

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Sem Dó, a HQ de estreia da quadrinista Luli Penna, foge ao convencional desde a orelha do livro: em vez de uma sinopse da obra, o leitor encontra uma “breve introdução às personagens”. E quem seriam esses protagonistas? Entre eles, encontramos a São Paulo dos anos 20, “com seu vaivém de chapéus, bondes, ruas e trilhos”. Mas esse não é o cenário da história? Sim e não. Tudo depende do caminho narrativo que você escolhe ao se aventurar pelas 192 páginas que poderiam tranquilamente ser transformadas em 300.

Sem Dó narra uma história de amor e tragédia, bem shakespeariana, vivida por duas irmãs e um estranho com algumas críticas aos papéis de gênero que eram ainda mais escancarados naquela época. Mas também condensa, em paralelo, a trama de uma metrópole em erupção, que cresce em um ritmo descompassado e, cada vez mais, transforma indivíduos em meros números em meio à multidão nas ruas.

Sem Dó

A ideia inicial era narrar a vinda de seu avô e seu tio-avô da Europa para o Brasil. Tanto é que Luli já tinha muito material pronto. O negócio é que, enquanto fazia pesquisas sobre seus ancestrais, acabou se deparando com uma história meio nebulosa de duas tias. Foi aí que ela decidiu não falar de dois homens e, sim, de duas mulheres de sua família.

A trama se desenvolve ao redor de Lola, ou Dolores, uma jovem que trabalha como faxineira em uma casa da elite paulistana para complementar a renda familiar. O fato de possuir um emprego fixo lhe dá uma relativa autonomia. Isso causa uma mistura de inveja e admiração em sua irmã mais nova, Pilar, que apenas observa a irmã ir e vir das ruas todos os dias enquanto ela mesma é impedida pelos pais de trabalhar.

Em uma dessas idas ao trabalho, o caminho de Lola cruza o de um estranho, que está de chegada em São Paulo. É a partir daí que o enredo se desenvolve. Não sabemos nada sobre aquele homem. Qual o seu nome? De onde vem? O que pretende fazer na cidade grande? Nada disso importa, a não ser o fato de que, quando se depara com Lola na rua, ele se apaixona perdidamente. Depois de alguns dias seguindo a jovem nas ruas, sem dizer absolutamente nada, ele toma coragem e a chama para sair. A partir daí, eles começam a viver um romance cinematográfico (escondido dos pais de Lola)!

Não contaremos mais sobre a história para evitar spoilers. Mas um fator muito importante e não apenas para o desenrolar da HQ é a estreita conexão entre o quadrinho e o cinema. Desenhada toda em preto-e-branco e sem balões de fala, Sem Dó se assemelha muito ao cinema mudo da época.

O enquadramento (Luli vai se distanciando ou se aproximando de determinados objetos até mostrar a cena que quer mostrar) e o movimento (uma das partes mais bonitas é a hora em que Lola passa um tecido estampado e a confusão de formas geométricas vai, aos poucos, se organizando) também ajudam a transmitir essa sensação de que tudo aquilo poderia ser facilmente adaptado e passado nas telonas.

Sem Dó

Outra característica trazida pela autora para ambientar o leitor na década de 20 foi a densa quantidade de anúncios publicitários e artigos jornalísticos todos eles parte de um acervo que ela criou (e aumentou) durante as suas pesquisas. Cada um dos anúncios realmente existiu!

E como em quadrinho nenhuma das informações está lá por acaso, acompanhar cada um deles e analisá-los minuciosamente nos dá uma outra visão de tudo o que acontece; como, por exemplo, questionar muitos dos hábitos e atitudes das personagens. Elas agiram de forma genuína ou foram influenciadas por propagandas e artigos dos jornais?

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Essa intensa influência exercida pela mídia nos personagens fica explícita durante toda a história, que é regada por essas referências. Sendo a publicidade predominantemente voltada ao público feminino, fica também aquela dúvida: o quanto mudamos daqueles tempos para cá?

É difícil dizer se somos realmente livres ou produto de uma mídia que apenas muda de tempos em tempos o padrão do que seria considerado “a mulher moderna”. Luli Penna consegue, com poucas palavras, fazer com que reflitamos sobre essas questões e muitas outras.

Sem Dó

A ilustração da autora, nascida em 1965 e que já teve seus trabalhos publicados em zines, revistas femininas, nas Ilustrada e Ilustríssima da Folha de São Paulo e também na Piauí, é impecável. Para quem é paulistano e possui um apreço pelo centro velho da cidade, é impossível não ser tomado por um sentimento de nostalgia (mesmo considerando que não tenhamos vivido naquela época).

Luli Penna consegue, ao mesmo tempo, capturar a essência de mudança de uma metrópole em expansão, a briga da modernidade que, batendo à porta, colide com costumes e valores antiquados, ao mesmo tempo em que questiona o quanto a mídia pode e exerce controle sobre nós e que, na maior parte das vezes, ele passa despercebido.

Uma HQ densa, que merece ser lida e relida incontáveis vezes!


Sem DóSem Dó

Luli Pena

Editora Todavia

192 páginas 

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Feminista, bruxa e vegana. Estudante de jornalismo e de bateria. Apaixonada por gatos, filmes de terror, contracultura e roller derby. Cozinheira (e meio piadista) nas horas vagas.
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