Gintama: sororidade e opressão de gênero do Estado

Gintama: sororidade e opressão de gênero do Estado

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Diversos estudos da teoria feminista apontam que o Estado, por ser estruturado em uma perspectiva masculinista, promove e participa diretamente da opressão masculina e da misoginia sofrida pelas mulheres, institucionalizando a violência de gênero. Historicamente, o Japão enquanto Estado, se envolveu em casos reconhecidos internacionalmente, como algumas das maiores agressões baseadas em gênero da humanidade. Em Gintama é apresentado ao público não somente as violências de gênero inspirados em fatos reais da história japonesa, mas também a resistência das personagens femininas que quebram estereótipos recorrentes dos mangás.

Gintama é um mangá serializado pela Shounen Jump desde 2003 pelo autor Sorachi Hideaki, com fim estimado para 2018. O anime passou a ser produzido em 2006, alavancando a popularidade da história nas terras nipônicas. A trama de Gintama gira em torno de sátiras, piadas ácidas e críticas sociais, principalmente àquelas que cercam o Japão.

Com discussões ferrenhas sobre ocidentalização, corrupção, tráfico, escravismo, transfobia e sexualização, Gintama se passa no período Edo da história japonesa, durante a ditadura feudal do shogunato (bakufu) Tokugawa. A abertura das terras japonesas para a influência direta dos ocidentais (vistos como “bárbaros”) ocasionou sentimentos de anti-estrangeirismo no imperador e nos nacionalistas da população, formando uma força rebelde que resultou na Guerra de Joui.

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O protagonista Sakata Gintoki foi um lendário samurai que lutou ao lado da resistência rebelde em sua adolescência, e se tornou um herói de guerra, mesmo com a derrota. No mangá, os estrangeiros ocidentais foram substituídos por estrangeiros alienígenas, os Amanto, com uma clara intenção ácida do autor. A história se inicia anos após a Guerra de Joui, com Gintoki traumatizado pelas batalhas e tentando seguir sua vida com o trabalho de faz-tudo (yorozuya), ao mesmo tempo que a estrangeirização e a corrupção do shogunato crescem no país. Do outro lado, as forças rebeldes consideradas terroristas (os antigos amigos do Gintoki) voltam a ser mais ativos do que nunca, se dividindo em facções que são mais liberais ou mais extremistas.

Kagura é a heroína feminina principal da história, ingressando na trama como uma integrante do faz-tudo do Gintoki. A personagem é responsável por grande parte das críticas mais ácidas que são propostas em Gintama, incluindo comentários irônicos sobre sexualização ou estereótipos de personagens femininas dos mangás.

No universo de Gintama, os mangás, animes e a cultura pop atual existem, o que cria mais oportunidades para sátiras sobre o tema, além de diálogos com a quebra da quarta parede – um artifício de roteiro em que o personagem é plenamente consciente de que é um personagem e está sendo assistido por um público. Kagura não perde oportunidades de mencionar como ela foge dos padrões impostos nas personagens femininas, sendo alguém que come muito, fala palavrão e chama homens pervertidos de sujos.

Gintama
(Kagura / “Gintama”)

A garota que inicia suas aparições com 14 anos é retratada como decidida e segura de si – em sua vida pessoal fugiu da família para buscar uma vida e uma família melhor na Terra, longe das batalhas sangrentas e genética homicida do seu clã. Kagura é o personagem mais fisicamente forte do grupo protagonista, além de ter incríveis habilidades de luta. Ela não é apenas incrivelmente forte, como é constantemente reconhecida como tal por todo o núcleo de personagens. Katsura Kotarou, o líder das forças rebeldes, considera Kagura a “grande líder”, mostrando um comportamento de extremo respeito para com a personagem.

Kagura possui admiração e amizade por praticamente todas as mulheres de Gintama, sempre as chamando de “irmãs”, e em geral, preferindo a companhia delas invés da companhia masculina. Sua relação com as outras garotas é bem desenvolvida, em especial com a Soyo, irmã menor do shogun, acarretando em subtramas que interferem diretamente na história política central.

Gintama
(Kagura / “Gintama”)

LIDERANÇA FEMININA: A FORÇA DAS MULHERES EM “GINTAMA”

A trama de Gintama aparece com a maioria absoluta de suas personagens femininas em posição de liderança e atuação política. Four Devas, como são chamados os líderes do Distrito Kabuki, se tratam de três mulheres (uma trans) e um homem. Yagyu e Ikeda, as duas famílias de samurais de elite mais famosas, são comandadas por mulheres – que não estão apenas na linha de sucessão, como são as mais talentosas dos clãs, unindo uma legião de seguidores fiéis.

Gintama
(Yagyu Kyuubei / “Gintama”)

Otae, uma das personagens femininas de maior destaque, é chefe de família e criou sozinha o irmão menor. Seu objetivo é reconstruir o dojo falido e continuar a ensinar o estilo de espadas da família. A personagem é considerada um pilar de apoio pelo núcleo feminino de Gintama, sempre sendo protetora com mulheres que estão em situações abusivas.

Mimawarigumi e Oniwabanshuu, duas equipes importantes para a história de Gintama, tiveram de vice-líderes duas das mulheres mais icônicas do mangá, Nobume e Sacchan. Com núcleos de desenvolvimento intenso, as personagens são grandes prodígios em suas profissões. Nobume, a vice-comandante do grupo militar Mimawarigumi, tem a melhor técnica de espada do mangá, e as habilidades de assassinato mais refinadas em gerações. Sacchan ou Sarutobi Ayame é uma ninja de talento impecável e uma personalidade extremamente decidida – além de ser extremamente bem resolvida sexualmente, falando de maneira aberta sobre sexo e fetiches. Sacchan compartilha do mesmo interesse amoroso que Tsukuyo, mas as mulheres nutrem um companheirismo e empatia inabalável que foge dos padrões machistas de rivalidade feminina.

Gintama
“Essa nação não tem respeito pelas mulheres” (Nobume / “Gintama”)

A CIDADE DE YOSHIWARA: EM CHAMAS

O shogun Tokugawa Hidetada centralizou as zonas de ‘prostituição’ em algumas das maiores cidades do país, sendo o mais famoso deles a cidade de Yoshirawa, o distrito de luz vermelha de Tóquio (na época, Edo). O lugar era constantemente frequentado por membros do alto escalão do governo, militares e os próprios shoguns, além de se envolver em intrigas políticas. Alguns livros sobre a história de Yoshiwara, como Yoshiwara: The Glittering World of the Japanese Courtesan, reforçam os rumores de que assassinatos políticos e armadilhas eram comuns no distrito. Mesmo sendo um local conhecido como zona de prostituição licenciada pelo Estado, a maioria das mulheres de Yoshiwara eram escravas sexuais, muitas vezes vendidas e exploradas desde crianças pelos pais e chefes de bordéis, passando todas as suas vidas sem conseguir pagar os débitos para serem livres.

Em Gintama, a situação de escravidão em Yoshiwara é fortemente destacada, com ênfase em cenas de mulheres em gaiolas ou mortas por doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, ou tentativa de fuga. A figura central da saga Yoshiwara Em Chamas é Hinowa, a cortesã mais famosa e aclamada da cidade. Hinowa é considerada a mulher mais bonita e elegante do lugar, o que contribuiu para a sua popularidade como cortesã da alta classe.

Gintama
(Hinowa / “Gintama”)

As mulheres de Yoshiwara enxergam Hinowa como o seu ícone de suporte, por ter passado pelas mesmas situações de trauma que elas, mas ter continuado mantendo sua força – uma força que inspira as mulheres de Yoshiwara em sua sobrevivência, por isso Hinowa é chamada por elas como o “sol de Yoshiwara”, a luz que ilumina mesmo na escuridão, compartilhando sua determinação com as outras mulheres. Hinowa, com sua empatia e sororidade, ajudou várias mulheres a beira da morte ou em situação de gravidez, além de apoio emocional para enfrentar as situações abusivas; isso quando a própria Hinowa também encarava as violências que sofria. Suas pernas foram cortadas para nunca mais tentar fugir de Yoshiwara ou apoiar mulheres e crianças.

Uma das mulheres influenciadas por Hinowa foi a Tsukuyo. Vendida por seus pais, Tsukuyo iniciou o treinamento de cortesã desde nova. Para fugir dessa função, Tsukuyo fez cicatrizes no próprio rosto, de maneira a ser considerada fora dos padrões de beleza. Ela iniciou um treinamento ninja com um sensei que se mostrou terrivelmente abusivo e misógino, Jiraiya. O professor de Tsukuyo afirmava que feminilidade era fraqueza, pois supostamente atrai emotividade. Em sua saga pessoal, Tsukuyo confrontou os pensamentos do seu sensei para mostrar que ela era forte da maneira que ela quisesse ser.

Gintama
(Tsukuyo / “Gintama”)

Já adulta, Tsukuyo se tornou líder da força policial de Yoshiwara, contratada para impedir que as mulheres escravas infringissem as regras e fugissem. Por baixo desse disfarce, Tsukuyo tinha o objetivo principal de proteger as mulheres de Yoshiwara de abusos, assédio e morte. Tsukuyo fingiu a morte de diversas mulheres para tirá-las da vida de cortesãs e treiná-las às escondidas, posteriormente fazendo-as ingressar nas forças policiais para ajudar outras mulheres. Dessa maneira, Tsukuyo também passou a ser considerada luz para a vida da população feminina da cidade, a “lua de Yoshiwara”.

Ao conseguir destruir a cidade e libertá-la do domínio dos homens, Hinowa e Tsukuyo, sol e lua, se uniram para liderar o lugar como pessoas livres.

Gintama
(Hinowa e Tsukuyo / “Gintama”)

A saga Cortesã da Nação é, definitivamente, um dos maiores ícones de representatividade feminina em Gintama. Nesse esplêndido arco, Kagura, Tsukuyo e Nobume protagonizam lutas no palácio do shogun em nome da honra das mulheres de Yoshiwara, exploradas pelo shogunato para criar armadilhas e assassinar rivais políticos do governo. As três personagens declaram guerra ao país em nome de todas as mulheres que foram exploradas pelo Estado – como elas mesmas disseram, a nação foi construída sobre a lágrima de mulheres, mas mas essa mesma nação é incapaz de encará-las ou derrotá-las.

Gintama

As histórias das mulheres de Gintama são, principalmente, histórias de resistência contra uma sociedade que oprime; resistência que é unida, livre, independente e feminina. Em todos os momentos do mangá, as liberdades das mulheres sempre são consequência das lutas de outras mulheres, que lideram sua própria batalha no mundo machista.


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Bacharel em Relações Internacionais, feminista, e fã da cultura pop; em especial no que compreende o universo de animes e mangas.
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