[MÚSICA] Batemos um papo com Giovanna Moraes, que está prestes a lançar “Àchromatics”, seu primeiro disco!

[MÚSICA] Batemos um papo com Giovanna Moraes, que está prestes a lançar “Àchromatics”, seu primeiro disco!

Giovanna Moraes é uma daquelas pessoas inquietantes e decididas. Com apenas 25 anos, está prestes a lançar seu primeiro disco, Àchromatics, que está com uma campanha de financiamento coletivo disponível até o dia 21 deste mês.

Inspirada pelas espirais da escala cromática, pelo universo fantástico e pelo caos, foi através de uma situação dramática que ela decidiu que a música não poderia mais esperar: “Quanto eu tava nos Estados Unidos, trabalhando como freelancer, um parasita entrou no meu olho, que me impediu de enxergar por um tempo. Foi um processo espiritual, quando percebi nessa situação difícil, repensei a minha vida e decidi que ia ficar na música”, contou.

Abaixo, confira o bate-papo exclusivo de Giovanna Moraes com o Delirium Nerd!

O que a gente pode esperar do seu disco de estreia? Como essa questão da autodescoberta se relaciona com o seu disco?

Eu percebo que quero fugir dos problemas e eles estão lá. As letras tem um pouco dessa pegada de autodescoberta em algumas músicas. O conteúdo foi escolhido a dedo para cada single, tivemos fotos especiais, tudo para que elas conversem com a sensação que as músicas passam. Como são letras de mim para mim mesma, elas são mais abstratas. Tu não precisa entender a letra para entender a emoção, a dor que você sente, sei lá, quando eu berro em uma música, isso deveria te dar a experiência do que a música tá te dando. As escalas cromáticas [Àchromatics significa ‘Ao jeito cromático’] dão uma sensação de espiral, um parafuso mental. Acho que esse conceito ajuda a apresentar o movimento e o caos do que você é e como você tenta resolver isso. Eu gosto muito mais de interagir através de timbres e vocais, acho que você consegue dizer mais com emoção do que com as palavras. A comunicação é sempre um processo de tradução, mas se você reconhece a minha emoção, não tem zona de tradução. Você leu a minha mensagem sem precisar da palavra. Acho que isso é uma força do álbum. Muitas das referências de som que eu imagino, você não vai imaginar, mas você vai encontrar referências do som, do que pode encaixar com você. Acho mais interessante o que você traz para dentro, existe uma biblioteca inteira de possíveis sons, sabe? Mas muitas coisas vieram da neurociência, da literatura, da filosofia e vai ter muito de jazz, tem um som diferente vindo aí.

Morar no Estados Unidos influenciou nesse processo? Voltar para o Brasil também?

Morar lá foi bem difícil, mais do que eu imaginei. Saí com raiva daqui e achei que não ia mais voltar. No final o primeiro semestre, meus pais me ligaram, perguntaram se eu queria voltar para a casa no Natal, e eu só chorava porque queria ir. Demorou muito para eu me acomodar, eu tive que amadurecer, muitas coisas que eu achava que já era independente mas não era, que eu sabia tudo, eu tive que aprender de novo. Depois de um semestre, eu saquei que não queria morar nos Estados Unidos, sentia saudades de casa, saudades do que eu reclamava, de estar perto da família. Foi difícil adaptar, no primeiro ano, um colega tentou se matar. Foi muito pesado. Tudo isso junto, e eu morando no mesmo lugar, com muita gente com a mesma idade que você, morando no mesmo lugar, demora um tempo até entender que você tá lá para estudar, que você tá sem teus pais, em outro país. Durante o meu último ano, eu já tava afim de voltar para o Brasil. Voltei para os Estados Unidos, para fazer uma pesquisa, mas eu já tava querendo voltar, ter uma experiência adulta em São Paulo. Lá em Nova York, enquanto fazia a pesquisa, eu me senti meio sozinha. Tem muita gente, mas eu me sentia muito invisível. Enfim, me convidaram até para ficar em Oxford, mas eu queria ficar em São Paulo, investir na minha música, fazer outras coisas. Acho que todo esse processo influencia, tudo influencia na música, tudo que você conhece influencia o teu pensamento.

Tem muita mistura e várias influência no disco, tem post punk, tem jazz, entre outros. Nesse primeiro disco, você encontra caminhos pro teu som ou já os encara como pontos de chegada para seus próximos trabalhos?

Na minha cabeça, tudo é caminho. Tudo é processo. A gente não chega em nenhum lugar. Muitas canções do disco eu comecei há muito tempo, uma delas quando eu tinha 12 anos. Mas, ao longo do tempo, eu quis expandir, melhorar, encaixar o que eu sentia no momento. Todas as músicas são muito plásticas, eu queria gravar algo que fosse vivo. Mas, para a gente que quer ‘atingir a perfeição’, a gente ‘mata’ muita coisa, quando estamos desenvolvendo. O caminho é sempre uma autodescoberta. Eu gosto de encarar a música como um terreno, onde tudo que tu pode criar e fazer, é possível naquele espaço. A brincadeira da música é tipo uma brincadeira de telefone sem fio, a gente esquecendo, moldando. Às vezes ‘autoconhecimento’ parece que tu só pode ser uma coisa, eu gosto mais de ‘descoberta’. ‘Descoberta’ é descobrir mil coisas, os conflitos, os desafios, é um tipo de liberdade. Se você tem conflitos, tudo se torna mais humano. Para eu entender isso, foi um processo muito doloroso, não tem um lugar de chegada. Você é uma pessoa que tem dificuldades com uma coisa, sempre existe a chance de isso te fazer mal outra vez. Por isso, tu tem que ficar monitorando e trabalhando isso. Se a gente decide pelo hábito e pela inércia, a gente anula a possibilidade de algo novo. O constante desafio te permite explorar alternativas.

Como é o teu processo criativo, principalmente na hora das composições?

A minha tia, que me ensinou tocar violão, era super certinha. Ela me dizia ‘Se os Beatles fazem assim, você também faz assim’. Eu sempre quis fazer as coisas do meu jeito. Ela me dava uma música, eu aprendia, mas logo fazia uma brincadeira e mudava várias coisas nela. Ficando mais velha, a gente fazia churrascos na casa de parentes, e sempre tinha um momento em que ela pegava o violão, começava a tocar, e eu cantava já improvisando. O improviso sempre esteve comigo, penso em uma harmonia meio base e brinco em cima, seja no piano ou na voz. Eu demoro muito tempo para compor, porque fico sentada, descobrindo e assim encontrando caminhos novos. De repente, você toca uma nota errada, e isso se torna lindo, isso te move. Eu gravo tudo e escuto tudo. O erro é bonito, o jeito que tu tenta resolver um problema, isso tá dentro da minha estética. Você escuta e interpreta diferente, é como uma memória. Depois de tudo isso, tem algumas partes que eu gosto, que tem mais formato. Eu escrevo por último. Eu gosto da rítmica da letra e gosto de compor em inglês, porque tenho facilidade. Mas minha próxima música vai ser em português. Adoro um desafio.

Quais são as tuas influências?

Eu acho que sou um caso um pouco estranho, porque eu estudei mais outras coisas na vida do que a música. Eu praticava muitos acordes, tocava muito, mas fiz pouco cover. Qualquer base eu já improvisava em cima. Mas eu gosto muito de jazz, de Ella Fitzgerald, Fiona Apple, o trabalho delas é mais atonal e mais rítmico, tem a ver com o meu disco. Muitas outras referências eu descobri quando eu ia fazer o disco, mas também sempre gostei de Queen, as cambalhotas vocais do Freddy Mercury, Pixies, as minas fodas do punk, no geral eu adoro as mulheres fodas que entraram no rock mesmo sem espaço para elas. Gosto do Bob Dylan também, pelo fato de que ninguém conseguiu catalogar a música dele.

Giovanna Moraes
Imagem: Giullia Paulinelli

Como é estar na cena independente?

É muito trabalho. Uma das razões para não ter feito algo artístico antes era um certo preconceito meu de achar que quem faz música e arte tá ‘só na vida boa’. Mas é muito trabalho, tem que se virar, fazer tudo. É investir em campanhas online, site, vídeos,… eu sou uma pessoa particular, gosto do do meu jeito. E o melhor jeito de explicar, é mostrando, então acabo me envolvendo em vários processos.

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Mas eu acho super difícil, sendo uma mulher jovem, com muitos homens querendo me dizer o que fazer. Foi um processo até eu encontrar o pessoal com que meu trabalho hoje. Por eu ter uma cara de “menininha”, muita gente queria me enquadrar em uma vibe “Florence + The Machine”, tocar harpas, etc, mas eu não quero isso. Enfim, você tem que ir aos poucos, assim você vai conseguindo, chamando as pessoas para fazer o trabalho contigo. Apanhei muito, mas tive muita sorte de ter uma equipe pequena, mas de pessoas que eu confio e que entendem a minha estética.

E como o financiamento coletivo influencia a produção do disco, já que é algo que as pessoas estão contribuindo e também gera mais expectativa?

Então, no meu caso o projeto, que é o disco, já está feito. A campanha é para me ajudar no lançamento. Quando eu comecei, não imaginava que ia ser o que é, o dinheiro que eu achei que ia ser suficiente, acabou sendo muito menos do que eu precisava. Usei muito do dinheiro que guardei com pesquisa acadêmica, mas tudo porque eu queria fazer uma coisa de qualidade, sou super exigente. Eu foquei na divulgação também, já que fiquei muito tempo fora. Enfim, o financiamento foi super uma boa ideia e tá indo mega bem. O disco já está feito, mixerizado, e o conto eu terminei agora em janeiro. Foi ótimo pensar nas recompensas do meu trabalho, pude utilizar a teoria de tudo que aprendi na universidade, isso fortificou o meu projeto.

Quem colaborar com o financiamento coletivo ganhará o disco acompanhado de um conto. Como ele se relaciona com o disco?

É um conto de realismo fantástico, com um personagem principal chamado Tim, e a história se passa no seu inconsciente. Cada capítulo é baseado na sonoridade e na sensação, na ordem das músicas. “Dark” [faixa do álbum] tem uma pegada rock progressivo, e é a entrada do conto. Então, ele tá super perdido, confuso, e o senhor dizendo que ele não deveria estar ali. E é uma jornada de uma busca, busca por si mesmo, para crescer. As temáticas se conectem, mas não pela letra. Eu escrevi o conto em inglês e em português. A minha mãe é artista, fez os desenhos que estão no conto. Enfim, com o conto e com o CD, você tem a sua própria experiência do “Àcromatics”. Eu comecei a sacar que eu tinha muito do meu personagem principal, até. Eu tô bem feliz com o conto, tô bem animada.

Foto em destaque: Giullia Paulinelli (crédito)

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Estudante de jornalismo que ama milkshake, comidas veganas e poesia na mesma intensidade que não suporta desfazer malas ou arrumar o quarto. Vivendo sempre em um ritmo frenético, só a música consegue se fazer presente em todos os momentos. Ouve de tudo toda a hora e já fez playlist até para tomar banho.
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