[LIVROS] A Casa dos Espíritos: as mulheres além do tempo de Isabel Allende (resenha)

[LIVROS] A Casa dos Espíritos: as mulheres além do tempo de Isabel Allende (resenha)

Tudo acontece tão depressa que não conseguimos medir a consequência dos atos“. Isabel Allende é aquela escritora de quem muitos já ouviram falar, mas não tantos já leram. Filha de um primo do presidente chileno Salvador Allende, é quase sempre mencionada quando abordada a ditadura de Augusto Pinochet – uma das mais sangrentas da América Latina.

Sua obra revela que a autora merece ser mais do que apenas um nome secundário na história. Isabel Allende deveria ser mais conhecida e lida, sobretudo pela América Latina. A ditadura contra a qual discursava e da qual fugiu, afinal, não foi um evento isolado. Foi apenas mais uma entre várias que assolaram o continente e que marcaram os rumos da política do século XX. Ao abordar a ditadura, Isabel Allende não aborda apenas problemas locais. Um governo autoritário será autoritário independente do tempo ou do local. Assim, a autora perpassa por problemas atemporais e adentra questões de feminismo e colonização já em sua primeira grande obra, o marco de seu realismo fantástico, A Casa dos Espíritos. [contém spoilers]

Rosa, a imaculada

Pode-se dizer que tudo começa com Rosa, mas na verdade tudo começou antes. “[…] tudo acontece tão depressa que não conseguimos ver a relação“. A citação exprime o resumo da obra. A Casa dos Espíritos é um livro que conecta elementos do passado, presente e futuro. Retrata a repetição da violência através das gerações. E para chegar ao fim de Alba, aquela que narra junto ao avô, é preciso passar por sua tia-avó Rosa, com quem compartilhava a cor verde dos cabelos. Talvez o adequado fosse falar antes de Nívea, a primeira de uma série de nomes sinônimos (Nívea, Clara, Blanca, Alba). No entanto, foi através de Rosa que Esteban Trueba entrou na vida de Clara. E foi através dele que três gerações de mulheres sofreram as consequências da violência de um homem.

Rosa del Valle segue o estereótipo da pureza. Narrada como um anjo, portava os cabelos verdes não como uma aberração mas como um diferencial sagrado. Sua aparente docilidade foi o que atraiu Esteban Trueba, com quem logo noivou. Rosa não era a mulher apaixonada, mas aceitara aquele que seria, de fato, o destino da jovem Clara. E em seus bordados registrava uma liberdade animalesca, mas também a prisão, a natureza de ser resignada. Não é que não amasse Esteban, mas o tempo e a distância saturavam o que nunca fora vívido.

O casal nunca chegou ao altar, pois um acidente pôs fim à vida de Rosa. Entretanto, nem mesmo na morte os homens respeitam o corpo feminino. E Rosa, que morreria intocada, foi deflorada sob os olhos da caçula Clara. Clara, que podia ver o futuro, não imaginava ver tamanha violência no tempo presente e em tão tenra idade. E preferiu se calar por nove anos, pois nada tinha a dizer ao mundo.

Pancha, a primeira de uma série

Se de um lado um homem curou sua angústia pela impossibilidade de possuir um corpo belo e jovem na violação de um cadáver, do outro, um homem curou essa mesma angústia com a violação de outros corpos vivos. Esteban, que passara dois anos buscando fortuna para satisfazer a luxúria que sentia por Rosa, não admite o esforço em vão ao vê-la morta. Encara sua dor como razão suficiente para o estupro de uma série de mulheres – a primeira manifestação de violência de uma série em sua família.

Seu histórico é marcado por corpos, sobretudo de jovens meninas. A única de que se lembrou por um tempo foi Pancha, a mulher virgem que violentou na mesma margem do rio em que um dia sua filha se deitaria. Pancha, a mãe do único filho bastardo de que tinha conhecimento – conhecimento que não durou mais que alguns anos.

Pancha, a primeira de uma série, foi uma mulher pobre, cujo patrão achou-se no direito de tomar não apenas seu trabalho, mas seu corpo e sua dignidade, e descartar tão logo o tempo e a gravidez que lhe marcasse a aparência. Enquanto mulheres carregam no ventre a violência, homens seguem impunes, protegidos por sua masculinidade. E Pancha passou ao neto Esteban Garcia a amargura pelo crime cometido contra ela. Com ele, a vingança adquiriria não uma vontade de justiça pelas mulheres, mas de mais violência – a ideia estrutural de que a violência contra um homem deve ser concretizada nas mulheres que lhe importam.

Clara, clarividente

A primeira vez em que Clara falou, depois de nove anos, foi para anunciar que iria casar. Desde pequena manifestara o poder de clarividência e da telecinese. Assim, seus pais estranharam mais que falasse do que a previsão de se casaria com Trueba.

Ainda que estivesse presente, a mente de Clara nunca pertencera ao marido. Clara era do mundo e de além dele. E embora Esteban se resignasse, desejava também ser dono da mente dela. O que entendia por amor era na verdade um anseio de posse. Durante alguns anos o casamento foi tranquilo, apesar do caráter violento de Esteban. Após um ato de violência contra a esposa, contudo, Clara recusou-se a falar novamente com ele – decisão que levou até seu leito de morte. Novamente, não diria nada a quem não merecia ouvir sua voz.

Clara dedicava-se aos mistérios sobrenaturais, nos quais inseriu a família. Dedicava-se também a ajudar os mais pobres, da mesma forma que sua mãe fazia quando levava as ideias sufragistas às classes mais baixas. Importante ressaltar que Allende faz uma crítica implícita às ideias de uma salvação arrogante das classes privilegiadas, que ignoram as diferentes realidades sociais na promoção da igualdade.

Assim, Clara era o elo entre indivíduos solitários. Era o centro de uma família marcada pela violência. Era a alma de uma casa habitada por vivos e mortos. A resistência entre o passado e o futuro.

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Férula, a devota

Férula foi primeiro devota a Esteban. Esforçou-se para dar ao irmão uma educação adequada. Cuidava da economia família, cuja fortuna fora exaurida pelos caprichos do pai. Quando a mãe adoeceu, entregou-lhe a vida. Cuidou dela até que falecesse. Enquanto isso, Esteban vivia livre. Ignorava a família e fazia fortuna.

Após o casamento de seu irmão com Clara, Férula foi morar com eles. Clara foi a primeira pessoa a dignar um pouco de seu amor para a cunhada, que nunca conhecera o carinho. Nascida mulher, não teve as escolhas de seu irmão, e conformou-se em ser uma fiel escrava das vontades alheias. No entanto, Clara enxergava-a. E, embora não pudesse lhe retribuir o amor, amava-a.

Isabel Allende insere, através de Férula, a homossexualidade feminina. Férula, uma mulher religiosa, confessa seus desejos por Clara. Esses mesmo desejos serão apontados por Esteban em um momento de ciúmes, antes de expulsá-la de casa. Sem ser aceita, Férula dedica-se integralmente aos pobres. E somente volta à casa de seu irmão para se despedir de Clara, logo após a sua morte.

Blanca, a que queria amar livremente

Férula não esteve presente quando Esteban descobriu o romance de Blanca com o filho de seu capataz. O ódio que sentia por Pedro Garcia Terceiro ia além do fato de ele ser de uma classe mais pobre. Pedro Terceiro usava sua voz para cantar as músicas da revolução. Criava canções sobre raposas e galinhas. Tentava unir os trabalhadores em prol da justiça. Para Esteban era inconcebível que Pedro Terceiro não o reconhecesse como um bom patrão. Em sua mente, salvava os trabalhadores da infantilidade, dando-lhe a quantidade de dinheiro suficiente para que não se entregassem a vícios para os quais não tinham maturidade.

Quando descobriu a gravidez de Blanca, forçou a casar-se com outro. O casamento não durou muito, mas mesmo depois de reencontrar Pedro Terceiro, Blanca se recuaria a um novo compromisso. Queria ser livre e manter a vida que tinha. Não via razões para se sacrificar pelo homem que amava. Pedro Terceiro lutava por suas causas operárias, mas nunca havia fortemente lutado por ela ou por sua filha.

Assim, ela criou Alba sozinha, na casa de seu pai, apesar da relação conflituosa. Contou a Alba histórias de princesas que salvavam príncipes. Incentivou-a a ser independente dos homens. E não contou a ela sobre seu verdadeiro pai senão quando adulta, pois acreditava que era melhor um pai morto que um pai ausente.

Alba, a última

Alba é o desfecho de um ciclo. A menina que cresceu com o zelo de toda a família tornou-se uma mulher interessada em música e filosofia. Apaixonou-se por um revolucionário e junto a ele encontrou seu modo de lutar por aquilo em que acreditava, mesmo quando em tempos de autoritarismo. Mas Alba era neta de Esteban Trueba, o que a colocava na rota de uma violência ainda maior que a da ditadura.

O primeiro encontro com Esteban Garcia – neto de Pancha, a primeira de uma série – foi aos 6 anos. Pela idade, ela não teve consciência, mas foi a sua primeira violência. Aos 14, um beijo forçado. Aos vinte e tantos, a consumação da vingança.

Em meio à ditadura, Alba enfrenta a dificuldade de ser mulher. Não é preciso ir tão longe para ouvir relatos semelhantes. Os depoimentos da Comissão da Verdade Brasileira não diferem muito. Mas a violência contra a mulher é ainda maior que isso. É maior que a de uma ditadura, na medida em que perdura nas eras. Data da ideia de que homens podem violentar impunemente corpos femininos, autorizados culturalmente.

Alba, como caso isolado, foi o ato final do que Esteban Trueba começou com Pancha. Como caso universal, foi uma mulher que, como tantas, foi violentada e machucada desde quando não tinha a compreensão do que sofria.

As Mulheres de Isabel Allende

A Casa dos Espíritos não é apenas um livro de realismo fantástico. É um livro sobre diversas lutas sob um olhar de um país colonizado. Fala das mulheres e sua relação com um ciclo estrutural de violência. Mas fala também de um povo colonizado, ensinado a idolatrar o que é externo e a entregar suas riquezas. Aborda a colonização moderna e um capitalismo que também patrocina ditaduras. Fala de construção de inimigos, de luta de classes e de exploração.

A adaptação de 1993, protagonizada por Meryl Streep, Winona Ryder, Jeremy Irons e Antonio Banderas, é fiel em alguns pontos, mas não consegue captar toda a riqueza da obra de Allende, não obstante suavize alguns personagens. Talvez não fosse possível integrar em um filme toda a sutileza da linguagem ou colocar todas as importantes discussões. Tampouco o seria apenas nesta resenha. Isabel Allende explora diferentes facetas de uma realidade que ultrapassa as gerações, através de uma nação que remete à chilena, ainda que não seja explícito.

Clara, Blanca e Alba são muito diferentes, mas semelhantes, ao mesmo tempo. São mulheres que criam conexões para resistir, e que como todas as outras personagens, sofreram de diferentes formas, mas se unem na perpetuidade de uma cultura misógina.

A finalização une um misto de sentimentos. De um lado, o desejo de luta, persistência e justiça. De outro, um sentimento de luto por tudo o que foi e continua sendo vivido. “Quero pensar que meu ofício é a vida e que minha missão não é prolongar o ódio, mas apenas encher estas páginas enquanto […] aguardo que cheguem tempos melhores, gerando a criança que trago no ventre, filha de tantas violações ou, talvez, filha de Miguel, mas sobretudo minha filha“.


A Casa dos Espíritos

Isabel Allende

448 páginas

Editora Bertrand Brasil

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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