[SÉRIES] The Handmaid's Tale - 2x03: Baggage (Resenha)
[SÉRIES] The Handmaid’s Tale – 2×03: Baggage (Resenha)

[SÉRIES] The Handmaid’s Tale – 2×03: Baggage (Resenha)

Na semana antecedente ao Dia das Mães, mais um episódio de The Handmaid’s Tale foi liberado. Assim como no Brasil, o evento é comemorado no segundo domingo de maio nos Estados Unidos. E não aleatoriamente o tema principal do episódio é a maternidade.

Baggage não choca tanto quanto os primeiros episódios da temporada. Na verdade, está longe de ser um dos mais violentos ou aterrorizantes. Exceto talvez pelo final intrigante, é um episódio mais sutil. Isto, porém, não o torna menos impactante. Simultaneamente à sutileza com que aborda a violência, comove e promove reflexões acerca das relações entre mães e filhas. Através de seu próprio passado como filha, June (Elisabeth Moss) compreende uma outra faceta da relação com Hannah (Jordana Blake), e assim toma uma decisão que pode implicar em julgamentos, mas talvez seja a única decisão possível.  [contém spoilers a partir daqui!]

Entre ir e ficar

Nos primeiros episódios da segunda temporada, June, com a ajuda de Nick (Max Minghella), conseguiu fugir para um local intermediário. Apesar de saber que o movimento Mayday mandará auxílio para a sua remoção, June não tem conhecimento de quando isto ocorrerá. Seus dias se passam na expectativa do que virá em seguida. Mas também na dúvida entre fugir, salvando a si e ao feto em seu útero, e procurar por Hannah.

Nick nunca a encoraja na busca pela filha que possui com Luke (O-T Fagbenle). E, de certo modo, ele possui razão. Embora todas compreendam a insistência de June, parece suicídio buscar por uma pessoa cuja localização é desconhecida em um regime violento do qual se fugiu. Todavia, o que era inconcebível a alguns episódios começa a ser repensado. E com esse questionamento, toda a reflexão sobre o papel de uma mãe diante da vida de suas filhas.

The Handmaid's Tale

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Mães que precisam partir

June foi criada por uma mãe feminista, sem menção ao contato com seu genitor paterno. Aos 37 anos e solteira, Holly Maddox (Cherry Jones) deu a luz à June. Durante os anos de infância, levou sua filha para o movimento. Introduziu-a nas pautas feministas. June, no entanto, sempre se sentiu relegada diante do ativismo da mãe. Ela ainda não compreendia que ser mãe não é ignorar a individualidade, mas participar de vida de outra pessoa. Ser mãe é gerar e dar o que se pode, mas não deixar de ser quem se é. Ninguém pode viver pelo outro, apesar de a sociedade achar que as mães devem viver suas vidas apenas em benefício dos filhos.

June sempre esperou que sua mãe fosse uma heroína devota a agradá-la. Mas Holly nunca foi a mãe estereotipada. Ela não aprovava o casamento de June com Luke. Discordava do comodismo da filha diante das injustiças. E por vezes parecia dar mais crédito a Moira (Samira Wiley) do que à própria June. Em consequência, June cada vez mais se afastou das lutas da mãe. Isto não significava que não existia amor.

O sentimento de abandono somente é ressignificado quando June se defronta com a necessidade de abandonar sua filha. Sua mãe ensinou-lhe tudo o que podia, mas nunca pode fazer as escolhas por ela. Sua mãe também lutou por um mundo mais igualitário, mas não pode salvá-la de Gilead. Às vezes é preciso aceitar que a maternidade não é uma concessão de super poderes. Mães continuam sendo mulheres. Nem sempre é possível proteger os filhos de uma realidade. E muitas vezes será preciso deixá-los por si, na expectativa de que algum dia eles compreendam a escolha realizada.

Nunca desistir, sempre resistir

Algumas desistências podem também ser resistência. Inesperadamente, o reforço é enviado. Nem tudo, porém, sai como o planejado. Afinal, fugas sempre contam com um pouco de inteligência e com um pouco de sorte. E a sorte é sempre um pouco seletiva. Certamente, não é algo que a protagonista encontre facilmente no ambiente opressivo de Gilead.

Diante do perigo, June se refugia na casa de econopessoas. Econopessoas são a maior parte da população. São aqueles indivíduos que não se opuseram abertamente ao regime, mas que também não integram o comando. A passagem de June é interessante para que conheçamos essa outra realidade – a de aceitação pela sobrevivência. No entanto, mostra também que cada escolha traz uma consequência.

Algumas pessoas podem não entender a atitude das aias, numa aparente aceitação de sua objetificação como máquina reprodutora. É possível, na verdade, que muitas pessoas encarem o papel daquelas mulheres, mesmo que elas sejam violadas rotineiramente, como uma contribuição ao regime. Também é possível que aleguem que a morte seria preferível. Mas ninguém vive a condição do outro para falar pelo outro. E a passividade pela sobrevivência não torna ninguém moralmente melhor que uma mulher que, mesmo estuprada rotineiramente e mesmo gerando filhos para os governantes totalitaristas, insistem em viver. Mulheres não necessariamente aceitam o estupro por uma conivência ideológica. Mulheres, como qualquer ser humano, fazem o que é necessário para sobreviver e até para lutar. June não deixava o comandante penetrá-la por livre escolha. Era a condição para sua sobrevivência.

The Handmaid's Tale

Escolhas que afetam a todos

Mas nem sempre as escolhas serão apenas pela própria sobrevivência. Em alguns momentos, as escolhas serão pensadas pelo bem dos outros. Parte da motivação de June era salvar Hannah também. Se June morresse, não haveria ninguém ali dentro para procurar por Hannah. Mas, novamente, nem sempre a salvação está ao alcance, nem mesmo das mães.

Quando June escolheu se refugiar na casa de econopessoas, não pensou que eles seriam seus cúmplices. Tampouco pensou que um pai, uma mãe e uma criança na voltariam às 14h como lhe haviam dito. Se foram pegos ou não, June não tinha como saber. Mas ela precisava sobreviver. Por Hannah, pelo bebê que carregava, por ela. Talvez ela precisasse deixar Hannah por sua conta, pois não havia nada que pudesse ser feito. Cada escolha gera uma consequência, e June toma a sua.

Do lado de fora

O episódio também explora um pouco mais o que se passa fora de Gilead. No Canadá, Luke e Moira tentam superar o passado e auxiliar aqueles que conseguiram fugir. Para Moira, porém, a situação é mais difícil. Não é fácil esquecer o tempo em que ela foi forçada a ser uma escrava sexual. Ela se ocupa na tentativa de ajudar outros que, como ela, foram perseguidos por sua sexualidade e conseguiram fugir. No entanto, a relação com a sua própria sexualidade tornou-se conflituosa.

Não há um questionamento da homossexualidade por Moira. O que há é um recordação dolorosa na vivência sexual. Moira lutou por anos para ter a liberdade de se relacionar com quem desejasse. Defendia o direito das mulheres e, principalmente, das homossexuais. No entanto, um dia tudo pelo que ela lutou foi tomado dela. Seu corpo e sua sexualidade tornaram-se propriedade de outrem. É, preciso, então, que Moira recupere tudo o que ela foi e pelo que ela lutou um dia – se for possível.

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Nem todas as rotas levam à liberdade

O final do episódio é aflitivo. Após tantas reflexões sobre as bagagens que carregamos e nos tornamos, o inesperado. Quando June finalmente toma uma decisão quanto ao seu futuro, um obstáculo se impõe. Sem música de fundo, o episódio termina com o sentimento inquietante já típico da série. E com o pensamento: o que acontecerá com June?

https://youtu.be/IZ6f0mei82g

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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