Eu Não Sou Um Homem Fácil: patriarcado com sinal trocado nunca foi libertação

Eu Não Sou Um Homem Fácil: patriarcado com sinal trocado nunca foi libertação

Um dos lançamentos da Netflix desse ano que tem chamado muita atenção é o longa francês Eu Não Sou Um Homem Fácil (em original: Je ne suis pas un homme facile), de Eléonore Pourriat. A história é por si só atrativa: Damien (Vincent Elbaz), um misógino clássico que enxerga as mulheres como troféus, em um de seus monólogos sobre a psiquê feminina bate a cabeça contra um poste e acorda em um mundo invertido: as mulheres são o sexo dominante, e os homens são delegados ao posto de segundo sexo.

A construção do mundo invertido é certamente curiosa e Damien demora até perceber as novas normas sociais a que estará submetido nesse mundo. Seus amigos e sua família permanecem os mesmos, apenas com o sinal trocado da dominação: é agora o amigo quem desistiu do trabalho formal para cuidar dos filhos, a mãe que toma cerveja assistindo à televisão enquanto o pai de Damien faz o jantar, e o fato de Damien viver sozinho com o gato de estimação passa a ser visto como sinal de solidão e dificuldade de arranjar um relacionamento. Ele também passa a ser pressionado a depilar e a consumir produtos de beleza para parecer mais “desejável”, e são corpos de homens e imagens masculinas que compõem as propagandas, outdoors e filmes na televisão.

As mulheres desse mundo invertido agem exatamente da forma como os homens agem na nossa sociedade: são as ocupantes do cargos de poder, chefes de família e executivas que assediam os homens nas ruas, objetificam seus corpos e os tratam com condescendência. Vestidas em ternos, dirigindo em alta velocidade e deixando os seios à mostra em casa e na rua, as mulheres são livres para exercer sua subjetividade, e o fazem às custas do trabalho doméstico e emocional dos homens com quem se envolvem. É uma verdadeira mudança de lado do patriarcado, que agora, como ordem feminina, usa dos mesmos mecanismos de dominação cultural, social e política para reafirmar a inferioridade dos homens.

Eu Não Sou um Homem Fácil

Aí que entra Alexandra: o par romântico que Damien pretendia conquistar em seu mundo normal, agora é uma caçadora de homens e grande editora que usa da estupefação de Damien, perante esse mundo matriarcal, para criar uma história para um novo livro. Alexandra se interessa pela versão de mundo patriarcal que Damien descreve, mas ao mesmo tempo pretende manipulá-lo amorosamente como uma “conquista”.

É de fato engraçado observar o desconforto de Damien ao ter que se adequar ao que é esperado de um homem nessa sociedade ao contrário, e a constante objetificação que Alexandra projeta nele levam a espectadora a questionar porque naturalizamos esses comportamentos em nosso mundo patriarcal. É caricato ver um homem nessa posição subjugada, então por que nos acostumamos a ponto de nem reparar mais quando uma mulher é objetificada?

Um dos pontos que as mulheres levantam quando Damien sugere a existência de um mundo em que os homens são a casta superior é que ele seria um ativista “masculista”. Uma alusão à luta feminista, mas que diverge em pontos cruciais: Damien se debate contra a ordem feminina tentando restabelecer o domínio dos homens. É por meio da misoginia e a crença de que as mulheres é que são a casta inferior que ele questiona o mundo invertido. A ideia de destruir a hierarquia entre os sexos não passa pela cabeça, nem pelo discurso de Damien.

Eu Não sou um Homem Fácil

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A antinaturalidade da hierarquia e a proposta de se criar um mundo de fato igualitário entre os sexos (sem que nenhum deles seja subjugado) não é abordada em Eu Não Sou Um Homem Fácil. A grande luta do feminismo é abolir o sistema patriarcal, mas não para inverter as posições de hierarquia entre homens e mulheres, e sim permitir que ambos os sexos sejam considerados seres completos e complexos em suas diferenças. Mas ao mesmo tempo, no mundo patriarcal, qualquer tentativa feminina de reparar essa hierarquia é tida como na verdade, uma vontade das mulheres de se tornarem o opressor, e muitas vezes essa visão é propagada pelos homens, que carecem de uma referência de justiça que não envolva dominação.

O ponto forte em Eu Não Sou Um Homem Fácil é ao mesmo tempo seu ponto fraco: ao inverter os papéis dos sexos, podemos ver com mais clareza que esse sistema chamado gênero, que divide homens e mulheres entre dominador e dominado, é na verdade uma grande convenção social moldada pelo patriarcado. Esse estranhamento diante de um mundo em que mulheres são a casta dominadora causa boa parte dos momentos cômicos do filme e provoca reflexão quando transportamos essas ideias para nossa realidade.

Mas ao manter o sistema de dominação presente, ignorando as possibilidades de um mundo em que, de fato, homens e mulheres fossem tidos como seres humanos de igual valor, Eu Não Sou Um Homem Fácil mantém a ideia do patriarcado presente e nos confunde sobre as intenções revolucionárias do feminismo: não defendemos uma mudança de sinal no sistema patriarcal – queremos aboli-lo de uma vez.

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Feminista Raíz
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