A bruxaria feminista de “Mary to Majo no Hana” e a estreia do Studio Ponoc

A bruxaria feminista de “Mary to Majo no Hana” e a estreia do Studio Ponoc

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A primeira animação do Studio Ponoc (fundado em 2015, pelo cineasta Yoshiaki Nishimura, que já trabalhou no Studio Ghibli) nos leva ao universo fantástico das bruxas. Diferentemente de outro filme do Studio Ghibli, “O Serviço de Entregas de Kiki”, a protagonista desta animação não é bem uma bruxa, mas descobre o mundo mágico conosco ao longo do filme. No caso dela, o que está em jogo é mais do que uma simples aventura ou visita; já que ela precisa dominar os poderes mágicos que conseguiu, mesmo que temporariamente, para salvar a vida de seu vizinho, Peter.

Além de uma clara fábula fantástica, parece que Mary to Majo no Hana é uma história de autodescobrimento, semelhante a um coming of age, com foco no protagonismo feminino.

Mary to Majo no Hana

Representação Feminina e Feminismo

Além da protagonista Mary, que dá nome ao título, a animação nos presenteia com mais três personagens femininas, em um elenco composto por poucos personagens. Podemos dizer – já adiantando sobre o enredo – que são as personagens femininas as portadoras de maior tempo de tela, de falas e da importância narrativa, tendo em vista que as efetivas participações masculinas são como coadjuvantes.

Mary to Majo no Hana

O grande mistério e magia de Mary to Majo no Hana, tem seu início e final através das mãos femininas. É através delas que o elemento que desencadeia a magia da história é descoberto, causando o encontro da protagonista com a comunidade mágica. O que em um momento parecia uma forma de escape da personagem que sofria com sua aparência – visto que na comunidade ela é, inicialmente, celebrada – passa a ser objeto de uma perigosa disputa. A ganância de certos personagens passa a ser a vilã da história, o que afeta diretamente a relação de Mary com a mágica.

Afinal, é Mary que precisará lutar contra o desejo dos antagonistas de mal utilizar a “Flor da Bruxa”, experimentando seus poderes em diversos seres vivos, a fim de potencializar e aproveitar a mágica pura da flor e, para tanto, a protagonista utiliza não apenas de si própria, mas da ajuda de outra personagem feminina importante. Isso, por sua vez, demonstra tanto a diferença de enredo trazida com uma história de protagonismo feminino quanto a importância e os benefícios de uma relação fraternal entre mulheres, sendo esta uma das causas do triunfo da protagonista.

Mary to Majo no Hana

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Homogenia Racial e Discriminação

O fator do protagonismo feminino e feminismo, infelizmente não impediu a ocorrência de episódios de discriminação em relação à protagonista.

No início da animação, vemos Mary obrigada a comer e a brincar sozinha, sendo que a própria protagonista diz, mais de uma vez, que não possui amigos. Não muito tempo depois, chegamos à causa da isolação da mesma ao vermos como alguns de seus traços físicos – como seu cabelo “crespo” e ruivo – são motivo de chacota pelas pessoas, já que a protagonista é chamada de macaca em uma ocasião e confundida com um macaco em outra.

Mary to Majo no Hana

Essa situação não foi, é claro, vista como uma consequência da política de homogenia de alguns países asiáticos e europeus (onde a animação se passa), não sendo nem discutida ou pensada como algo que não uma simples “zoação” à protagonista, visto que ao final da história a discriminação, aparentemente, para de acontecer e Mary passa a ser aceita pela outra criança presente na animação, a qual antes a ofendeu.

Nos surpreendemos ao ver como a prática de banalizar tratamentos e situações discriminatórias ainda é praxe na mídia japonesa, além de ser repetida por um grande meio de entretenimento, como podemos ver até em algumas animações  do Studio Ghibli.

Mary to Majo no Hana

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Em relação à protagonista, a situação não teve grandes consequências emocionais, além de um pequeno episódio de auto-ódio, que logo foi resolvido sem maiores aprofundamentos. O que ao mesmo tempo que nos gera alívio (não representando a triste autoconcepção de pessoas “não padrão”), nos gera preocupação pelo mesmo motivo. Como em muitos veículos, tal realidade enfrentada no mundo real por diversos indivíduos é ignorada e tratada com banalidade, não havendo um aprofundamento no trato da situação feito tão bem pelo estúdio em outras animações.

Conclusão

No geral, Mary to Majo no Hana traz um claro entretenimento, com os minutos e segundos passando nitidamente mais rápidos à medida que acompanhamos o filme e a aventura de Mary. O protagonismo feminino e o próprio feminismo são os pontos altos da trama, mesmo que, por vezes, apagados pela evidente discriminação à protagonista, tornando o filme um woman friendly do estúdio.

Mary to Majo no Hana

A animação em si não deixa de ser primorosa. Os traços, movimentos e quadros usados são semelhantes as animações do Studio Ghibli, mas nem por isso ela torna-se apenas uma imitação, havendo um verdadeiro aproveitamento de tais elementos técnicos para dar dinâmica à história. Diante disso, não é a toa que Mary to Majo no Hana foi indicada ao Oscar de Melhor Animação em 2017, sendo mais um dos grandes asiáticos que concorreu na corrida pela estatueta. Recomendamos!


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