[CINEMA] Custódia: Sobre o terror silencioso da violência de gênero

[CINEMA] Custódia: Sobre o terror silencioso da violência de gênero

Compartilhe

Homens têm medo que as mulheres riam deles.

Mulheres têm medo que os homens as matem.”

Margaret Atwood

O primeiro longa-metragem dirigido pelo ator francês Xavier Legrand arrebatou inúmeros reconhecimentos em diversos festivais, saindo de Veneza com a láurea de melhor direção e de melhor filme de estreia, além do prêmio da crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sucesso de crítica e público, Custódia (“Jusqu’à la garde”, no original) aposta na investigação da violência de gênero e tem na separação conjugal o seu ponto de partida. O filme se estrutura em três momentos bem marcados.

Na sequência que abre o filme, acompanhamos uma audiência de custódia, em que um casal recém-separado está em litígio para decidir sobre a guarda do filho de 11 anos. A cena é apresentada de forma bastante interessante, pois acaba por deixar clara a espinha dorsal que conduz o roteiro assinado pelo próprio diretor: o silêncio pode ser mais amedrontador que qualquer gritaria.

Aquilo que poderia ser apenas mais um filme que se baseia em inúmeras idas e vindas ao Tribunal, perde rapidamente essa atmosfera quando finda a audiência. Sem proferir quase nenhuma palavra, os ex-cônjuges são praticamente coadjuvantes numa audiência conduzida por uma juíza e as duas advogadas. O acerto da cena, que se passa no ambiente judicial, ser atuada quase que exclusivamente por mulheres (com exceção do ex-marido) aponta o intuito do diretor em revelar que o machismo e a violência por ele perpetrada não é condição de indivíduos, mas está na base que estrutura quase todas as sociedades do mundo contemporâneo.

Custódia

Nesse primeiro momento, sabemos muito pouco sobre aquela família que parece dilacerada. No relatório elaborado por uma assistente social, resta claro que os dois filhos não querem mais ver o pai. Os motivos vão pouco a pouco sendo revelados a partir do segundo arco dramatúrgico, momento em que começa a guarda compartilhada do menino Julien, interpretado magistralmente por Thomas Gioria em seu primeiro trabalho. A direção de fotografia de Nathalie Durand emula uma atmosfera naturalista ao fazer uso abundante de luz natural, resultando numa composição extremamente eficiente.

Apesar do forte viés documental de Custódia, a opção pela ficção permite imprimir na tela uma história extremamente comum e ordinária nos mais variados lares, independente de credo religioso, etnia ou classe social. Vale ressaltar que Legrand acompanhou, durante anos, o trabalho de um juiz da área do direito de família, entrevistando psicólogos, assistentes sociais, vítimas de abuso e presidentas de associações de mulheres agredidas, além de visitar grupos de terapia para homens violentos. O enfoque do filme não se pauta no trinômio do personagens pai-mãe-filho, mas sim na relação opressora de uma homem que considera a ex-esposa sua propriedade. 

A ausência de trilha sonora em Custódia é marcante e pretende aproximar a espectadora da construção semiótica apresentada na tela. Inúmeras cenas confinadas dentro do carro, em que o pai e a criança empreendem um jogo de poder sobre uma mulher, vão conferindo cada vez mais tensão à trama. O filho mente numa tentativa de proteger a mãe. O pai se enfurece, pois não admite a perda de poder sobre a ex-mulher. Plano e contraplano vão se alternando numa dança que deixa evidente que nada do que é visto em cena trata-se de amor ou a perda dele, mas simplesmente de poder e controle de corpos subjugados numa cultura patriarcal. Dominante e dominado se confrontam ao som irritante do alarme do carro que avisa que o cinto de segurança não foi colocado. De fato, não há qualquer segurança naquelas rápidas viagens de carro, nem tampouco na convivência com Antoine (interpretado pelo multifacetado Denis Ménochet).

Custódia

Até então, toda a narrativa de Custódia é ancorada no ponto de vista do menino Julien, através do horror que ele exprime com o trabalho corporal toda vez que é final de semana sob a guarda do pai. Finalmente, entra em cena, no terceiro momentum do filme, Miriam (Léa Drucker), mãe, ex-esposa, mas sobretudo uma mulher tentando reconstruir a vida, após se libertar das amarras de um relacionamento abusivo. As poucas falas empreendidas por essa personagem, evidenciam a enorme dificuldade que as mulheres têm em relatar e denunciar violências sofridas, numa sociedade que constantemente culpabiliza as vítimas. O não dito quase sempre gera traumas perturbadores.

Merece destaque a direção de atores, uma vez que as várias cenas, com carga dramática bastante intensa, jamais resvalam para o caricatural ou maniqueísta. O ponto nevrálgico e, portanto, o grande acerto do filme não é traçar psicologismos sobre os personagens, mas tentar transpor em sons e imagens as sensações que a violência da tortura física e psicológica no seio familiar pode provocar. Encaminhando para o desfecho, o longa-metragem vai ganhando elementos de terror sem, porém, precisar utilizar artifícios sobrenaturais. A realidade dos personagens já é bastante assustadora.

Leia também:
>> [MOSTRA DE SP] Balanço do Dia: “Pororoca”, “A Filha” e “Custódia”
>> [CINEMA] The Tale: A desromantização de um abuso
>> [CINEMA] Vingança: misoginia e as mulheres que são caçadas diariamente pelos homens

Por fim, uma personagem aparece rapidamente para nos fazer reconfigurar um velho ditado popular brasileiro, calcado numa sociedade assumidamente misógina: em briga de marido e mulher se mete a colher, sim. As opções de enquadramento que enfatizam a cena final nos colocam enquanto espectadoras a refletir: de que lado da porta estamos e quais omissões e ações fazemos diante de um quadro de violência doméstica?

Vale mencionar dois ótimos documentários brasileiros que abordam o tema. O multipremiado curta-metragem “Quem matou Eloá” (2015), de Lívia Perez, que faz uma radiografia sobre a condescendência com que a mídia apazigua a ação do homicida ao relativizar seu delito como um crime passional, em que o único erro parece ser a equivocada expressão “amar demais”; e o longa “Legítima Defesa” (2017), de Suzanna Lira, que coloca em relevo histórias de mulheres que não viram alternativa senão matar seus maridos para se defender das agressões.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo. Uma importante conquista feminista na busca por proteção às mulheres em nossa sociedade alterou o Código Penal Brasileiro que, em 2015, incluiu esse crime em seu rol, tipificando o feminicídio como o “homicídio cometido com requintes de crueldade contra mulheres por motivações de gênero”. Custódia, portanto, é um filme que se insere no cenário das obras que levantam de forma contundente essa discussão.


Compartilhe

Written by:

120 Posts

Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
View All Posts
Follow Me :