CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 2×12: Postpartum

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 2×12: Postpartum

The Handmaid’s Tale chega, enfim, ao penúltimo episódio de sua segunda temporada. Ambientado semanas após o apreensivo episódio de parto de June (Elisabeth Moss), revela o que houve com ela e a pequena Holly. Intitulado Postpartum, narra o retorno de Offred à casa de seu comandante e sua reintegração à rotina de Gilead, respondendo a todas as esperanças que se poderiam nutrir quanto ao seu destino.

>> Leia aqui as resenhas dos episódios anteriores

Handmaid's Tale

Mãe e filha separadas

Em Holly, June/Offred, sozinha, deu à luz Holly. Dividida entre o desejo de fugir com sua filha e a necessidade de ajuda, deu um tiro em direção ao céu no momento de desespero. E por esse sinal de socorro, ela foi encontrada. Posteriormente, conduzida por vizinhos, ela foi entregue ao comandante Fred (Joseph Fiennes) e sua esposa Serena (Yvonne Strahovski) e também separada de sua filha Holly, agora sob o nome Nichole.

Conforme a opção de Serena, Offred foi enviada para o centro vermelho. Desse modo, todo contato com a recém-nascida era evitado. Rotineiramente, funcionários iam a pedido do comandante coletar o leite produzido por Offred para alimento de Nichole. Contudo, o leite começa a secar sem o estímulo da criança. E isto pode implicar em mudança nos acordos.

Quando Fred organiza um encontro entre Offred e Nichole, sua intenção inicial é apenas a de estimular a genitora a produzir leite pela proximidade da criança. Ainda resiste, porém, em deixa-la tocar Nichole, diante da promessa feita a Serena. Em um primeiro momento, Offred também se recusa a tocar a criança. Ela não deseja criar um vínculo que será logo rompido, assim como foi com Janine e sua filha. Ela sabe que sua filha lhe será retirada dos braços, deixando com ela apenas um vazio e a lembrança de tudo o que lhe foi tirado por Gilead.

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Maternidade, sexualização e fetichização

Seu corpo, todavia, reage de forma diferente. Tão logo ela avista Nichole, ela reage produzindo o leite que estava secando. A cena é incômoda, pois foca no olhar de Fred em cima do corpo de Offred. Cabe ressaltar que o ato de amamentar é, simultaneamente, julgado pela sociedade e fetichizado por ela. Do mesmo modo, qualquer exposição do corpo feminino. A cena é, assim, não apenas um destaque da biologia feminina, mas também é um reforço da imagem sexualizada da mulher. E um anúncio da cobrança de Fred, que encara Offred não apenas como a genitora de sua filha, ela a enxerga como objeto de satisfação de sua lascívia.

Posteriormente, após ser convencido a levar Offred de volta à sua casa, Fred a encontra durante a noite. Envaidecido e, ao mesmo tempo, ressentido pela conduta da aia, questiona por que ela teria fugido dele e de Serena quando os dois estiveram na casa em que ela teve a filha, afinal, ele se sente generoso por permitir o reencontro com sua primogênita.

Offred, então, lhe dá a desculpa de que queria passar o tempo com sua outra filha antes de ter que dizer adeus a mais uma delas. E quando ele lhe cobra se o único agradecimento será um “obrigado”, ela esquiva, respondendo que um dia podem voltar a jogar como nas outras noites antes da gestação. É a única forma de fugir sem ferir o orgulho desse homem que, como tantos outros, acha possível violentar uma mulher, redimir-se com um presente e, depois, cobrar sexualmente por ele, como se o corpo dela fosse um brinquedo a ser alimentado por sua pretensa e arbitrária generosidade.

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O arquiteto das colônias

Enquanto June retorna ao posto de aia com glória, Emily (Alexis Bledel) é vista como pária. June é considerada corajosa por ter tido sua filha sozinha. E várias famílias desejam-na como aia. Emily, por sua vez foi responsabilizada pela morte do seu último comandante. E isto a torna impopular. Até que é finalmente enviada à casa do misterioso comandante, Joseph Lawrence (Bradley Whitford). Conforme tia Lydia (Ann Dowd) lhe explica, Lawrence é responsável pela arquitetura econômica de Gilead. Esta informação deixa a aia ainda mais apreensiva. Por que um homem como ele aceitaria uma aia rejeitada por todos?

Os diálogos revelam algo de incomum – e, provavelmente, ameaçador. A apreensão aumenta quando, no meio da noite, a esposa Eleanor (Julie Dretzin) invade o quarto de Emily. Referindo-se a ela por seu nome – e não por Oflawrence –, Eleanor revela que seu marido foi responsável pelo planejamento das Colônias. Ele foi o arquiteto de um lugar propositalmente tóxico para punição dos infratores de Gilead. Isto se opõe ao discurso de convencimento de que Gilead era uma bolha de sobrevivência em um mundo atingido pela poluição. No entanto, ela é impedida de revelar mais detalhes pela chagada de Joseph.

Após trancar a esposa em um cômodo, Joseph ordena que Emily o acompanhe. A conversa tranquila esconde ameaças sutis. Ao mesmo tempo em que ele pede para que ela fale da vida pré-Gilead, usa as informações para machucar e para exibir à aia o que ele sabe sobre sua vida antes e depois. Ele fala de seu filho antes de Gilead, do seu envolvimento com uma martha, de sua punição – a extração do clitóris. Todas as informações são formas de lembra-la do que foi perdido e de como ela pode ser punida se divergir das normas de Gilead.

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O amor é paciente, o amor é bondoso

A trajetória de Eden (Sydney Sweeney) é de desencantamento. Inicialmente, ingênua e crente de que Gilead lhe trará a felicidade, descobre que há mais na vida do que lhe disseram. Apaixona-se por um homem que não o seu marido. E como no mito bíblico, é expulsa de seu paraíso de consciência ao conhecer o mundo. Em uma conversa com Offred, ela pergunta se Deus não gostaria que uma criança fosse criada por pais que se amassem. É respondida que “neste lugar, você agarra o amor em qualquer lugar que possa encontra-lo”. Assim, ela é, sem querer, estimulada a buscar o amor.

Nick (Max Mighella), que continua vivo, busca June para recriar uma vida impossível, uma realidade fora de Gilead em que eles criariam Holly. Mas o devaneio é interrompido por Fred. O comandante, em choque, anuncia que Eden fugiu. Por que uma garota arriscaria tanto para fugir? É inconcebível para ele que pudesse existir uma vida melhor que a Gilead.

Como se imagina, Eden foi encontrada junto ao olho Isaac (Rohan Mead). Nick lhe implora para que culpe Isaac. É uma forma de evitar que ela morra, mas também de se eximir da culpa por sua morte. Afinal, existe uma pequena possibilidade de que, se ele tivesse sido mais carinhoso com ela, ela não tivesse fugido. Mas é uma possibilidade incerta, porque ela poderia despertar de sua alienação por inúmeras razões. E, uma vez desperta, Eden não pode voltar a aceitar essa realidade ou negar o que faz por amor.

Depois de trocarem desculpas, Eden, maduramente, fala que ambos deveriam se perdoar. Recusa-se a renunciar ao que Gilead diz serem seus pecados. Junto a Isaac, é julgada e punida. E, ao invés de implorar por misericórdia, usa a Bíblia como justificativa da violência de Gilead para exaltar o amor.

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Por amor

A execução de Eden mexe com todos. Ninguém supunha que ela fosse corajosa o suficiente para lutar por seus verdadeiros desejos na defesa da crença de um deus amoroso e não punitivo. Entre culpa e reflexões sobre a realidade, a dinâmica na casa dos Waterford fica abalada.

Quando Offred é levada de volta à casa dos Wasterford, Serena não fica contente. Seu desejo é de que Offred não toque mais em Nichole, sua filha. E mesmo sob a justificativa de que a proximidade entre as duas estimulará a produção de leite, ela reluta. Em sua opinião, o ambiente de adversidade não será bom para a criança. Ainda assim, acaba aceitando por reconhecer a necessidade de alimentação da filha, desde que ela não tenha contato direto com a aia.

Com o tempo, contudo, Nichole começa a chorar incansavelmente. Serena tenta lhe dar o peito, na esperança de que Nichole entenda que está sendo amamentada e, talvez, de sentir-se mais mãe dela. E, por um momento, a criança para de chorar, pois é isso que ela precisa. Mas o momento é breve. Ao não receber o leite, Nichole volta a chorar. Assim, mesmo relutante, e também influenciada pelo ato de amor de Eden, Serena desiste de afastar Offred e Nichole. E permite que a aia amamente a criança.

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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