Os Mistérios de Miss Fisher: uma mulher destemida e protagonista de sua vida
Os Mistérios de Miss Fisher: uma mulher destemida e protagonista de sua vida

Os Mistérios de Miss Fisher: uma mulher destemida e protagonista de sua vida

Com base na obra da autora australiana Kerry Greenwood, a série “Os Mistérios de Miss Fisher” é um exemplo de narrativa transmídia. Depois da adaptação televisiva, a história recebeu o formato de série, tendo sido produzida somente por mulheres: Carole Sklan, Anna Molyneaux, Sue Masters e Haley Gillies.

O enredo de “Os Mistérios de Miss Fisher” tem como ambiente e contexto histórico a Austrália, na década de 20. A personagem protagonista Phryne Fisher (Essie Davis) é uma mulher de vida abastada, titular de uma grande fortuna herdada da família, após o término da Primeira Guerra Mundial.

Esbanjando joias, aparência impecável e roupas suntuosas, Fisher reúne o perfil de uma madame da alta sociedade, de vida fútil. Mas, como os estereótipos existem para serem desconstruídos, a personagem vai muito além do que o rótulo de uma dama de vida burguesa.

Phryne Fisher é uma mulher independente e livre que não está presa ao modelo de mulher tradicional que o patriarcado condiciona como ideal. Embora viva na década de 20, onde o papel social da mulher reduzia-se a seguir o roteiro que a sociedade patriarcal trilhou para ela, qual seja: ser mãe, esposa e cuidar do lar; Fisher optou por não casar, não ter filhos e usufruir do direito à liberdade sexual, tendo uma vida sexual com mais de um parceiro.

Miss Fisher

Em um dos episódios, um empresário chinês está disposto a romper com um noivado arranjado pela família para vivenciar um relacionamento amoroso com Fisher, contudo, ela o rejeita, alegando que “gosta dele, mas nunca se comprometerá com homem nenhum”.

Ainda subvertendo os padrões de mulher cuidadora e voltada para a esfera doméstica, a protagonista, que tem um talento notório para desvendar crimes, decide tornar-se detetive e atuar como consultora nas investigações policiais de Melbourne. Como dedicar-se a uma vida profissional e ainda mais em território majoritariamente dominado por homens não era considerado socialmente apropriado para mulheres, vistas como seres delicados e frágeis, a detetive Miss Fisher sofreu discriminação de gênero por parte de alguns, que a olhavam torto ou duvidavam de sua capacidade de desvendar os casos de assassinato.

Logo no segundo episódio, uma autoridade policial sugere para que Fisher não ocupe sua linda cabeça com investigação policial, deixando claro o pensamento de que atividades que exigem inteligência e coragem não eram típicas de mulher.

Temáticas emancipatórias compõem o enredo de “Os Mistérios de Miss Fisher”

Além do protagonismo da detetive em desconstruir a delimitação de espaços entre o que é apropriado para mulheres, segundo sua natureza “frágil” atribuída pela sociedade, e o que é típico para homens, Fisher alinha-se a um perfil de mulher emancipada, à frente de seu tempo: determinada, independente, segura, uma mulher de sexualidade resolvida, que ama e experimenta os prazeres carnais sem pudor.

Somado ao comportamento ideológico feminista de Miss Fisher, outras temáticas são problematizadas na série ao longo de seus episódios, como o comunismo, bandeira levantada pelos amigos da protagonista, os motoristas de táxi, Bert e Cec, muito engajados na causa e conhecidos na comunidade soviética de Melbourne.

Bem como, percebemos a introdução da questão LGBT, a partir da personagem Mac Milan, médica e grande amiga de Fisher, que sempre a ajuda a desvendar os mistérios das investigações policiais, atuando como perita em alguns casos. Mac é uma mulher estudada, que conseguiu exercer a Medicina numa época em que a educação para além da doméstica e etiqueta não era destinada às mulheres, e ajuda as trabalhadoras de uma fábrica, exploradas pela desumana jornada de trabalho de então, a praticar o aborto seguro e a ter acesso ao planejamento familiar.

Miss Fisher

As muitas opressões vivenciadas pelas mulheres são abordadas no decorrer dos casos de investigação criminal, como o sofrimento de uma mulher negra e separada, que não tinha permissão legal para o casamento inter-racial, como também a aflição de Dot, uma das mais importantes personagens da trama, uma empregada que sofria abuso de um empregador com longo histórico de assédio sexual praticado às empregadas da casa.

A sororidade entre mulheres, que é uma bandeira e um desafio levantados pelo movimento feminista, é muito exercida pela personagem protagonista, que se mostra disposta a ajudar e estender a mão para mulheres em situação de vulnerabilidade e desigualdade de gênero a cada caso desvendado pela investigadora.

O que pode ser exemplificado no caso de Jane, uma adolescente órfã, que era explorada por um hipnotizador charlatão e acabou sendo salva e adotada por Fisher, como também no episódio em que a viúva de um comunista fora desprezada pela própria família e foi acolhida na casa de Fisher até que o impasse fosse solucionado.

Sobre a detetive Fisher

Miss Fisher teve uma infância marcada pela falta de recursos financeiros e pela dor, nunca superada, do assassinato da irmã. Após quinze anos longe de casa, depois de ter sido beneficiada com a herança de sua família e ter estudado na Inglaterra, a protagonista decide voltar para Melbourne a fim de tratar de assuntos relacionados ao homicídio de sua irmã. Imediato ao seu retorno, Fisher esbarra em um misterioso assassinato, envolvendo pessoas de seu convívio próximo e daí em diante, consolida-se a sua decisão em tornar-se investigadora.

Miss Fisher

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Ao perceber na narrativa uma forte tendência em fetichizar a personagem protagonista, que nunca se desvincula de uma aparência sedutora e do salto alto, mesmo em situações críticas como quando precisa confrontar com bandidos, pular muros e subir telhados; Miss Fisher é uma referência simbólica de mulher forte, capaz de erguer sua voz em espaços majoritariamente ocupados por homens, desterritorializando lugares, bem como mostra uma profunda empatia pela dor de outras mulheres e, por fim, não vive à sombra de nenhum homem, sendo dona de si e protagonista de sua vida.

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Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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