Flores para Algernon: saúde mental e a ressignificação da felicidade

Flores para Algernon: saúde mental e a ressignificação da felicidade

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Nenhuma resenha, mesmo com spoiler, poderia te preparar para “Flores para Algernon“. A forma como Daniel Keyes nos arrebata, é cruel. Ele nos prende na armadilha da empatia que criamos pelo Charlie, para depois nos despedaçar. Assim como Charlie, experimentamos o imenso vazio proporcionado pelo conhecimento e descobrimos que saber a verdade pode ser uma experiência dolorosa.

Flores para Algernon” é um clássico lançado originalmente na forma de um conto, em 1959, que ganhou o prêmio Hugo; e depois, como um romance, em 1966, levando o prêmio Nebula. Com 288 páginas e uma capa tão dura quanto a história, o livro foi traduzido por Luisa Geisler e lançado aqui no Brasil, agora em 2018, pela Editora Aleph.

Flores para Algernon

Apesar de já ter a história em mente há algum tempo, Daniel Keyes deu vida a “Flores para Algernon” somente após um episódio em que um aluno da turma especial de jovens com baixo Q.I., para a qual o autor lecionada inglês, lhe perguntou se ele poderia ficar inteligente, caso se esforçasse bastante. Nasce, então, Charlie Gordon.

Charlie é um homem de 32 anos que possui um Q.I. baixíssimo, mas é dotado de uma força de vontade e bondade sobre-humanas. Tais características o tornam a cobaia ideal para uma cirurgia revolucionária e experimental que pretende aumentar o Q.I. humano, de forma artificial, que era o que Charlie mais queria na vida. A forma como Keyes constrói a narrativa, é magistral. Através dos diários de Charlie, a princípio, cheios de erros ortográficos, vemos não só a sua “evolução” pré e pós cirurgia, mas também o mundo através de seus olhos.

“Uma das coisas que mais me confunde quando surge algo do meu passado é nunca saber se aquilo realmente aconteceu daquela maneira, se aquela era a maneira que parecia para mim naquele momento ou se estou inventando. Sou como um homem que passou a vida inteira semiadormecido, tentando descobrir como ele era antes de acordar. Tudo está estranhamente borrado e em câmera lenta.” (Flores para Algernon. Página 82)

Flores para Algernon

Muito mais do que discutir as questões éticas e morais por trás de uma cirurgia experimental, “Flores para Algernon nos envolve numa discussão sobre felicidade. Na medida em que Charlie perde a sua inocência e se torna mais inteligente, ele começa a ver o mundo de forma diferente, pois agora ele havia comido do fruto da árvore proibida e o seu castigo não poderia ser outro senão a sua expulsão do paraíso, no qual vivia a plenitude da paz de sua ignorância.

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Em meio àquele turbilhão de novas emoções e percepções, talvez somente Algernon fosse capaz de compreendê-lo, visto que ambos passaram pela mesma cirurgia. Eles passavam juntos pelos mesmos testes de laboratório. Os efeitos colaterais em ambos eram muito semelhantes, e a forma como eram tratados pelos cientistas não se diferenciava em nada. A conexão que Charlie e Algernon criaram era diferente e, a seu modo, mais autêntica e verdadeira do que muita coisa que Charlie achava que tinha vivenciado até então. A única diferença, no entanto, era que Charlie era humano e Algernon, um rato de laboratório.

“[…] Apesar de sabermos que, no fim do labirinto, a morte nos aguarda (e isso é algo que nem sempre soube, até pouco tempo atrás, pois o adolescente em mim pensava que a morte acontecia só com outras pessoas), vejo agora que o caminho escolhido pelo labirinto me faz quem sou. Não sou apenas uma coisa, mas também uma maneira de ser – uma das muitas maneiras -, e saber os caminhos que percorri e os que me restam vai me ajudar a entender o que estou me tornando.” (Flores para Algernon. Página 204)

“Flores para Algernon” é um livro que nos dilacera e nos deixa vulneráveis, lembrando-nos da fragilidade da vida e das relações humanas. É uma obra que desperta em nós questionamentos que talvez não tenham respostas e que, por isso mesmo, nos perturbam. Após a leitura, assim como Charlie, nos percebemos como pessoas semi-adormecidas tentando descobrir quem éramos antes de acordar.


Flores Para AlgernonFlores para Algernon

Autor: Daniel Keyes

Tradução: Luisa Geisler

Editora ALEPH

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Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É viciada em Lego, apaixonada por ficção científica/terror/horror, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif’s e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada.
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