Cyrano, Mon Amour: uma celebração à dor e à delícia de atuar!

Cyrano, Mon Amour: uma celebração à dor e à delícia de atuar!

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Tudo no teatro é efêmero. Quando vamos assistir a uma peça de teatro, apreendemos a experiência de um jeito diferente do que no cinema. Isso acontece porque o momento de uma peça de teatro é único. Recentemente, podemos comprovar essa máxima ao assistir quatro vezes a uma mesma peça de Nathalia Timberg. O texto não era o mesmo, o modo como ela atuava também não e muito menos suas pausas dramáticas.

Talvez por isso seja difícil entender logo de cara porque a edição de 2019 do Festival Varilux de Cinema Francês escolheu “Cyrano, Mon Amour, filme de Alexis Michalik, para ser a pré-estreia do evento em Porto Alegre/RS. No entanto, a resposta, para nós, reside no fato de que, além de Cyrano de Bergerac ser um grande nome da literatura francesa, é uma tentativa de fundir teatro e cinema e mostrar como essas duas formas de arte são profundamente influenciadas entre si.

A câmera que permanece estática nas cenas em que a peça de Edmond Rostand, “Cyrano de Bergerac”, é encenada nos faz lembrar dos primórdios do cinema, quando os filmes eram rodados apenas em planos-sequência, como uma grande peça de teatro. Porém, a câmera que segue os personagens é um lembrete de todas as mudanças pelas quais o cinema já passou nesses mais de cem anos de arte.

O próprio gênero capa e espada é uma grande homenagem à literatura, mas também ao cinema clássico que muito abusou desse gênero. Qualquer pessoa que goste de cinema antigo vai se lembrar dos famosos filmes de Gene Kelly, que muito emprestou seu talento de dançarino às lutas coreografadas de capa e espada em filmes, como “Os Três Mosqueteiros” e “O Pirata”.

Apesar de não ter grandes surpresas, nem muitas personagens femininas importantes, “Cyrano, Mon Amour se afirma como uma grande homenagem ao teatro e a um dos grandes nomes franceses do século XVIII, o próprio Cyrano de Bergerac.

Nasce o Cyrano de Alexis Michalik

Cyrano Mon Amour
Imagem: divulgação

“Cyrano, Mon Amour” começou a ser pensado há cerca de 20 anos, quando o diretor do filme assistiu ao filme “Shakespeare Apaixonado” e percebeu que a inspiração de Shakespeare e as circunstâncias nas quais o dramaturgo escreveu suas obras poderiam servir para uma versão francesa desse tipo de narrativa.

Logo após assistir ao filme, Alexis Michalik leu a peça de Edmond Rostand, “Cyrano”, e o resto é filme. O diretor ficou fascinado com o fato de que Rostand tinha apenas 29 anos quando escreveu aquela peça de teatro que seria encenada mais de 400 vezes, mas sempre fazendo reverência ao primeiro intérprete de Cyrano, Constant Coquelin. De acordo com um site dedicado a Cyrano de Bergerac, as palavras em homenagem ao primeiro intérprete de Cyrano são estas: “dedico este poema à alma de Cyrano. No entanto, como ela passou por você, Coquelin, é a você que dedico o poema”.

Quem for assistir a “Cyrano, Mon Amour” com a ideia de que os fatos contados no filme aconteceram exatamente da forma mostrada vai se frustrar. Alexis Michalik tomou muitas liberdades durante o filme para demonstrar a sua visão sobre a maneira como Cyrano foi escrita por Edmond Rostand.

Em entrevista, o diretor declarou que inventou a rivalidade entre Georges Feydeau, dramaturgo extremamente popular na época, para que esse personagem funcionasse como contraponto a Edmond Rostand. Isso porque, ao contrário de Rostand, Feydeau gozava de muito prestígio e sucesso, algo que o autor de Cyrano só conseguiu depois de escrever diversas peças em forma de poesia. Além disso, personagens reais foram misturados aos que realmente viveram no final do século 19.

No geral, essa escolha do diretor não afeta a mensagem principal, que, para nós, é celebrar o teatro e nos fazer pensar sobre todo o processo tortuoso de criação de um espetáculo, da escrita até a encenação.

O processo de criação de Edmond Rostand: os homens e suas musas

Cyrano Mon Amour
Imagem: divulgação

Uma das maiores frustrações em relação ao filme é a falta de personagens femininas significativas na trama. Alguns podem dizer: “mas é uma peça do século 19, é claro que não vamos ter mulheres em papéis significativos”. Porém discordamos. Alexis Michalik poderia ter retratado a relação muito próxima entre Rostand e a atriz Sarah Bernhardt, uma das maiores de sua época. Ele escreveu três peças para ela, mas “Cyrano, Mon Amour” se resigna a mostrar muito pouco sobre a mesma.

Dessa forma, as mulheres acabam tomando a posição de musas ou sendo apagadas de sua real influência, como é o caso de Sarah. Edmond Rostand não teria conseguido encenar Cyrano, por exemplo, se ele não fosse extremamente próximo a ela. Foi a atriz quem chamou Coquelin, o primeiro ator a interpretar Cyrano no teatro, para ouvir Rostand recitando suas poesias. Ela teria dito “você não vai se arrepender, venha”.

Na tarde em que Coquelin ouviu Rostand pela primeira vez, a sementinha de Cyrano foi plantada no coração do autor. De acordo com uma entrevista de 1932, concedida pelo filho de Coquelin, seu pai teria pedido ao poeta: “escreva um papel para mim, e eu o interpretarei quando e onde você quiser”. Jean, filho de Coquelin, também conta que ficou surpreso com a velocidade com a qual o autor escrevia Cyrano. Em sua cabeça, ele já tinha os 250 versos do terceiro ato da peça, algo que surpreendeu a todos.

Além de Sarah, outra mulher também é uma figura central em “Cyrano, Mon Amour”: Jeanne d’Alcy (Lucie Boujenah). A “lenda” conta que Edmond Rostand encontrou um jovem, Christian, em uma fonte, lamentando seu azar por não conseguir conquistar a mulher que amava, Jeanne. O poeta e dramaturgo decide ajudá-lo e, assim, começa a escrever cartas de amor para ele. Foi a partir dessas cartas de amor que Rostand encontrou inspiração para seu Cyrano.

Imagem: divulgação

Conforme dissemos acima, as mulheres em “Cyrano, Mon Amour” ocupam apenas a posição de musas. Jeanne é a inspiração para a peça e o interesse amoroso de Léo Volny (Tom Leeb). Como Simone de Beauvoir denunciou em “O Segundo Sexo”, a mulher acaba sempre sendo o específico, enquanto os homens representam o geral. Por ser o específico, a mulher acaba adquirindo diversos adjetivos, de musa à maldita. Como musa, ela não tem voz, aceita passivamente sua condição e é a muleta para o sucesso do dramaturgo.

Sabemos que, no século 19, as coisas funcionavam assim, mas Sarah Bernhardt era uma personagem real da época e que poderia trazer algo além de apenas homens tentando montar uma peça de teatro. Por que ela aparece tão pouco em comparação a eles? Ao fazer isso, Alexis Michalik tomou o caminho mais fácil, ou seja, se valer do recurso “mas era assim naquela época” para apagar as mulheres desse filme – ou para servirem como figuração.

Da dificuldade que é escrever: o caso Rostand e o nosso

Cyrano Mon Amour
Imagem: divulgação

Um dos pontos mais cativantes do filme é como ele coloca a dificuldade de escrever e conseguir inspiração. Acredito que conseguimos fazer um recorte muito interessante do que era ser escritor e homem no século 19 e o que é ser escritora/produtora de conteúdo no século 21.

Rostand está passando por um bloqueio criativo. Ele não consegue escrever, rasga o rascunho e não vai para frente. No entanto, o autor é um homem no século 19. Como tal, ele consegue ter tempo de escrever, pois a esposa cuida dos dois filhos do casal. Até encontrar Sarah e ela o apresentar ao ator Coquelin, Edmond tem tempo de refletir muito sobre o que deseja fazer. Apesar de o filme não mostrar, ele não era muito bem visto na sociedade da época. Considerado um autor meia-boca, isso não o impede de ir para frente e realizar seus sonhos.

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Quando falamos em mulheres, a atividade da escrita e da produção de conteúdo é muito mais difícil. Isso porque nossa jornada dupla, como cuidar da casa e dos filhos sem a ajuda do companheiro, acaba nos cansando duas vezes mais. Quando você vê, é tarde, precisa acordar cedo e arrumar as coisas para tudo começar de novo. Em que janela de tempo vivemos entre essas atividades?

Para além dessa jornada dupla, que contabiliza dez horas a mais que a dos homens segundo a CUT, existem as inseguranças. Como diria Virginia Woolf, o anônimo, durante muitos anos, foi mulher. A literatura escrita por mulheres não tinha o mesmo valor que a dos homens; quer dizer, ainda não tem. Por conta disso, é muito comum encontrar mulheres produzindo conteúdo na internet profundamente inseguras e alvos de ataques misóginos quando ousam falar a verdade.

Imagem: divulgação

Mesmo que a jornada de crise do escritor seja protagonizada por um homem em “Cyrano, Mon Amour”, é possível se identificar. Na época do autor, não havia a internet para nos deixar ainda mais ansiosas, mas a comparação é tão velha quanto a história. No filme, Edmond compara-se ao bem-sucedido Feydeau e acaba até se passando por ele em um dos momentos mais engraçados do filme. Nós, produtoras de conteúdo, acabamos passando por uma série de comparações, medos e inseguranças, desprezando o valor de nosso trabalho.

Esse foi o ponto que mais nos tocou em “Cyrano, Mon Amour”, pois como produtoras de conteúdo muitas vezes passamos por uma profunda crise emocional e criativa. Escrever crítica é um desafio e não podíamos deixar de falar sobre isso, porque tudo na internet parece flores e rosas, mas muitas mulheres sofrem com a síndrome do impostor e talvez alguma delas pense nisso ao assistir a “Cyrano, Mon Amour”.

Ainda sobre escrita, o filme também mostra como uma ideia se modifica ao longo do tempo. Nós começamos uma ideia, mas ela acaba se perdendo, ganhando novas formas e contornos do que o previsto. Isso é um aspecto fantástico, mas também muito ansioso da escrita – e, neste ponto, também conseguimos estabelecer uma conexão com Edmond Rostand, embora estejamos separadas por quase dois séculos.

Imagem: divulgação

“Cyrano, Mon Amour” é um filme muito interessante para quem deseja conhecer um dos maiores clássicos da literatura francesa e todo o processo que fez com que Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, fosse encenada mais de 400 vezes. Depois que os créditos sobem, é possível assistir a trechos dessas encenações e elas são muito lindas. A edição do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano também conta com a versão cinematográfica de Cyrano de Bergerac, com Gérard Depardieu no papel título na programação. Por ser o filme clássico escolhido para 2019, é interessante assistir a esses dois filmes para ter uma compreensão melhor de como a obra e a vida real se misturam nessa peça de teatro.

E no mais: viva o cinema francês!

https://www.youtube.com/watch?v=EYLjEWAFE_g


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

Tradutora e noveleira. Criou, em 2014, o canal sobre cinema clássico no YouTube, o Cine Espresso, para espalhar na Internet o amor pelos filmes esquecidos. Gosta de chá preto acompanhado de um bom livro.
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