Beverly Marsh: de heroína a vítima nos capítulos de “It – A Coisa”

Beverly Marsh: de heroína a vítima nos capítulos de “It – A Coisa”

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Que o Princípio Smurfette (ou seja, ter apenas uma protagonista feminina dentro de uma narrativa cheia de homens) é uma forma de limitar as personagens femininas, todas já estão carecas de saber. Mesmo assim, dentro dessas limitações, surgem diversas maneiras de desenvolver tal personagem. “It – A Coisa” nos traz dois desenvolvimentos opostos quando analisamos as adaptações recentes (filmes de 2017 e 2019) e a obra original, escrita por Stephen King, em 1986. A Smurfette em questão é a personagem Beverly Marsh.

Interpretada pela atriz Sophia Lillis quando criança e Jessica Chastain como adulta, ela é a única menina entre os sete membros do Losers Club, um grupo de crianças que inclui Bill (Jaeden Martell/James McAvoy), Ben (Jeremy Ray Taylor/Jay Ryan), Richie (Finn Wolfhard/Bill Hader), Eddie (Jack Dylan Grazer/James Ransone), Stan (Wyatt Oleff/Andy Bean) e Mike (Chosen Jacobs/Isaiah Mustafa). Portanto, tais personagens acabam se aproximando por serem os excluídos do colégio.

Atenção: esse texto contém spoilers dos filmes “It – A Coisa”, de 2017 e 2019

Em “It – A Coisa”, de 2017, Beverly Marsh sofre acusações em relação a sua sexualidade e suposta promiscuidade, sendo vítima de bullying por parte de seus colegas de turma e também adultos da cidade de Derry (julgada pelas mulheres, sexualizada pelos homens). Entretanto, seus problemas poderiam acabar por aí e se assemelhar aos dos outros losers, mas Bev também possui uma relação abusiva com seu pai, que é fisicamente e psicologicamente agressivo com ela.

Beverly Marsh
Beverly Marsh é a única menina do Losers Club e lida com vários tipos de trauma (Imagem: Warner Bros/Reprodução)

Feminilidade controversa em “It”

A expressão de sua feminilidade é por vezes tratada de modo subversivo em “IT”, com a personagem se apropriando dela de modo a se impor como igual (ela se recusa a ser tratada como diferente por ser mulher, tanto taticamente quanto na liberdade de vestimenta), e outras vezes como sinal de sua opressão (Beverly escolhe cortar seus cabelos, como se estes fossem culpados por sua condição de vítima, e, em um dos ataques da Coisa, sua menstruação volta a assombrá-la com sangue sendo esparramado por todo o banheiro).

É claro que esses sinais são mais evidentes no livro, já que o espaço para desenvolvimento da personagem é infinitamente maior do que nos dois filmes (vale a lembrança de que se trata de uma obra de mais de mil páginas). Mas alegar que a ruiva foi de heroína a vítima nas adaptações – só por falta de tempo para sua evolução – é preguiçoso.

Desde a escolha do elenco vemos uma problemática: Sophia Lillis é mais velha do que cinco dos seus seis colegas e a direção do filme parece querer lembrar a espectadora disso. A caracterização de Bev é feita de forma a esta parecer mais madura, contribuindo com a construção social de que garotas são mais maduras do que garotos, apesar de terem a mesma idade. Agregando a isso, a Beverly Marsh do filme é completamente consciente do que seu gênero provoca nos homens, até se utilizando disso para seduzir o dono da farmácia ao mesmo tempo que os amigos roubam alguns medicamentos.

Tentando fugir das armadilhas do seu próprio gênero, Beverly Marsh corta os cabelos
Tentando fugir das armadilhas do seu próprio gênero, Bev corta os cabelos (Imagem: Reprodução).

A sexualidade como gatilho

Enquanto no livro Bev não é definida pelo seu gênero, ambos os filmes a retratam como produto de sua sexualidade. Sua história está ligada ao abuso que sofre, a ser lida como vadia pela cidade, a despertar o interesse sexual dos garotos e ser parte de um triângulo amoroso com Bill e Ben (o primeiro, um crush correspondido, mas que não toma iniciativa; o segundo, um admirador secreto).

É sintomático que assim o seja, e que isso seja ainda mais manifesto no segundo filme. Como em um jogo de batata quente, Beverly é jogada de Bill para Ben para o abuso que sofreu (e sofre), sendo definida pelos seus sofrimentos e sua necessidade de ser valorizada por alguém. Não há espaço para aprofundamentos.

Ora, até o arco final do primeiro filme, à exceção de algumas ressalvas, até se pode argumentar que a Beverly Marsh do livro está ali, nem que seja de forma superficial. Afinal, seu desenvolvimento como mulher é mais significativo do que o dos garotos que a acompanham nessa narrativa. Contudo, esse argumento cai por terra no momento em que ela é sequestrada pela Coisa na tentativa de atrair o restante do grupo aos esgotos e, enfim, matá-los, em uma repetição do tropo de donzela em perigo.

It - A Coisa
Bev, infelizmente, é levada a fazer parte do tropo de mulheres em situação de risco que precisam ser salvas (Imagem: Reprodução)

É preciso lembrar que, no livro, os losers decidem em conjunto ir atrás da Coisa, motivados pelo pensamento heroico que, se não forem, ninguém mais irá detê-la. Até traçam um plano defensivo que — surpresa — tem Bev como protagonista, sendo ela quem possui maior domínio sobre atirar e acertar o alvo.

Por que, então, realizar essa mudança de intenções, descaracterizando não só Bev, mas toda a motivação ética e corajosa da decisão dos losers? Mas tudo bem, porque, no filme, quando o grupo finalmente encontra Beverly (desacordada), Ben lhe dá um beijo-de-amor-verdadeiro e ela imediatamente acorda de seu sono profundo. Oi?

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Os paralelos insuficientes de Beverly Marsh

No segundo filme, o espaço da personagem é ainda mais reduzido — se antes Beverly pelo menos tinha algum protagonismo, neste o estrelato é completamente transferido para Bill, o que achata os outros personagens e, consequentemente, Bev. Mesmo assim, ao comparar a forma que os demais têm seus envolvimentos amorosos tratados no longa, percebemos que eles não são definidos por estes. Ela, sim. E se antes Beverly era adultizada, agora a personagem parece se comportar de forma até juvenil, movida pelas paixonites da infância.

Beverly Marsh (Jessica Chastain)
Beverly é definida pela sua necessidade de ser amada (Imagem: YouTube/Reprodução)

Além disso, apesar de traçar paralelos com a realidade de vítimas de abuso, toda a contextualização de Bev voltar a ter uma relação abusiva, dessa vez com seu marido, é varrida para debaixo do tapete. É uma simples consequência de todos os losers espelharem comportamentos da infância, seja Eddie casando com alguém idêntica a sua mãe, Bill namorando ruivas ou Bev em mais um relacionamento abusivo. Essa conduta específica de Beverly não é tratada com nenhuma prioridade no filme e acaba sendo esquecida, enquanto a personagem é jogada de volta ao triângulo amoroso e sua necessidade de validação por meio do amor fica ainda mais evidente.

Que fique claro que o livro tem seus problemas. A perturbadora cena que antecede a saída dos losers do esgoto ainda é questionada por muitos — e com razão. Mas o problema da Beverly Marsh das adaptações vai além de um simples acontecimento na história. É sobre a construção de uma narrativa batida, de uma personagem reduzida a um triângulo amoroso e aos abusos que sofre.


Edição realizada por Isabelle Simões.


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Jornalista, feminista, apaixonada por escrever e doida da problematização. Adooora dar opinião sobre tudo e criticar séries, filmes e livros é uma paixão de infância.
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