“Adoráveis Mulheres” e o amor à liberdade

“Adoráveis Mulheres” e o amor à liberdade

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Adoráveis Mulheres” é uma obra de arte. Dirigido e adaptado por Greta Gerwig, a obra mais conhecida da escritora norte-americana Louisa May Alcott ganhou sua versão final em 2019. Exibida no Brasil apenas no início de 2020, a obra é perfeita. São poucos os filmes que podem ganhar tal elogio, mas não há críticas a fazer sobre ele. O clássico de Alcott está perfeitamente retratado em um filme que é uma mistura de adaptação literária com homenagem à autora.

O filme se passa durante a década de 1860, nos Estados Unidos, mas bem que poderia se passar hoje. Nele, conhecemos as irmãs March, Meg, Jo, Beth e Amy, e sua mãe, Marmee, mulheres que enfrentam a quietude da guerra nos lares daquelas que não poderiam ajudar seus pais e maridos. É interessante observar a força dessa narrativa que começa por contar uma história diferente daquelas contadas durante o mesmo período. As irmãs March não lutam, não se rebelam, não fazem nada que pareça significante de registro em narrativas tradicionais: elas apenas vivem. E isso é o bastante.

Esse é o principal motivo por que o livro de Alcott (intitulado como “Mulherzinhas” em edições brasileiras) possui uma força diferente de outros clássicos. Ao nos aprofundarmos na história contada por ela, descobrimos que as irmãs March importam justamente por serem normais, por serem jovens comuns de seu tempo, que não precisam conquistar grandes feitos para serem importantes. Greta Gerwig compreendeu isso e, ao adaptar o clássico para a telona, conseguiu passar o sentimento de que a narrativa das mulheres comuns importa, ainda que nada rocambolesco aconteça e que o que tenhamos seja o cotidiano de quatro jovens mulheres crescendo e amadurecendo em suas casas.

Jo March, a grande protagonista

Jo March (Saoirse Ronan) em "Adoráveis Mulheres"
Jo March (Saoirse Ronan) em “Adoráveis Mulheres”. (Imagem: reprodução)

O livro divide mais ou menos bem o protagonismo entre as quatro irmãs. Como se trata de uma obra semi-autobiográfica, sinto que a autora escolheu fazê-lo dessa maneira para não incitar sentimentos fortes nas irmãs, que são retratadas como personagens do romance.

Contudo, Jo March, interpretada por Saoirse Ronan, possui o destaque na adaptação de Gerwig. A estrutura do filme é baseada nos acontecimentos da vida de Jo, desde o presente até os flashbacks da infância. Toda a narrativa é centrada nela e suas irmãs, ainda que possuam destaque, de certa forma, brilham menos do que Jo.

Não é segredo que Jo é a forma literária da própria Louisa May Alcott que, assim como a personagem, sonhava em ser uma escritora e passou por diversos estilos até chegar àquele que a consagrou como um dos grandes nomes da literatura clássica de língua inglesa. Mas, no livro, a história é um pouco diferente daquela que, de fato, aconteceu na vida real. Tudo é muito mais romantizado e ressoa os ideais da época, o que não é surpresa alguma, já que Alcott preferia entregar uma obra mais romântica e conservadora do que a própria inspiração do que não ser publicada e não ganhar dinheiro suficiente para se manter. Ela era uma mulher prática que soube aliar sua paixão pela escrita com o tipo de livro que era vendido na época, criando um produto rentável e bonito.

Louisa May Alcott
A autora de “Mulherzinhas”, Louisa May Alcott. (Imagem: reprodução)

A Jo de “Adoráveis Mulheres” também faz isso. É incrível ver como Greta Gerwig foi capaz de capturar a essência de Jo, e da própria Alcott, fazendo uma bela homenagem e mostrando, na tela, uma espécie de história que mistura a biografia da autora com a vida de sua personagem. Jo passa o filme inteiro tentando ser fiel a si mesma e se focar em sua carreira. Para isso, ela abdica de ter um relacionamento com um rapaz de quem gosta (Laurie, interpretado por Timothée Chalamet), subvertendo a narrativa romântica esperada de uma protagonista e permanecendo resistente às investidas românticas de um homem considerado um bom partido: jovem, rico, de boa família e boa posição social. Apesar de sentir que pode vir a amá-lo com o tempo, Jo decide não se casar por um gostar da adolescência, e prefere continuar sendo pobre e ter de trabalhar para seu sustento a se comprometer com um homem por dinheiro.

No livro, Jo acaba casando. O editor de Louisa May Alcott a força a tomar essa decisão, colocando um par romântico para a protagonista que, dentro da moral estreita da época, não poderia ser solteira. Então, Friedrich Bhaer (Louis Garrel) é inserido na trama. Ele, um pobre professor de alemão, se apaixona por Jo quando ela passa uma temporada em Nova York, dando aulas para crianças pequenas enquanto tenta fazer contatos no meio editorial.

É incrível como Gerwig decidiu alterar a história original de Jo inserindo duas narrativas para o final da personagem: a do livro que ela mesma escreveu sobre sua família, onde acaba casada com o professor Bhaer, e a da vida real, onde termina escolhendo permanecer solteira, mas casada com a escrita, numa das mais belas cenas que já tive o prazer de ver no cinema.

Jo e Laurie em "Adoráveis Mulheres"
Jo e Laurie (Timothée Chalamet) em “Adoráveis Mulheres”. (Imagem: reprodução)

Compreendendo Amy March em “Adoráveis Mulheres”

Um dos grandes trunfos de “Adoráveis Mulheres” é a forma como o filme aborda Amy (Florence Pugh). Em adaptações anteriores, e até mesmo no livro, ela é a mais irritante das irmãs: bonita, mimada e capaz de dar uma rasteira em sua própria família, se isso significar obter ganhos pessoais. Mas não é bem assim que Amy é apresentada no filme de Greta Gerwig.

Nele, conhecemos uma jovem um pouco irritante, mas também muito talentosa. Seja na pintura ou na escultura, Amy quer dar o seu melhor e tem por objetivo ser uma mulher educada e talentosa, ganhando a vida através da arte. Mas ela também quer viver no luxo, quer ser rica e casar bem. Existem muitos momentos no livro em que somos levados a pensar mal de Amy, especialmente quando ela diz a Laurie que casará com um certo rapaz riquíssimo de seu meio porque ele é rico e, portanto, com o tempo, ela aprenderá a amá-lo. Isso faz com que pensemos que Amy March é uma garota fútil.

Amy March em "Adoráveis Mulheres"
Amy March em “Adoráveis Mulheres”. (Imagem: reprodução)

Ela tem suas futilidades, mas essa era a forma de sobrevivência para uma mulher branca e de boa posição social como ela. Ou você se enquadra no jogo ou você é rejeitada. Vendo sua família, que havia caído em pobreza, ser desprezada pela alta sociedade, especialmente por sua irmã Jo, que não correspondia aos ideais de uma jovem da época, Amy decidiu que investiria em sua beleza, sua arte e em um bom casamento para ter uma vida feliz e confortável.

Ainda que possamos condená-la por isso, fico feliz que Greta Gerwig não o fez. Florence Pugh interpreta uma Amy diferente de todas as que havia visto até então. Ela é frívola, mas muito inteligente, e sua frivolidade é calculada para que possa se encaixar no mundo de pompas que frequenta. E que mal há nisso? Se você é uma mulher com condições de galgar uma vida melhor, mesmo que numa época que não gostava de mulheres, por que não tentar? Nem todas precisam ser Jo, livres e com coragem suficiente de bancar seus sonhos. Algumas podem simplesmente fazer o melhor dentro das restrições que a sociedade impõe, e não há nada de errado nisso.

“Adoráveis Mulheres” é uma história sobre o amor à liberdade

Saoirse Ronan, Florence Pugh e Emma Watson em “Litte Women”, de Greta Gerwig. (Imagem: reprodução)

“Adoráveis Mulheres” é sobre como as mulheres experimentam o amor à liberdade. Marmee (Laura Dern), a mãe das jovens, sempre encorajou suas filhas a serem o que quisessem, ainda que isso significasse nada de casamento ou uma vida pobre. Podemos ver essa criação moderna nos destinos de suas filhas. Criadas de forma escandalosamente livre para os padrões da época, as irmãs March seguem cada uma por um caminho diferente.

Meg (Emma Watson) dá às costas à vida na alta sociedade e às possibilidades que lhe são apresentadas para casar com um professor pobre, que não lhe dará muito, mas a quem ama. Ela, de fato, escolhe ser a esposa de um professor, ter uma vida simples, mas rodeada por filhos e por uma família que lhe apoia. Tal cenário pode parecer desesperador para algumas de nós, mulheres do século XXI. No entanto, escolher dar às costas para um destino rico, sem amor, para casar com um homem pobre foi uma escolha atrevida na narrativa original de Alcott. Para Meg, a liberdade era viver seu amor, ainda que ele tivesse seus momentos ruins.

Jo e Amy possuem visões muito diferentes sobre o que é ser livre. Para Amy, ser livre é ter conforto e estabilidade financeira suficientes para poder fazer o que quiser da vida sem grandes preocupações, ainda que ela tenha que casar para isso – o que o faz por amor, felizmente. Já para Jo, a nossa protagonista, liberdade é poder escrever, sem estar amarrada a um homem. Mesmo sozinha e sentindo a dor da solidão, ela segue sendo fiel a si mesma e se orgulhando de suas conquistas literárias, que lhe custam muito, mas que ela não trocaria por nada, nem ninguém.


 

Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Autora

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Jornalista e pessoa da internet há uma década. Analista literária, quando não está lendo, escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.
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