“A Barca”, inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles, reflete a fantasmagoria da solidão (23ª Mostra de Tiradentes)

“A Barca”, inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles, reflete a fantasmagoria da solidão (23ª Mostra de Tiradentes)

Baseado no conto “O Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles, o curta-metragem alagoano “A Barca“, primeiro filme escrito e dirigido por Nilton Resende, traça o encontro de duas mulheres com perspectivas diferentes sobre a solidão. Uma delas, ao embarcar e ser perguntada pela condutora sobre qual seria a sua parada, responde: “mas essa barca vai pra onde?” Sem resposta, a viagem se inicia rumo ao desconhecido e nos damos conta de que mais importante que o destino é a forma como se perfaz o caminho.

No conto de Lygia há um trecho que apresenta a protagonista da seguinte forma: “debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal”. A contextualização fática, temporal e geográfica está dada e o curta, exibido na 23ª Mostra de Tiradentes, faz essa adaptação com extrema fidelidade.

Uma lagoa de águas escuras, uma assombrosa lua cheia, uma condutora misteriosa, além da ambientação encenada através do jogo de luz e sombra captadas de forma eficiente pela fotografia, conferem o ar mórbido, ao mesmo tempo lúdico e fabular, que o curta “A Barca” pretende emular. A câmera fica a espreita dos navegantes como uma observadora participante.

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Cartaz de "A Barca", curta-metragem inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles
Cartaz de “A Barca” (Foto: divulgação)

A protagonista, que deseja estar sozinha numa noite em que se celebra a comunhão, rompe o silêncio ao encontrar uma mulher que carrega um bebê no colo e insiste em chamar sua atenção. “Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços — os tais laços humanos — já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. Mas agora não tinha forças para rompê-los” (trecho do conto). A mãe, com a criança de colo, de alguma forma mobiliza e desestabiliza aquela mulher que, a princípio, não queria papo com ninguém. É nos deslocamentos emocionais dessas duas personagens que a narrativa de “A Barca” se desenrola.

Para onde estão indo? Quais seus anseios? Como e por que embarcaram naquela viagem, naquele data solene? O curta-metragem não pretende, bem como o arcabouço textual no qual se baseia, responder a nenhuma dessas perguntas, e isso é um dos seus grandes acertos dramatúrgicos.

Assim como no longa-metragem “Los Silencios” (2018), de Beatriz Seigner, não sabemos quem de fato está vivo e quem está morto. O que é mais fascinante é o contato desses universos e o que os encontros entre esses dois mundos podem gerar. A montagem de Lis Paim privilegia o tempo narrativo que, na vagarosidade, reflete o deslizar sobre as águas enigmáticas em uma noite de lua cheia.

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Cena de "A Barca", curta-metragem exibido na 23ª Mostra de Tiradentes
Cena de “A Barca”, curta-metragem exibido na 23ª Mostra de Tiradentes. (Foto: divulgação)

Em entrevista ao site Alagoar, o realizador diz:

“O roteiro de ‘A Barca’ não ficou pronto rapidamente. Eu comecei a trabalhar nele há uns cinco ou seis anos, e passou por mais de dez tratamentos. Ainda bem que eu não fui o diretor de arte do filme. Ainda bem que foi a talentosíssima Nina Magalhães — se tivesse sido eu, possivelmente eu teria encharcado a cena com uma simbologia particularmente lygiana. Mas a Nina, estando movida pela presença da história, pôde, de algum modo, fazer algo independente do mundo que Lygia nos deu, ao mesmo tempo que nos deu aquele mundo.

Ou seja, ao conseguir afastar-se do texto original, ela nos deu esse mesmo texto e algo mais. Se fosse eu, um estudioso da obra, a fazer a arte, talvez não tivesse dado nada mais além de um pastiche imagético da obra que deu origem ao filme. É que estudar faz com que a gente dê valor demais à razão. E a razão pode até compreender as presenças, mas não pode tê-las, não pode fazê-las — pode apenas discursar sobre elas.”

A fantasmagoria, portanto, se faz presente na direção de arte com a caracterização da barca que, com luzes coloridas, preenchem de sentido a cena. A presença da embarcação é tão marcante que ela ganha status de entidade, revelando-se a personagem (também no feminino) onipresente do filme. Não por coincidência, seu nome na vida real é “Deixe a minha vida”.

O curta-metragem “A Barca” é, sem dúvida, um exercício estilístico que transita entre o melodrama e o terror sem maniqueísmos e maneirismos de nenhum dos dois gêneros. Trunfo dos realizadores, que conseguem captar a essência do conto em seus breves e precisos 20 minutos de duração.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

Autora:

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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