“Retrato de uma jovem em chamas” é uma celebração do amor entre mulheres

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma celebração do amor entre mulheres

Retrato de uma jovem em chamas: França, século XVIII. No novo filme de Céline Sciamma, a história de duas mulheres se cruza e se transforma, literalmente, nos olhos uma da outra. Marianne (Noémie Merlant), pintora e professora de arte, é contratada para pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel), na sua apresentação para seu futuro marido. Afinal, trezentos anos atrás não existiam redes sociais, selfies e, portanto, esses retratos viajavam nos navios trancados em caixas de madeira, e, com sorte – além do talento de quem o pintava – agradariam a pessoa que o receberia, num complexo sistema de matches da época renascentista.

AVISO: O texto abaixo conter spoilers do filme

Retrato de uma jovem em chamas

Mulheres e uma homenagem à feminilidade. Não que o roteiro de “Retrato de uma jovem em chamas” ou o filme, de uma maneira geral, esteja construído com um discurso misândrico. Não estamos falando da exclusão de homens, mas sim da construção de personagens mulheres tão complexas e fascinantes, que é impossível sentir falta de presenças masculinas, afinal temos homens em postos de serviço na tela.

Com o filme em exibição nos cinemas, começaram a surgir algumas críticas – escritas por homens – sobre as deficiências presentes no longa. Inclusive sua excessiva sensibilidade, o que impossibilitaria que “almas masculinas” gostassem do roteiro, categorizando o filme como “coisa de mulher”. Pois bem, que seja uma coisa de mulher ou não seja, já que ninguém é obrigada a viver nos padrões de gênero. Mas, binarismos de gênero a parte, trata-se da sensibilidade crua de um filme construído a partir da matéria mais intrigante, e instigante, que poderia existir: a complexa sentimentalidade humana.

Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant) vestidas de forma que somente expõem os olhos e o cabelo, sentadas na areia, em uma praia.
Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant) em “Retrato de uma jovem em chamas”. (Imagem: reprodução)

Uma homenagem à sensibilidade e àquelas que se permitem sentir

Simples. Não existe outra maneira mais clara de definir “Retrato de uma jovem em chamas”. A ausência de uma trilha sonora marcante e efeitos especiais mirabolantes – até por ser um filme de época – nos coloca atentas aos detalhes, não tão pequenos assim: os olhares e suas ausências, as cores repetidas dos vestidos, uma aristocracia decadente numa casa grande e vazia, mulheres que não se conhecem e se apoiam, personagens – e não só a jovem – em chamas.

Afinal, por mais reduzido que seja o elenco, não estamos falando apenas de Héloise e Marianne. Temos Sophie (Luàna Bajrami), responsável por arrancar suspiros cheios de sororidade ao exercer o seu direito de decidir em pleno patriarcado do século XVIII. Palmas para essa jovem – que seria revolucionária até mesmo no século XXI – por estar consciente de sua posição “de criada” ao assumir que não tem acesso às informações da família. Ainda assim, ao mesmo tempo, ela se coloca como igual às mulheres da aristocracia que, inclusive, são suas maiores e únicas apoiadoras na jornada por suas próprias escolhas.

Temos também “a Condessa” (Valeria Golino), mãe de Helóise e contratante de Marianne para fazer o retrato. Uma mulher de seu tempo. Por seu porte e sua titulação, é claramente parte da aristocracia francesa. Porém, naquele momento, se mostra decadente e coloca no casamento da sua filha a esperança de que o status quo será mantido e a paz se concretizará no reino do patriarcado. Sua presença é tão problemática que é apenas em sua ausência que os sentimentos e emoções começam a ser aflorados ou, melhor dizendo, vivenciados.

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Cena em que Helóise, de olhos fechados e atrás de Marianne, também de olhos fechados, toca o queixo da pintora
Cena de “Retrato de uma jovem em chamas”, novo filme da diretora Céline Sciamma. (Imagem: reprodução)

“Você conseguiria descrever o que é o amor?”

Conhecemos Helóise reclusa. Envolta numa capa preta, sua primeira imagem aparece como um enigma a ser desvendado – tanto por nós, espectadoras, quanto por Marianne, já conhecedora da dificuldade que seria para retratar a jovem. Por não querer se casar, Heloise também se recusa a ser retratada para seu futuro noivo. E, por isso, a pintora não pode contar que terá uma pose para um quadro. Ela terá que captar os detalhes de sua musa durante os momentos de convivência entre as duas: as refeições, os passeios pelo litoral.

Quando a primeira versão do quadro fica pronta, Marianne finalmente revela sua verdadeira função: pintora e não dama de companhia, como a Condessa fez parecer para Helóise. A confiança é abalada e só é restituída quando a pintora queima o retrato que fez, deixando bem claro para Helóise que havia feito isso por ela.

Para todas as adoradoras de “The L Word” e seus derivados, uma meia jura de amor é suficiente e, com as mulheres que amavam mulheres do século XVIII, não poderia ser diferente. Ou seja, temos uma rápida construção de um relacionamento ardente, confinado numa realidade paralela: o retrato de uma jovem que estará, para sempre, em chamas.

O filme acaba e nos dilacera. De uma maneira atemporal – e um tanto quanto cruel – “Retrato de uma jovem em chamas” nos mostra a utopia do amor romântico e a problemática de que será intenso enquanto (não) dure. Mas, por outro lado, temos uma obra de arte cinematográfica feita por mulheres e para mulheres. Uma história de personagens que mais do que se amarem e se desejarem, se entendem e se (re)conectam.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

Autora:

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Lésbica, feminista, produtora de conteúdo, fluente em inglês e memes brasileiros. Sua trajetória pode ser seguida de uma adolescente emo para uma hipster meio torta, sempre bebendo muito café. Ativista dos direitos humanos, é fundadora do Coletivo Fé.ministas que trabalha feminismo e religião. Nunca nega um bom papo, mas se o assunto estiver relacionado com cultura nerd, signos ou gatos trabalha na base dos slides com muita convicção.
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