6 artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020

6 artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020

Um dos momentos mais esperados durante a temporada de premiações do cinema é a revelação dos indicados ao Oscar. Todo ano a Academia faz uma transmissão ao vivo bem cedo para revelar a lista dos concorrentes. Dessa vez, ela foi apresentada por John Cho e Issa Rae, o que pareceu quase irônico diante do anúncio composto majoritariamente por homens brancos

O incômodo com a lista dos indicados também vem da discrepância entre ela e os filmes que chamaram a atenção em 2019. Muitos longas elogiados no ano passado não ganharam uma indicação sequer, enquanto outros parecem ter surgido “de repente” no holofote. Em um ano marcado por performances e produções impressionantes de mulheres, é frustrante que uma premiação tão grande não espelhe esse cenário, nem reconheça essas artistas e seus filmes.

Ainda assim, vale notar que, por mais prestigioso seja o Oscar, há uma movimentação financeira por trás dele, assim como há com a grande maioria das premiações. Mesmo os prêmios dos sindicatos – como o SAG, de atores; o WGA, de roteiristas; o DGA, por diretores, entre outros –, que acabam parecendo mais “justos” com seus indicados e vencedores, por causa dos critérios e do sistema de votação, ainda estão envolvidos com as campanhas publicitárias dos estúdios.

E muitos filmes já perdem chances logo nessa etapa, por não terem orçamento suficiente para investir em “paparicar” os votantes. São sessões comentadas, eventos, entrevistas, brindes, festas particulares, jantares e todo um networking necessário para se manter relevante durante a corrida. Os estúdios de distribuição chegam a gastar milhões em busca de ao menos uma indicação. Isso porque, se vencerem, o prestígio se converterá no aumento da bilheteria e das vendas de DVDs, ou seja, em mais lucro. 

O prestígio e a tradição do Oscar versus a representatividade

Tendo o Oscar sido conquistado com muita propaganda ou nem tanta, a validação que a vitória carrega consigo ainda é inegável. E é por isso que mais artistas diversos devem ter acesso à premiação, com oportunidades verdadeiramente justas. A exclusão dessas produções resulta na perpetuação da hegemonia da classe branca sobre o mercado e a mídia do entretenimento convencionais. A pluralidade dos corpos não pode ficar limitada às produções independentes e underground; a representatividade deve ter destaque e um amplo alcance de público.

Há 4 anos, o conselho da Academia vem tentando remediar a repercussão negativa pela falta de mulheres e pessoas não-brancas entre os indicados, sobretudo depois das categorias de atuação inteiramente compostas por brancos que ocorreram em sequência, em 2015 e 2016. Para isso, os convites para integrar a Academia (e, consequentemente, conseguir votar) aumentaram drasticamente. A busca é por mais mulheres, pessoas não-brancas, estrangeiros e representantes de diversas sexualidades, com o objetivo de diversificar as perspectivas responsáveis por avaliar os filmes. É uma tentativa de atualizar o demográfico dos eleitores, como a realizada nas décadas de 1960 e 1970, com a inclusão de artistas mais jovens para elevar a média de idade dos membros.

Ainda assim, a repetição da lista totalmente branca só não ocorreu esse ano por conta da indicação da inglesa Cynthia Erivo pela atuação em “Harriet” (e não sem controvérsias, por ter sido por um papel de escrava). E os BAFTAs, o “Oscar britânico” que acontece esse domingo (2), não conseguiu evitar o fato. Inclusive, Erivo recusou o convite para se apresentar na premiação, em repúdio à falta de representatividade.

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Pensando nisso, montamos uma lista com seis filmes muito celebrados pela crítica em 2019 (com uma média de 94% no Rotten Tomatoes entre si!), dirigidos, roteirizados, produzidos e/ou protagonizados por mulheres. Para simplificar, apontamos apenas uma para cada produção que acreditamos que mereciam ter recebido a indicação ao Oscar este ano. Contudo, as equipes possuem muitas outras artistas incríveis e todos os filmes valem a ida ao cinema. Confira: 

As Golpistas”, protagonizado por Jennifer Lopez

JLo em "As Golpistas" - artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020
JLo interpreta Ramona, personagem baseada em Samantha Barbash. (Imagem: reprodução)

O filme conta a história de duas dançarinas que vêem a clientela da boate em que trabalham diminuir com a crise financeira de 2008. Tentando aumentar sua rentabilidade, Destiny (Constance Wu) e Ramona (Jennifer Lopez) montam um plano para dopar homens em restaurantes e roubar seus cartões de crédito.  

Conhecida nas telas principalmente por ter interpretado a mexicana-americana Selena, na biografia de 1997, a performance de Lopez foi um dos principais destaques de “As Golpistas”. Performance essa que rendeu, inclusive, o convite da revista The Hollywood Reporter para compor a tradicional mesa de conversa das atrizes em destaque no ano. Curiosamente, das seis convidadas (foto abaixo), apenas as brancas entrariam na lista final do Oscar.

Scarlett Johanson, Lupita Nyong'o, Laura Dern, Awkwafina, Jennifer Lopez e Renée Zellweger: das cotadas pelo THR ao Oscar 2020, três ganharam indicações.
Scarlett Johanson, Lupita Nyong’o, Laura Dern, Awkwafina, Jennifer Lopez e Renée Zellweger: das cotadas pelo THR ao Oscar 2020, três ganharam indicações. Nesse caso, o denominador comum que separa as nomeadas e as esnobadas é a etnia. (Créditos: The Hollywood Reporter)

Nós”, protagonizado por Lupita Nyong’o

Lupita Nyong'o como Adelaide Wilson - artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020
Lupita Nyong’o como Adelaide Wilson. (Imagem: reprodução)

Jordan Peele ganhou notoriedade na mídia com Corra!, em 2017. Desde então, qualquer projeto que tenha o nome dele gera antecipação no público e na mídia. Dois anos depois, não foi diferente com a divulgação de “Nós”, filme de terror estrelado por Lupita Nyong’o e Winston Duke. Entretanto, tendo o filme sendo lançado em março, a repercussão não pareceu durar ao longo do ano até a lista de indicações do Oscar, em dezembro. 

No longa, uma família decide passar um fim de semana na praia para descansar em uma casa de veraneio. Junto aos filhos, tudo parece bem até que eles se tornam reféns de suas próprias “cópias”. Que Nyong’o é uma ótima atriz já era sabido, mas interpretar tão bem duas versões distintas de uma mesma personagem foi um feito que merecia reconhecimento com sua nomeação, no mínimo.

Além disso, filmes de terror também não são bem vistos pelos votantes da Academia, que constantemente esnobam boas performances no gênero – vide a de Toni Collette, em “Hereditário” (2018), e a de Florence Pugh em “Midsommar” (2019), ambos dirigidos por Ari Aster.

Adoráveis Mulheres”, dirigido por Greta Gerwig

Greta Gerwig dirige Saoirse Ronan em cena de “Adoráveis Mulheres” - artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020
Greta Gerwig (esquerda) dirige Saoirse Ronan (direita) em cena de “Adoráveis Mulheres”. (Imagem: reprodução)

Adoráveis Mulheres” conta com um elenco impressionante: Saoirse Ronan, Eliza Scanlen, Emma Watson e Florence Pugh interpretam as irmãs Jo, Beth, Meg e Amy, respectivamente. O filme acompanha o amadurecimento das garotas durante a Guerra Civil dos EUA. Adaptado do livro “Mulherzinhas, a história trata de temas como a dificuldade de crescer e o amor feminino.

Com Lady Bird, Greta Gerwig se tornou a quinta mulher em noventa anos a ser indicada ao Oscar de Melhor Direção. Esse ano, sua adaptação do clássico da literatura recebeu seis indicações ao Oscar (uma a mais do que em 2018), incluindo a de Melhor Filme. Ainda assim, de acordo com a lógica da Academia, parece que essa honra aconteceu devido a todos os outros elementos além da direção – categoria que não conta nem com Gerwig, nem com nenhuma outra mulher.

A Despedida”, dirigido e roteirizado por Lulu Wang

Awkwafina e Lulu Wang no set de "A Despedida" - artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020
Awkwafina (esquerda) recebe direções de Lulu Wang (direita) no set de “A Despedida”. (Imagem: reprodução)

Um drama familiar aclamado, “A Despedida” mostra filhos e netos tentando arranjar um casamento de última hora após descobrirem que a avó tem meras semanas de vida. O plano é uma tentativa de conseguir reunir todos os parentes mais distantes uma última vez, mas sem que ninguém – incluindo a avó – saiba o verdadeiro motivo do encontro.

Lulu Wang dirigiu e roteirizou o semi-autobiográfico “A Despedida”. Com a delicadeza de conseguir traduzir experiências pessoais para a tela e a vitória da Awkwafina no Globo de Ouro, sua ausência na lista do Oscar é uma que se nota. Em contrapartida à vitória da protagonista, uma controvérsia com o Globo de Ouro foi a categorização do longa como “filme estrangeiro”. Produzido nos EUA e mostrando a vida de uma chinesa-americana, o fato de que conta com quatro outros idiomas além do inglês não é motivo para ser considerado um filme “estrangeiro”.

Retrato de uma Jovem em Chamas”, dirigido e roteirizado por Céline Sciamma

Adèle Haenel, Céline Sciamma e Noémie Merlant em Cannes, onde “Retrato de uma jovem em chamas” levou o prêmio de melhor roteiro
Adèle Haenel, Céline Sciamma e Noémie Merlant em Cannes, onde o filme levou o prêmio de melhor roteiro. (Imagem: reprodução)

A história criada por Céline Sciamma é de uma profundidade incomparável. Ambientada na França do século XVIII, a narrativa de “Retrato de uma Jovem em Chamas” acompanha a pintora Marianne (Noémie Merlant), incumbida da tarefa de pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para seu casamento. A modelo não sabe do presente, e as duas se aproximam cada vez mais com o passar dos dias.

Sciamma é um nome aclamado no cenário fílmico, mais conhecida por Tomboy (2007) e Garotas (2014), além de seu longa de estreiaLírios D’Água (2007). Capaz de criar e filmar histórias intrincadas que perpassam os temas de gênero e sexualidade, a francesa se superou nesse mais novo trabalho. Além disso, a falta de sua indicação ao Oscar também chama atenção por Sciamma não ser uma novata na indústria, o que às vezes serve de justificativa para outras exclusões da Academia.

Atlantique”, dirigido por Mati Diop

A diretora Mati Diop (centro) com os protagonistas de "Atlantique", Mama Sané e Ibrahima Traoré - artistas que mereciam ter sido indicadas ao Oscar 2020
A diretora Mati Diop (centro) com os protagonistas de Atlantique, Mama Sané e Ibrahima Traoré. (Imagem: reprodução)

Ada (Mama Sané) é apaixonada por Souleiman (Ibrahima Traoré), um jovem que trabalha na construção de um prédio futurista na cidade de Dacar, no Senegal. Entretanto, ela está prometida em casamento ao rico Omar (Babacar Sylla). Não bastasse isso, ela tem que navegar o súbito desaparecimento de Souleiman, que vai tentar sua sorte junto a outros trabalhadores no mar, em uma travessia ilegal até a Espanha.

Abordando temas políticos de suma importância, “Atlantique” traz discussões sociais, romance, poesia, uma trilha sonora hipnotizante, cenários belíssimos (fotografados por Claire Mathon, a mesma cinematógrafa de “Retrato de uma Jovem em Chamas”) e performances de tirar o fôlego. Para amarrar todos esses elementos com excelência, é necessária uma liderança competente. Mati Diop conseguiu fazer isso, convocando uma equipe capaz de trazer à vida sua visão artística. 

A 92ª cerimônia do Oscar está marcada para o dia 9 de fevereiro. No Brasil, a transmissão fica por conta do canal TNT, a partir das 20h30.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Graduada em Publicidade e Cinema pela UFMG, se interessa pelos mais diversos assuntos. Comediante por natureza e professora por acaso, se descobriu escritora por necessidade. Sonha em ser uma poliglota fluente, mas não consegue focar em estudar um só idioma por vez.
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