[CINEMA] OSCAR 2017: Um paradoxo em forma de premiação

[CINEMA] OSCAR 2017: Um paradoxo em forma de premiação

No último domingo aconteceu a 89ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, o Oscar 2017, considerado o prêmio máximo da indústria cinematográfica. Assim que foram anunciados, a diversidade dos indicados presentes na edição desse ano foi notada e aclamada, parecendo um indicativo de mudanças na maneira que a indústria vê os filmes feitos a cada ano, sendo o resultado final, com certeza, uma vitória. Vitória que veio com um gosto meio amargo, decorrente da simultânea aclamação de acusados de assédio sexual e agressão contra mulheres em seus respectivos projetos. 

Em 2015, a falta de diversidade dos indicados foi notada, o que criou a hashtag #Oscarssowhite pela ativista April Reign, no twitter. No ano passado, as críticas pela falta de diversidade dos indicados retornaram, com nenhum ator ou diretor não-branco indicado novamente. Em resposta, o “protesto” #Oscarssowhite alcançou os trending topics do twitter ao redor do mundo, o que fez diversos meios de comunicação produzirem incansáveis análises sobre a situação, e figuras renomadas do cinema – como Will Smith e Spike Lee – boicotaram a premiação.

Bem, após a (repetida) polêmica, a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Cheryl Boone Isaacs, anunciou que a Academia estava fazendo mudanças em suas políticas de filiação, o que iria, ela esperava, criar mais oportunidades para mulheres e minorias.

E funcionou?

A mudança – aparentemente – deu frutos logo na edição seguinte do Oscar, com atores negros sendo indicados nas quatro principais categorias de atuação, pela primeira vez em três anos.

OSCAR 2017

Logo na entrega do primeiro prêmio da noite, de Melhor Ator Coadjuvante, fomos surpreendidas – positivamente – pela vitória de Mahershala Ali, pela sua atuação no filme Moonlight. Mahershala é o primeiro ator muçulmano a ganhar um Oscar, qualquer seja a categoria. Feito esse que, em uma era de intolerância explícita, especialmente na terra de Donald J. Trump, presidente eleito dos EUA, é bastante significativo.

OSCAR 2017

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Além disso, Moonlight ainda ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado, sendo esta a primeira vez que duas pessoas negras –  Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney – ganham nesta categoria, e de Melhor Filme (após uma confusão com La La Land, batendo o recorde de Crash – No Limite com seu orçamento de 1,5 milhões, o menor da história a ganhar este prêmio, e sendo o primeiro filme com um protagonista LGBTQ+ a ganhar este prêmio.

Marco este que se torna ainda mais significativo por ser um personagem LGBTQ+ negro, desafiando o estereótipo da extrema masculinidade tóxica dos homens negros e indo frente ao racismo presente na própria comunidade LGBTQ+.

OSCAR 2017

A Melhor Atriz Coadjuvante da noite foi – finalmente – Viola Davis (!!!) pelo seu papel em Um Limite entre Nós, e ela deu um discurso emocionado, agradecendo a todos que a inspiram e inspiraram, e aclamando a profissão de artista com:

Nós somos a única profissão que celebra o que significa viver uma vida.”

OSCAR 2017

A vitória de Viola a consagra como a primeira pessoa – e mulher – negra a ganhar o Oscar, o Emmy e o Tony na categoria de atuação. Entre o progresso feito com os vencedores acima citados, é triste, contudo, ver como a misoginia e o patriarcado não foram deixados de lado pelos integrantes da banca da Academia.

OSCAR 2017

Em meio a conscientes críticas às políticas excludentes e preconceituosas de Donald Trump, mais especificamente ao “Muslim Ban” (proibição da entrada de muçulmanos no território norte-americano), que rendeu não apenas o boicote do diretor iraniano Asghar Farhadi à cerimônia, mas a leitura de uma carta de protesto do mesmo por Anousheh Ansari (engenheira e primeira iraniana no espaço) ao aceitar o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro (“O Apartamento”) em seu nome, o Oscar ainda assim escolheu premiar Casey Affleck e Mel Gibson por seus projetos.

OSCAR 2017

“Sinto muito por não estar com vocês essa noite. Minha falta é em respeito às pessoas do meu país e àquelas das outras seis nações que têm sido desrespeitadas pelas desumanas Leis que impedem a entrada de imigrantes nos Estados Unidos. Dividir o mundo em categorias como “nós” e “nossos inimigos” gera medo. Um enganosa justificativa para agressão e guerra. Essas guerras evitam a democracia e os direitos humanos em países que, eles mesmos, têm sido vítimas de agressão. Cinegrafistas podem voltar suas câmeras para capturar qualidades compartilhadas e quebrar estereótipos de várias nacionalidades e religiões. Elas Criam empatia entre nós e os outros. Uma empatia que nós precisamos hoje mais do que nunca. Obrigado, em nome do Sr. Farhadi.”

Mas qual o problema? Os projetos são ruins?

A questão aqui não é a qualidade de seus respectivos projetos, mas  a falácia de igualdade de consequências sofridas por mulheres e homens. Casey Affleck foi acusado de assédio sexual por DUAS mulheres que trabalharam com ele no filme Eu Ainda Estou Aqui em 2010, isso, porém, é ignorado pela grande mídia e, consequentemente, pela maior parte do público, fazendo com que Casey seja reconhecido apenas pelo seu histórico artístico, silenciando a relevância das acusações, e mesmo da vida, dessas mulheres.

OSCAR 2017
Disappointed, but not surprised

OBS. O ator e diretor Nate Parker (The Birth of a Nation, 2016) teve seu histórico de assédio e estupro – de uma aluna da Penn State University em 1999 – revirado com o lançamento de seu filme ano passado, a ponto de não haver sequer uma matéria que não, pelo menos, citasse as acusações contra Parker, o que tornou o caso uma fonte de entretenimento ofuscante frente ao filme. Curiosamente, Parker é negro.

Todos, por outro lado, estão cientes da agressão física e psicológica de Mel Gibson contra a sua ex-namorada (também) em 2010, mas isso, assim como aconteceu com Casey Affleck e Woody Allen, entre outros, não impediu que Gibson continuasse trabalhando plenamente na indústria, vindo inclusive a dirigir o filme vencedor do Oscar por Melhor Mixagem e Melhor Edição desta edição, Até o Último Homem.

OSCAR 2017

Tais escolhas da banca da Academia demostram plenamente como o patriarcado funciona, em que homens acusados de assédio, agressão e pedofilia podem continuar trabalhando normalmente, e até alcançar o mais alto cargo do governo norte-americano, como se nada houvesse ocorrido, enquanto a maioria de suas vítimas são desacreditadas e ignoradas. A escolha de Hollywood é, infelizmente, um reflexo da sociedade em geral, que diminui os relatos de mulheres vítimas e continua a aclamar agressores.

OSCAR 2017

Apesar de a aclamação de agressores sexuais na terra que elegeu Donald Trump (convicto racista, misógino e machista) como seu presidente não ser surpresa, com certeza é chocante ver o paradoxo presente em uma banca que em 2016 premia uma atriz por sua representação de uma sobrevivente de estupro e sequestro (Brie Larson em O Quarto de Jack) e, no ano seguinte, premia um ator com um histórico de assédio sexual.

Os Academy Awards tiveram, esse ano, a excelente oportunidade de mandar uma mensagem ao presidente norte-americano e a tudo aquilo em que o mesmo – e seus apoiadores (indiretos ou não) – acreditam, mas falhou, e parece que as mudanças promovidas por Cheryl Boone Isaacs na banca só conseguiram cobrir uma parte do problema, esquecendo-se que quando uma minoria é atingida, todas são, mais cedo ou mais tarde.

O Oscar desse ano conseguiu aumentar a diversidade de seus indicados, como resposta direta a #Oscarssowhite, mas parece ter se esquecido que a verdadeira igualdade cobre todas as frentes, ignorando, assim, o peso e o significado que a vitória de um acusado de assédio sexual traz, mesmo após a apresentação ao vivo e emocionante de Lady Gaga em 2016 com a música Til It Happens To You, tratando justamente de sobreviventes de violência sexual.

Parece que a organização da premiação só consegue tratar de um problema por vez: Em 2016 tratou da misoginia e em 2017 tratou do racismo, talvez em 2018 trate dos protestos contra a construção do oleoduto (Dakota Pipeline) que ameaça terras sagradas indígenas e as águas do rio Missouri.

Oscar 2017
O olhar de Viola Davis durante a premiação diz mais do que mil palavras sobre a vitória de Casey Affleck.

É evidente que a cerimônia do Oscar desse ano foi boa, mas, claramente, poderia ter sido melhor; nos resta aguardar até o ano que vem e esperar que as propostas feitas por Cheryl Boone Isaacs sejam melhor aproveitadas pela banca frente a uma (esperada) nova leva de filmes diversos.

Outros vencedores foram:

Zootopia – Melhor Animação

Damien Chazelle ( La La Land – Cantando Estações) – Melhor Direção

Emma Stone (La La Land – Cantando Estações) – Melhor Atriz

Manchester À Beira-Mar – Melhor Roteiro Original

“City of Stars” (La La Land – Cantando Estações) – Melhor Canção Original

La La Land – Cantando Estações – Melhor Fotografia

Os Capacetes Brancos – Melhor Documentário de Curta-Metragem

OJ: Made in America – Melhor Documentário de Longa-Metragem

Animais Fantásticos e Onde Habitam – Melhor Figurino

A Chegada – Melhor Edição de Som

Esquadrão Suicida – Melhor Maquiagem e Penteado

Piper – Melhor Curta-Metragem Animado

Mogli: O Menino Lobo – Melhores Efeitos Visuais

La La Land – Cantando Estações – Melhor Design de Produção

La La Land – Cantando Estações – Melhor Trilha Sonora


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