“Mrs. Fletcher” e um novo olhar para a síndrome do ninho vazio

“Mrs. Fletcher” e um novo olhar para a síndrome do ninho vazio

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Kathryn Hahn é um rosto conhecido no cinema e televisão norte-americanos. Uma de suas últimas participações foi na incrível série “Transparent” da Amazon. onde interpreta a rabina que acaba se casando com o filho da protagonista que passa por uma transição de gênero. Mas parece que sempre faltou espaço para que ela mostrasse todo o seu potencial. 

Kathryn Hahn e Kate Hudson no filme "Como perder um homem em dez dias".
Kathryn Hahn e Kate Hudson no filme “Como perder um homem em dez dias”. (Imagem: reprodução)

Portanto, é bastante satisfatório quando atrizes como ela, que normalmente são designadas ao papel de coadjuvante, passam para o centro das produções. Esse movimento tem acontecido principalmente porque as mulheres da indústria estão se movimento em direção ao empreendimento dessas histórias.

Um exemplo é o caso da atriz Jessica Biel, que perdeu muito do estigma da “esposa gata” ao entregar uma atuação primorosa como protagonista e produtora da série “The Sinner“, da Netflix. Outro exemplo é Kathryn Hahn, responsável por produzir e estrelar a série dramática de sete episódios da HBO, “Mrs. Fletcher“, adaptada do romance best seller de mesmo nome, escrito por Tom Perrota

Tom Perrota e “Mrs. Fletcher”: as revoluções que cabem no cotidiano

Perrota é escritor, mas também tem todo um histórico de adaptações audiovisuais. Autor do livro “The Leftovers, adaptado para a TV junto com Damon Lidelof (“Watchmen“), a incrível e subestimada série, cujo enredo se fundamenta nos acontecimentos envolvendo o desaparecimento de nada mais que 2% de toda a população do planeta em um dia específico, aborda questões que vão desde o existencialismo puro ao extremo das crenças fundamentalistas.

Já “Mrs. Fletcher” é uma história que pretende olhar para um algo tão simples quanto a ida do filho único para a faculdade. Assim como em seu primeiro livro, um sucesso de vendas, e também adaptado desta vez para o cinema (“Little Children”, de 2011), Tom Perrota gosta de observar detalhes específicos do subúrbio norte-americano. 

Justin Theroux e Carrie Coon como os protagonistas de "The Leftovers".
Justin Theroux e Carrie Coon como os protagonistas de “The Leftovers”. (Imagem: divulgação)

Spoilers a seguir

Em “Mrs. Fletcher” a personagem Eve, interpretada por Kathryn Hahn, vive a “síndrome do ninho vazio”, uma sensação de pesar e solidão que os pais sentem quando os filhos saem de casa, por conta dessa grande alteração no ciclo familiar. Isso se evidencia se considerarmos o sistema patriarcal que delega praticamente toda a educação dos filhos às mães, e no caso de Eve, uma mulher divorciada cujo marido a deixa para se casar com outra mulher mais jovem, um clássico. É claro que Eve Fletcher vive em um recorte bem pequeno da população como mulher branca, completamente dentro dos padrões, e com um bom trabalho estabelecido como diretora de um centro de idosos.

No primeiro episódio sentimos uma tensão crescente na relação de Eve com seu filho Brendan, interpretado por Jackson White. Tal desconforto vem principalmente da descoberta de que o filho pode ter se transformado em um homem que não respeita as mulheres, o que vamos percebendo ao longo dos episódios seguintes como uma constatação real. Além disso, acompanhamos as tentativas de Eve para lidar com a sensação de não ser mais necessária ou relevante. Portanto, ela decide fazer algo diferente com sua vida quando se inscreve para um curso na faculdade da cidade.

No livro, trata-se de uma aula sobre assuntos de gênero, mas a série acaba sendo apenas uma aula de escrita narrativa. Em ambos os casos, a professora é a incrível Margo Fairchild, interpretada pela ativista dos direitos trans, Jen Richards. É nesse curso que Eve conhece um ex-colega de seu filho, Julian Spitzer (Owen Teague), que acaba se tornando um interesse amoroso, apesar de sua idade, e onde começam seus maiores conflitos.

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Jen Richards como Margot Fairchild em "Mrs. Fletcher"
Jen Richards como Margot Fairchild. (Imagem: reprodução)

Tanto no livro quanto na série existe esse paralelo do que se pode chamar de coming of age dos personagens de Eve e Brendan, uma mudança externa que acaba reformulando um pouco do caráter de cada um deles. É curioso ver o arco de Brendan representando o status do homem branco, cis, heterossexual e rico que vem se tornando a nêmesis de um mundo que se pretende igualitário, bem parecido com a construção de Nate Jacobs (Jacob Elordi), na também maravilhosa série “Euphoria“.

Entretanto, Brendan realmente antevê seu declínio como macho, dando um exemplo claro de como precisamos repensar a masculinidade tóxica e em como isso acaba ferindo os homens por conta de uma amadurecimento disfuncional, com pouco espaço para a vulnerabilidade e a construção emocional do indivíduo. Soma-se a isso toda uma autoeducação sexual pautada na indústria misógina pornográfica, e a relação superficial que leva com seu pai, Barry, interpretado por Josh Pais, ex-marido de Eve, que tem agora um filho autista do novo casamento, para quem oferece toda a atenção e carinho que Brendan aparentemente nunca recebeu enquanto crescia. Em dado momento, Barry comenta com o filho que para ele as coisas sempre vieram de forma fácil, e que ele não precisaria se preocupar, um ciclo vicioso.

Jackson White como Brendan Fletcher em "Mrs. Fletcher"
Jackson White como Brendan Fletcher. (Imagem: reprodução)
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O interessante da narrativa é que, fugindo do senso comum, o jovem cheio de promessas começa a fracassar nesse novo modelo social, que se desenha com pelo menos uma sensação de informação e empoderamento feminino, enquanto a mãe de meia idade e divorciada começa a florescer em sua recém descoberta independência.

De certa forma, Eve abraça a alcunha de MILF (do inglês mother I’d like to fuck, ou “mãe com quem eu gostaria de transar”), assistindo a filmes pornográficos como uma forma de redescoberta de quem ela costumava ser, além de encontrar novas companhias com experiências de vida totalmente diferentes das suas. Fora os colegas do curso e sua professora, ela passa mais tempo com sua assistente executiva Amanda Olney, interpretada por Kate Kershaw, uma mulher gorda que é interesse sexual, em uma possibilidade que vemos poucas vezes na televisão, com algumas exceções, como a icônica Dayanara Diaz (Dascha Polanko), em “Orange is the New Black”.

A primeira temporada de “Mrs. Fletcher” acabou em dezembro, e ainda seguem apenas especulações sobre uma segunda temporada. Tom Perrota afirma que aprendeu em “The Leftovers” a importância de sempre fechar uma temporada como sendo a última. Contudo, podemos criar alguma esperança a partir da afirmação do desejo de seguir contando essa história por parte da própria Kathryn Hahn.


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Autora

Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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