“I Am Not Okay With This” é mistura sem graça de tudo que já vimos antes

“I Am Not Okay With This” é mistura sem graça de tudo que já vimos antes

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Macarrão, queijo, xarope de bordo, molho de carne, presunto, milho, margarina, canela, palitos de peixe, molho de soja, geleia de uva, bolachas de água e sal e algo em um pote na geladeira”. Essa é a receita da Lasanha Louca do Liam, personagem de “I Am Not Okay With This”, que poderia muito bem ser uma descrição precisa do que é a série. A nova original da Netflix é, sem sombra de dúvidas, um emaranhado de ideias e referências que já deram certo em outras séries e filmes e que a plataforma pensou: se a fórmula funciona, por que não? Se já deu certo uma vez, a lógica é de que vá dar certo de novo, certo?

Errado. “I Am Not Okay With This” cheira a preguiça. Baseada na graphic novel de mesmo nome, escrita por Charles Forsman e lançada em 2017, a série parece uma grande cópia de “Stranger Things” + “The End of the F***ing World” + “It: A Coisa” + “Sex Education”… o fato é que poderíamos passar horas listando as similaridades com séries e filmes do gênero. Porque, no fim, “I Am Not Okay With This” não traz nada de original, de marcante, de diferente.

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Vamos ao enredo: Sydney (Sophia Lillis, de “It: A Coisa”) é uma daquelas adolescentes. Você sabe, daquelas. “Sou uma garota branca chata de 17 anos. Eu não sou especial, é o que estou tentando dizer”, ela diz sobre si mesma, logo na primeira cena da série. Nada popular na escola, sem grandes amigos (com exceção da sua melhor amiga, Dina (Sofia Bryant), por quem é secretamente apaixonada) e com uma relação familiar nada fácil, Syd é aconselhada pela sua terapeuta a começar a escrever seus pensamentos em um diário. Assim, talvez ela consiga lidar melhor com a perda do pai, que suicidou-se recentemente.

Syd (Sophia Lillis) é uma adolescente conturbada.
Syd (Sophia Lillis) é uma adolescente conturbada. (Gif: Netflix)

Clichês adolescentes, superpoderes e… só

Pois bem, tudo vai (nada) bem até a sua melhor amiga começar a namorar o atleta popular da escola, Brad (Richard Ellis), e Syd se sentir deixada de lado e com ciúmes. É aí que a adolescente percebe certas coincidências acontecendo quando ela se deixa levar pelos seus tormentos internos. O nariz de Brad sangra quando ela pensa sobre o quanto desgosta dele, olhando-o fixamente; a parede do quarto se quebra em um momento de tristeza e confusão após uma briga com a mãe; uma placa de trânsito sai voando em um surto de raiva. Syd duvida, mas os sinais são claros: ela possui o dom da telecinese. Ou seja, assim como Eleven, de “Stranger Things”, ou Carrie, do filme “Carrie, a Estranha“, ela consegue manipular objetos com a sua mente.

Ajudando-a a lidar com tais poderes está Stanley Barbe (Wyatt Oleff, também de “It: A Coisa”), o vizinho engraçadinho e levemente weirdo, que tem aquela pegada de bom moço. Stan, aqui, assume o papel de mentor e ajudante, tentando descobrir a razão por trás das habilidades de Syd e como ela pode utilizá-las.

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A narrativa faz a telespectadora mergulhar em clichês adolescentes, típicos de histórias coming of age (quando as personagens estão naquela transição de adolescente para adultos). Sem surpresas por aqui, já que isso era esperado desde o trailer da série. O problema principal é que “I Am Not Okay With This” não entrega nada além disso: temos o típico triângulo amoroso (dessa vez, um pouco mais “moderno”, com um amor lésbico não correspondido), temos drama de ensino médio, além de poderes misteriosos que afetam a personagem principal. E só.

Syd (Sophia Lillis) e Dina (Sofia Bryant) em "I Am Not Okay With This"
Syd nutre uma paixão secreta por sua melhor amiga, Dina. (Imagem: Netfllix/reprodução)

“I Am Not Okay With This” e as nuances da depressão

Com ajuda de uma metáfora sobre habilidades sobrenaturais, “I Am Not Okay With This” consegue, pelo menos, entregar uma abordagem delicada sobre depressão e ansiedade. Syd luta para se enturmar, ao mesmo tempo que sente que ninguém a ama e se reconhece como uma pessoa solitária e conturbada. Ela se afasta por medo de machucar, é paranoica e ansiosa, além de não saber lidar com o suicídio do próprio pai, que também apresentava sinais claros de depressão.

A série não se aprofunda no tema, tampouco o aborda diretamente, mas a inquietude de Syd, juntamente com a sua tendência a internalizar sua vulnerabilidade, apresentam-se como possíveis causas dos seus poderes telecinéticos. Tudo faz parte da atmosfera mais pessimista que a série se permite adotar, na qual os personagens tem uma visão de mundo mais crua e sombria.

É impossível não traçar paralelos com “The End of the F***ing World” (que compartilha do mesmo diretor da nova original Netflix), cujo personagem principal também lida com transtornos psicológicos derivados do suicídio de sua mãe. Mas, ao contrário de “I Am Not Okay With This”, a série de 2017 trazia uma visão bem mais aprofundada e sensível sobre o tema.

Ambientação perdida e sem foco

Perdida em inúmeros pontos, “I Am Not Okay With This” não apresenta sequer uma ambientação temporal consistente. A pacata cidade onde o enredo se desenrola, no interior da Pensilvânia, parece ter ficado perdida no tempo, misturando elementos dos anos 50, 80 e dos tempos modernos. Uma tentativa, talvez, de buscar o saudosismo que “Stranger Things” provocou, mas que não tem sucesso.

Outra característica da série, pescada diretamente de “The End of the F***ing World”, é a narração estilo voice over. Aqui, ela é feita apenas por Syd, que conta os acontecimentos como se tivesse escrevendo-os em seu diário, ao contrário da série mais antiga, que apresentava duas narrações simultâneas, de dois personagens diferentes. Enquanto em “The End of The F***ing World” tal narração trazia um ritmo mais rápido para a narrativa, em “I Am Not Okay With This” ela prejudica o timing das conversas e da própria história. É, sem dúvidas, um recurso que precisa de cuidado ao ser utilizado, como em “Deadpool” ou o recente “Aves de Rapina”.

I Am Not Okay With This - crítica
“Pare!”, grita o telespectador para a tela, quando as narrações começam a prejudicar o andamento da cena. (Gif: Netflix)

O clichê da melhor amiga negra em “I Am Not Okay With This”

Roz Walker (Jaz Sinclair), de “O Mundo Sombrio de Sabrina“; Bonnie Bennett (Kat Graham), de “The Vampire Diaries”; Tara Thornton (Rutina Wesley), de “True Blood”; Maria Rambeau (Lashana Lynch), de “Capitã Marvel“… a lista continua. Esses são apenas alguns exemplos de personagens que caíram no clichê da melhor amiga negra (ou black best friend trope), um clichê que volta a tona com Syd e Dina.

É frustrante e limitante que essa continue sendo a forma como escolhemos retratar mulheres e homens negros na cultura pop. Personagens sempre secundários, sem desenvolvimento, que estão ali apenas para ser o suporte emocional do personagem principal. Personagens que, “misteriosamente”, estão inseridos em uma realidade quase que completamente branca, que não são amigos de outras pessoas negras (afinal, dois personagens negros principais? Só em produtos de entretenimento especificamente voltados para o público negro!).

O clichê da melhor amiga negra se espalhou por séries, filmes e demais produtos da cultura pop.
O clichê da melhor amiga negra se espalhou por séries, filmes e demais produtos da cultura pop. (Imagem: reprodução)

Esta talvez seja a maior lição a se aprender com “I Am Not Okay With This”. Afinal, o seu maior defeito é não se destacar, não trazer nada de novo. Caso os produtores tivessem considerado colocar uma protagonista negra a frente da série, haveria, sem dúvidas, uma mudança na dinâmica, um motivo para a produção, tão similar a outras, se destacar das que lhe antecederam. É a velha história: todos adoram um bom clichê, mas tudo depende de como ele é contado. Quando alteramos as dinâmicas, colocando personagens de diferentes etnias, gêneros e orientações sexuais no papel principal, aquilo que antes era apenas o clichê pelo clichê se torna extremamente cativante e singular.

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I Am Not Okay With This - crítica
Dina (Sofia Bryant) se animaria em ser a personagem principal, pra variar. (Gif: Netflix)

Enquanto as produções continuarem se repetindo nessas escolhas, com medo de sair do que é seguro, da suposta “fórmula mágica”, continuaremos assistindo série após série, filme após filme, sem que estes se destaquem pela sua originalidade, pela coragem de dar um passo à frente e testar novas dinâmicas. Assim, continuamos com várias e várias “I Am Not Okay With This”, uma grande mistura de seja lá o que encontramos na geladeira de madrugada.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Jornalista, feminista, apaixonada por escrever e doida da problematização. Adooora dar opinião sobre tudo e criticar séries, filmes e livros é uma paixão de infância.
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