Ubik: apoie-se em Philip K. Dick para mergulhar em seguida

Ubik: apoie-se em Philip K. Dick para mergulhar em seguida

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A realidade está por um fio. Tudo o que nos cerca desmorona aos poucos e correr contra o tempo em busca de salvação parece não surtir efeito. Junte isto a cenários extravagantes e estranhíssimos, e pessoas pouco confiáveis: você terá apenas um vislumbre do que “Ubik”, livro de Philip K. Dick, se propõe a discutir. Na obra, a vida e a morte são separadas por uma trama invisível, que a qualquer momento pode ruim, colocando em xeque o que se conhece como verdade.

Quando se trata de ficção científica, Philip K. Dick é um dos nomes mais prolíficos e inventivos do gênero. Autor de obras aclamadas como “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, que deu origem ao filme “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) e “O Homem do Castelo Alto”, que virou série pela Amazon Prime, o autor cria mundos incomparáveis, cercados por discussões sociais e filosóficas muito interessantes, como é o caso de “Ubik”, relançado pela editora Aleph em 2019 com um projeto gráfico que faz jus ao surrealismo apresentado na obra, traduzida por Ludimila Hashimoto.

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Em “Ubik”, nada acontece sem motivo ou é o que parece ser. O livro foi escrito em 1969 e fala sobre o futuro de 1992 que muitos autores de ficção científica imaginavam encontrar: carros voadores que permitem viagens rápidas entre um país e outro, colonizações espaciais e muitas tecnologias diferentes que, de certa forma, existem hoje em dia (as vidtelas e vidfones de K. Dick nada mais são do que as chamadas de vídeo que têm nos salvado nestes dias de isolamento). Juntando todos estes aparatos futuristas às personas diferentes que aparecem na obra, temos no livro um universo instigante que causa estranheza pela pluralidade de linguagens e temas abordados pelo autor.

Ubik, de Philip K. Dick
Capa de “Ubik”. Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd.

As existências em Ubik e a mitologia criada por Philip K. Dick

A começar pelos personagens, Ubik nos mostra que certas pessoas possuem poderes psíquicos, como a telepatia, a leitura de pensamentos e a previsão do futuro, os chamados precogs. Levando em consideração que nem todo mundo que possui os poderes o utiliza para o bem comum, correndo-se o risco de os utilizarem para espionagem e consequente benefício próprio ou de grandes corporações, a solução para que as demais pessoas consigam viver tranquilas sem terem a mente invadida e seus segredos descobertos é a empresa Runciter e Associados, comandada por Glen Runciter, a qual contrata funcionários para impedirem que os precogs entrem em ação.

Glen constantemente consulta a esposa, Ella Runciter, sobre os rumos que deve tomar nos negócios, mas o contato entre os dois se dá de forma pouco convencional, uma vez que Ella está morta há anos. No universo de “Ubik”, quando as pessoas morrem, há a possibilidade de terem os corpos preservados no Moratório Entes Queridos, uma casa mortuária sueca. A mente delas se torna acessível por conta da meia-vida: quem morre ainda fica com um pé no mundo real, podendo ter a consciência resgatada por seus entes queridos para fins diversos, como uma chamada telefônica do além.

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De uma hora para outra, a consciência de Ella começa a sofrer interferências de um espírito adolescente, Jory. Ele será responsável por atrapalhar os planos de Runciter e de seus funcionários, criando situações um tanto inconvencionais ao longo da trama.

É interessantíssima a forma como o autor trabalha a questão da vida após a morte no livro. Valendo-se das já conhecidas convenções da ficção científica, K. Dick cria toda uma atmosfera de terror ao colocar os personagens em contato direto com quem já faleceu, numa espécie de necromancia virtual.

Uma missão e uma reviravolta

A Runciter e Associados é contratada por Stanton Mick, um grande magnata, para uma missão em Luna, uma colônia espacial que está sofrendo com a interferência dos psíquicos. Runciter então envia Joe Chip e mais onze funcionários, incluindo Pat Conley, uma personagem que tem o poder de alterar o passado, o que influencia diretamente nos acontecimentos do presente, para barrarem o que quer que esteja interferindo na mente dos habitantes de Luna.

No entanto, todos descobrem que a missão, na verdade, é uma armadilha, e eles sofrem um atentado. Runciter morre, fazendo com que o grupo tenha de voltar para a terra e, após o episódio, coisas estranhas começam a acontecer, como se o tecido da realidade que conhecem estivesse cada dia mais frágil. Têm-se então uma gigantesca reviravolta na trama: Joe e companhia precisarão descobrir o que realmente aconteceu com todos eles, vivenciando acontecimentos assombrosos e totalmente aleatórios.

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Ubik e a crítica social

Desde o início da trama, percebe-se que os personagens precisam constantemente pagar para terem acesso aos objetos e ações básicas do cotidiano, como o creme dental, o chuveiro e, até mesmo, para abrir a porta da própria casa. A visão que Philip K. Dick tinha da relação entre o capital e as pessoas dos anos 90 pode até ser um pouco exagerada olhando nos dias de hoje.

No entanto, a cada ano que passa somos obrigados a monetizar pequenos aspectos da vida, como os serviços de streaming, os diversos aplicativos e programas que nos possibilitam ter acesso aos exercícios físicos, compras, educação, e tantas outras tarefas sem as quais não podemos viver (por experiência própria, já frequentei um shopping que cobrava um valor, mesmo que ínfimo, para o banheiro ser utilizado ¯\_(ツ)_/¯).

Joe Chip é um personagem que é diretamente afetado por essa ação predatória do capitalismo: ele vive sem dinheiro e necessita constantemente da ajuda das demais pessoas para sobreviver. Pat Conley se relaciona com ele e passa a ajudá-lo financeiramente, apaziguando a situação precária em que ele se encontra.

Mas, afinal: O que é “Ubik”?

Em todo início de capítulo, temos a menção de produtos, dos mais variados tipos, cujo nome sempre é Ubik. De remédios a produtos de cabelo, passando por comidas e agências financeiras, Ubik está presente na vida das pessoas em cem por cento do tempo, sendo a única opção de consumo.

No livro, temos apenas um vislumbre do que Ubik poderia ser, um objeto muito importante para a resolução dos problemas que se dão após o atentado em Luna. Tessa B. Dick, esposa de Philip K. Dick e também escritora, garante que Ubik, no universo do livro, simboliza uma divindade onipresente, um deus que possui muitas faces e está presente até mesmo nos produtos a serem consumidos pelos humanos.

“Hoje, antes do funeral, procurei num dicionário e liguei para a biblioteca pública, mas ninguém conhecia essa palavra ou sabia de que língua é, e não está no dicionário. Não é inglês, o bibliotecário me disse. Tem uma palavra latina muito parecida: ubique. Significa…

— Em todo lugar — disse Joe.” (pág. 177)

A obra apresenta um forte teor místico, principalmente pelo fato de os humanos possuírem poderes sobrenaturais, manipulando até mesmo a morte. Há constantemente uma luta entre o bem e o mal acontecendo nos bastidores, sendo que resta aos próprios personagens, e a nós como leitores, distinguirmos quando e como eles aparecem no decorrer da resolução do conflito central.

A nova edição da Aleph

Em 2019, “Ubik” foi relançado e ganhou um projeto gráfico todo especial, assinado por Giovanna Cianelli. Com cores vivas e imagens que brincam com toda a loucura da obra, temos uma edição lindíssima, com quotes do livro nas folhas de guarda e quarta capa.

Ubik
Folha de guarda de “Ubik”. Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd.
Ubik
Folha de guarda de “Ubik”. Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd.

Ubik é um livro para qualquer pessoa?

A história possui diversas camadas e, se tratando de um enredo surreal, a escrita em diversos pontos também adquire tal característica, o que pode ser confuso se você deseja começar a conhecer o autor por esta obra. No entanto, superando a estranheza inicial deste universo, a leitura flui perfeitamente e o mistério da segunda metade do livro nos instiga a querer saber o fim o quanto antes.

Philip K. Dick nos proporciona uma obra muito original, que nos faz refletir acerca de tudo o que faz parte do que chamamos realidade: nossas crenças, valores e demais relações com a sociedade no geral. O final do livro é surpreendente e fica conosco mesmo após o término da leitura.

Apoie-se em “Ubik” e mergulhe em toda a estranheza e genialidade de Philip K. Dick!


Ubik

Philip K. Dick

Tradutora: Ludimila Hashimoto

Editora Aleph

248 páginas

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Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Autora

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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