A diversidade e as mulheres corajosas da série “O Homem do Castelo Alto”

A diversidade e as mulheres corajosas da série “O Homem do Castelo Alto”

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Inspirada no livro homônimo de Philip K. Dick, “O Homem do Castelo Alto” (“The Man in the High Castle”), conta a história de uma realidade alternativa onde os países do Eixo venceram a Segunda Guerra Mundial. Nessa realidade, os Estados Unidos foram divididos em dois, com o leste governado pelo Regime Nazista, o Reich e a costa oeste governada pelo Japão.

A série se passa no ano de 1962 dessa realidade fictícia, onde Juliana Crain (Alexa Davalos), que então vive numa São Francisco governada pelo Império japonês, recebe de sua irmã um filme misterioso que mostra os aliados saindo vitoriosos da Segunda Guerra. Após presenciar o assassinato da irmã pelos Kempeitai, a polícia militar japonesa, Juliana começa a buscar respostas sobre a origem do filme e a relação de sua irmã com ele.

Assim, ela logo descobre sobre o Homem do Castelo Alto que é quem distribui possui respostas sobre esses filmes. Juliana, porém, não é a única interessada nessa realidade alternativa – o próprio Fuhrer está trabalhando para coletar esses filmes.

Parte do elenco de "O Homem do Castelo Alto", série produzida pela Amazon, inspirada no livro de Philip K. Dick.
Parte do elenco de “O Homem do Castelo Alto”. (Foto: Amazon/reprodução)

Produzida pela Amazon, a série possui 4 temporadas, com a última tendo estreado em novembro de 2019. A produção da primeira temporada contou com Frank Spotnitz (Arquivo X) como showrunner. Após sua saída, a produção ficou a cargo de Isa Dick Hackett, filha do próprio Phillip K. Dick. Como toda boa ficção científica, a série traça paralelos desconfortantes com a nossa realidade, ao tratar de temas como ascensão do fascismo, nacionalismo, supressão de liberdades civis, censura, discriminação racial e religiosa.

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Primeiramente, “O Homem do Castelo Alto” se destaca não apenas pela premissa interessante, mas também por sua ambientação primorosa, que reimagina a estética dos Estados Unidos sob os domínios nazista e japonês, e a sociedade nessas esferas. O segundo ponto de destaque é que há personagens femininas em todas subtramas da série. O que falta é tempo para desenvolver todas elas em sua completude, além da série por vezes derrapar em certos estereótipos. Dessa maneira, discutiremos abaixo sobre as personagens femininas da obra.

Caroline Abendsen (Ann Magnuson) e Juliana Crain (Alexa Davalos) em cena da terceira temporada de "O Homem do Castelo Alto"
Caroline Abendsen (Ann Magnuson) e Juliana Crain (Alexa Davalos) em cena da terceira temporada. (Foto: Amazon/reprodução)

De certo modo, essa ressalva vale para a série como um todo: suas ideias são cativantes, mas ao longo da obra muitas delas são abandonadas ou pouco desenvolvidas. Assim, há muitos personagens e pouco tempo nas temporadas de apenas 10 episódios – problemas ligeiramente relacionados à saída de Spotnitz da produção.

Juliana Crain: a protagonista esquecida

Para uma série cujo rosto de Juliana Crain estampava a capa das temporadas, ela foi continuamente sendo esquecida à medida que o casal Smith ganhou popularidade. Juliana começa como uma mulher comum que gradualmente se torna espiã e parte fundamental da Resistência.

Ela também é uma peça fundamental para a trama – alguém que consegue navegar por entre as múltiplas realidades e se manter como uma constante entre elas, mas muitas dessas ideias não evoluem para além de suas premissas, e ela acaba virando apenas um artifício de roteiro. Se Juliana Crain está presente, as pessoas naturalmente querem se aliar a ela.

Apesar disso, a relação de Juliana com a irmã, Trudy (Conor Leslie), com o Ministro do Comércio (“Trade Minister”) Nobusuke Tagomi (Cary-Hiroyuki Tagawa) e com o casal Abendsen (Ann Magnuson e Stephen Root) são os pontos altos de sua jornada. É através desses contatos que conhecemos mais as regras das realidades alternativas e o que torna Juliana especial. A personagem também se torna uma voz fundamental para a Resistência, espalhando os filmes proibidos.

Juliana Crain se torna parte fundamental da Resistência em "O Homem do Castelo Alto".
Juliana Crain se torna parte fundamental da Resistência em “O Homem do Castelo Alto”. (Foto: Amazon/reprodução)
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Juliana é uma mulher inteligente, capaz de se auto defender (ela sabe artes marciais!), mas o roteiro nunca a permite ser autossuficiente, pois ela sempre precisa de um homem para ajudá-la. É assim em Canon City, com Joe (Luke Kleintank) e quando ela junta-se à Resistência, com Wyatt (Jason O’Mara). Inclusive, há uma insistência desnecessária do roteiro de fazê-la encontrar novos interesses românticos, enquanto sua relação com Frank (Rupert Evans) poderia ser muito mais desenvolvida. No caso de Joe, em especial, o que começa com um triângulo amoroso na primeira temporada se conclui na terceira com um arco horroroso, que se utiliza do estereótipo da femme fatale

Alexa Davalos faz o possível para transmitir as incertezas e os medos de Juliana através de emoções, para compensar o pouco diálogo que lhe é dado. Durante a segunda temporada, ela se destaca quando, por meio de diálogos, consegue manipular opiniões das mulheres no círculo social dos Smith e da Resistência – imagine o que ela teria feito nas temporadas seguintes se simplesmente tivesse mais falas… 

Helen: a esposa modelo do Reich

Para compensar a falta de desenvolvimento de Juliana, Helen Smith (Chelah Horsdal)  é uma personagem que se transforma ao longo das temporadas. Nas primeiras cenas, Helen parece apenas uma dona de casa, como aquelas modelo dos anos 50-60, mas ela logo demonstra que entende os perigos da vida no regime totalitário do Reich. Com a morte do filho Thomas (Quinn Lord), por causa da política de eugenia do Reich, Helen começa a perceber o quão deturpadas são as crenças desse regime.

Helen Smith passa a questionar as crenças do Reich.
Helen Smith passa a questionar as crenças do Reich. (Foto: Amazon/reprodução)

Helen vive seu luto ao mesmo tempo que a mídia explora de maneira doentia as ações que levaram à morte de Thomas, usando a imagem dele como herói e garoto modelo do Reich, já que ele mesmo se voluntaria para eutanásia, após descobrir que tem uma doença degenerativa.

Quando começam as especulações sobre se suas filhas também possuiriam a mesma doença, Helen faz de tudo para protegê-las do mesmo destino. A partir desse momento, Helen passa a questionar tudo o que ela e John (Rufus Sewell) acreditavam e começa a associar John a tudo o que o Reich representa. Essa mudança é interessante, porque vemos na série que as crenças do Reich foram convenientes para Helen até certo ponto, pois deram status e privilégios à sua família – até o momento da morte de Thomas.

Nicole: o perigo do relacionamento homoafetivo no Reich

Nicole Dörmer (Bella Heathcote) é uma Lebensborn, programa criado pelo Reich para gerar crianças arianas perfeitas. Inicialmente ela é apresentada apenas como um interesse romântico de Joe, que tenta convencê-lo a permanecer em Berlin seduzindo-o. No geral, Nicole é uma personagem sem motivação alguma, mas que poderia ter oferecido muito mais para a trama.

Na terceira temporada, ela é enviada aos Estados Unidos para dirigir os filmes de propaganda do Jahr Null (Ano Zero), o programa do Reich para reescrever toda a história americana antes da dominação nazista. Aqui, ela poderia representar como as mulheres passaram a conquistar espaço em ambientes de trabalho até então exclusivos de homens, mas essa reflexão nunca é sequer mencionada na série – pelo contrário, o que dá a entender é que ela conseguiu aquela posição por ser uma Lebensborn, ou seja, por ter uma origem privilegiada.

Nicole Dörmer: o perigo do relacionamento homoafetivo no Reich
Nicole Dörmer é responsável por dirigir a nova iniciativa da propaganda nazista. (Foto: Amazon/reprodução)

Nos EUA, Nicole começa um romance com a jornalista Thelma Harris (Laura Mennell). Dessa forma, a série explora um pouco os perigos de um relacionamento homoafetivo no Reich, embora houvesse material para discutir também o que significa ser jornalista dentro de um regime totalitário. Thelma é casada com um homem, que também homossexual, na tentativa de ambos terem uma segurança que os permita frequentar círculos sociais sem levantarem suspeitas.

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A jornalista Thelma Harris, com quem Nicole tem um romance na série.
A jornalista Thelma Harris, com quem Nicole tem um romance. (Foto: Amazon/reprodução)

O arco de Nicole se encerra de maneira abrupta, quando ela é presa por seu “comportamento” e enviada a um campo de reeducação – mas nunca vemos como é esse campo ou qual o destino dessa personagem. Assim, a bissexualidade de Nicole é usada mais para defini-la do que lhe acrescentar complexidade, de modo que sua história parece vazia, deixando vácuos onde temas importantes poderiam ter sido trabalhados. 

Bell: a liderança do movimento negro em “O Homem do Castelo Alto” 

A adição de Bell Mallory (Frances Turner) introduz um aspecto quase não mencionado nas temporadas anteriores. Até a quarta temporada, Lem (Rick Worthy) é o único personagem negro que vemos. Porém, diferente do Reich onde negros foram executados, no território americano dominado pelo Império japonês, a população negra ainda resiste.

É através da história de Bell que conhecemos o que aconteceu com os negros após a dominação nazista – as pessoas que não foram exterminadas acabaram em campos de concentração, onde foram esterilizadas e vivem sob uma nova forma de escravidão no império japonês.

Bell é uma mulher destemida, que não tem nada a perder, pois tudo já foi tirado dela. Ela ingressa na “Black Communist Rebellion” (BCR, Rebelião Comunista Negra), grupo que está lutando por liberdade e por seu próprio território, e que a acolheu após sua fuga do campo de concentração.

Bell: a liderança do movimento negro em "O Homem do Castelo Alto" 
Membros da BCR e Bell, a nova líder do movimento. (Foto: Amazon/reprodução)

Após o assassinato de Equiano Hampton (David Harewood), então líder da BCR, Bell assume a liderança do movimento em uma sequência quase cômica: enquanto os homens discutiam quem deveria ser o novo líder em uma clara briga de egos, Bell naturalmente assume esse papel, ao encontrar a solução estratégica para o ataque à rede de abastecimento japonesa que o grupo planejava.

Segundo Isa Dick Hackett, a personagem de Bell é levemente inspirada em Angela Davis – e de fato há semelhanças, tais como o radicalismo, o anticapitalismo (expresso apenas por Bell ser parte da BCR), o abolicionismo. Mas essa referência encontra contradição absoluta na cena horrível em que Bell prepara um jantar para receber líderes do BCR. E aqui, não há nada de Angela Davis nessa representação sexista de Bell, como personagem mulher, negra, fadada ao continuar alimentando o patriarcado.

Princesa Michiko: o empoderamento da mulher asiática

A Princesa do Império japonês (“Crown Princess”) (Mayumi Yoshida) nunca é de fato nomeada durante a série, mas especula-se que ela seria a princesa Michiko, e seu marido, o Príncipe Akihito. Em uma sociedade como a japonesa, onde espera-se que as mulheres sejam apenas boas esposas, é revigorante ver a personagem da Princesa crescer. Apesar de sua participação durante a série ser pequena, o fato de haver uma personagem mulher asiática em alguma esfera de poder, é um diferencial.

A figura da Princesa Michiko como uma personagem que busca a resolução do conflito entre a Resistência e o Império japonês, começa a ter destaque após a tentativa de assassinato do Príncipe Akihito. Como em muitas outras cenas da série que espelham episódios da nossa história, o atentado ao Príncipe seria o equivalente ao assassinato do presidente americano John Kennedy.

Princesa Michiko: o empoderamento da mulher asiática em "O Homem do Castelo Alto".
A Princesa do Império Japonês, que busca uma solução para os conflitos entre o Império e a BCR. (Foto: Amazon/reprodução)

Ela encontra um grande aliado na figura do Ministro do Comércio (“Trade Minister”) Tagomi, que desejava a resolução da Guerra Fria entre o Reich e o Império japonês, e o fim das represálias aos cidadãos de São Francisco pelos Kempeitai. Após o assassinato de Tagomi, a Princesa Michiko assume essa missão, centrada na busca de uma solução pacífica para os conflitos, entrando em choque com os militares japoneses que puniam a insurgência com violência.

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Outras mulheres asiáticas estão presentes em “O Homem do Castelo Alto”, como Sarah (Cara Mitsuko), membro da Resistência que cresceu em Manzanar, o campo de concentração americano para japoneses. Ela mostra o lado de uma mulher que não tem sua identidade reconhecida por nenhuma nação – nem por americanos ou japoneses. Infelizmente, sua complexidade nunca é explorada mais a fundo, e nos simpatizamos com ela mais pelo fato dela estar do lado da Resistência.

Sarah, membro da Resistência, ajuda a executar planos contra o Império japonês na série.
Sarah, membro da Resistência, ajuda a executar planos contra o Império japonês (Foto: Amazon/reprodução)

Muitas personagens e pouco desenvolvimento em “O Homem do Castelo Alto” 

Com personagens mulheres brancas, negras, asiáticas e LGBTQ+ em todas as subtramas da série, é notável o esforço da produção de trazer representatividade à série. Porém, além do pouco tempo para desenvolver essas personagens, as mulheres que mais recebem tempo de tela ainda não são representadas adequadamente. Se a série tivesse sido de fato cuidadosa com representatividade, poderia ter feito Wyatt Price uma mulher, dado menos interesses amorosos à Juliana e mais falas para que ela pudesse expor suas ideias, por exemplo.

“O Homem do Castelo Alto” mostra que envolver apenas uma mulher na produção não é suficiente para aumentar a representatividade feminina. Para abraçar toda a diversidade de mulheres (brancas, negras, LGBTQ+, jovens, velhas) que existe – e que essa série de fato faz o esforço louvável de colocar na tela – essa diversidade precisa ser incluída na própria produção.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Bióloga, doutora em Imunologia. Entre um paper e outro, investe seu tempo em games, livros e filmes. Fã de Neil Gaiman, Legend of Zelda, filmes do Studio Ghibli e recomenda podcasts sem ser perguntada.
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