Confissões de Uma Adolescente em Crise: amizade, música e família

Confissões de Uma Adolescente em Crise: amizade, música e família

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Lindsay Lohan marcou gerações. Fotos de sua “época dourada” até hoje são referências de beleza e moda – e não é à toa: ela coleciona produções exuberantes e fantasiosas em seu portfólio, sendo na área do cinema, da música ou da moda. E Confissões de Uma Adolescente em Crise (Confessions of a Teenage Drama Queen) com certeza é um trabalho memorável da atriz e cantora.

Dirigido por Sara Sugarman, o filme de 2004 tem muito ânimo, ritmo e entretenimento para todas as idades, além de mostrar algumas críticas – mesmo que sutis – sobre o tratamento da sociedade para com as mulheres.

A adorada drama queen de “Confissões de Uma Adolescente em Crise”

Lindsay Lohan como Lola em "Confissões de uma adolescente em crise"
Lindsay Lohan como Lola em “Confissões de uma adolescente em crise” | Imagem: divulgação/Disney

Lola, como Mary afirma querer ser chamada, é uma adolescente intensa e ímpar, fazendo e falando o que sente sem fazer rodeios. Ela se mostra íntegra já nas primeiras cenas, mas quando precisa mentir sobre a verdade a respeito de sua família, ela não pensa duas vezes – principalmente por saber que a recepção das pessoas não será tão boa.

Na nova escola, a missão de fazer novas amizades, correr atrás do sonho de ser atriz e se encaixar não parecem desafios para a protagonista de Confissões de Uma Adolescente em Crise, inclusive quando sua alma se encontra com a alma de Ella, também fã da banda Sidarthur e interpretada pela excepcional Alison Pill (de outras produções incríveis, como Scott Pilgrim Contra o Mundo e American Horror Story).

Entrando em alguns conflitos com sua mãe, a qual insiste em a chamar de Mary por ser o nome que está em sua certidão de nascimento, Lola decide tentar a autonomia e conhecer seu ídolo crush, Stu Wolf, vocalista e líder da Sidarthur. Confissões de Uma Adolescente em Crise, contudo, é um longa de 2004 que já se antecipou com muitas discussões a respeito de identidade, autoestima, machismo e sexismo.

Alison Pill e Lindsay Lohan como Ella e Lola, respectivamente
Alison Pill e Lindsay Lohan como Ella e Lola, respectivamente | Imagem: reprodução/Disney)
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Aliás, quando falamos de identidade e autoestima, esses dois conceitos estão bem entrelaçados no filme, já que tanto Lola quanto Ella tentam entender a si mesmas e é muito bom que isso esteja presente no longa, pois mostra a realidade. Por exemplo, quando estamos na adolescência temos que entender como queremos ser interpretadas. Devemos aceitar que várias coisas ficarão passíveis a leituras errôneas e divergentes às nossas, o que mexe com nossas cabeças e autoestima, às vezes até nos fazendo duvidar das próprias escolhas, ações e reações.

Outro ponto talvez irrelevante para algumas pessoas – mas que me fez narrar este tópico aqui – é quando Ella e Lola estão no trem e se olham no espelho com os cabelos “bagunçados” (veja na foto acima), quando na verdade eles estão lindos, armados e cacheados. Já é difícil o suficiente termos que lidar todo dia com um novo padrão de beleza, seja quando este quer ditar nossas vestes ou como nosso cabelo deve ficar.

Eu sou uma mulher de cabelo liso, porém levemente ondulado, e fiquei incomodada com a forma que o filme mostrou isso (mesmo sendo dirigido e protagonizado por mulheres). Nesta produção é perceptível que mesmo que a gente tente, ainda acabamos presas a alguns preceitos – e provavelmente o contexto de 2004, no qual a diretora Sara Sugarman e roteiristas estavam, praticamente o forçaram a retratar isso como algo rotineiro.

Uma nova identidade para se tornar o seu maior sonho

Lola é convidada por Carla Santini, a garota popular e rica da escola (interpretada por Megan Fox), a se enturmar com as populares. Mas mantendo sua personalidade única, recusa com elegância e permanece ao lado de Ella, já que elas têm muito mais em comum | Imagem: reprodução/Disney

Outro fator que incomoda em Confissões de uma adolescente em crise é perceber que adicionaram um par romântico para ela apenas para encher roteiro e talvez algumas lacunas da própria história. A personagem de Lola é completa sem precisar de um romancinho para acrescentar.

E isso também leva ao ponto do sexismo e do machismo presentes no filme: falha no roteiro ou não, essas questões são apenas jogadas em algumas falas de Lola, a qual se mostra muito empoderada e dona de si, mesmo que acabe sofrendo as consequências de um ambiente tóxico e nocivo, como a escola e o mundo da música – que incentiva a rivalidade feminina já falada. E com ela tendo noção e ciência do seu poder e das suas ações, Lola também perpetua esses males ao explicar à Ella suas opiniões fortes de sua mãe.

Apenas referências culturais masculinas e outros pontos negativos em “Confissões de uma Adolescente em Crise”

Ghandi, Dalai Lama e Martin Luther King presentes em algumas cenas e também falados pela personagem Lola salientam a base referencial pouco composta por mulheres em Confissões de uma adolescente em crise. Além do mais, Stu Wolf acaba se mostrando um homem superficial e totalmente o oposto daquele por quem Lola adentrou na poesia e tentou absorver as mais dolorosas letras das canções.

Além disso, a rivalidade feminina é excessivamente destacada na produção, além do bullying social e estético que as personagens Lola e Ella sofrem por conta das “Gatinhas”, a panelinha popular.

Lola e Ella com Stu Wolf | Imagem: reprodução/Disney
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Xingamentos toscos para diminuir outras mulheres da trama acabam dando poder aos homens para que estes também ataquem as com os mesmos pontos, coisa que o filme peca bastante em diversos momentos. As mulheres veem outras sendo atacadas por homens e apenas seguem o baile.

Por outro lado, um ponto positivo é que Lola acaba percebendo, mesmo já tendo mentido sobre o passado de sua família, o quão especial e única sua mãe é e como ela aguenta as pontas sendo mãe solo de três adoráveis jovens – Lola tem duas irmãs gêmeas, as quais aparecem bem pouco no filme em geral, mas são memoráveis.

O retrato da amizade e do companheirismo

Lola e Ella desenvolvem uma amizade muito bonita logo nas primeiras cenas de Confissões de uma adolescente em crise, amizade esta que vai crescendo e sendo construída conforme suas personagens também vão amadurecendo.

Ella e Lola em "Confissões de uma adolescente em crise"
Ella e Lola em “Confissões de uma adolescente em crise” | Imagem: reprodução/Disney

Quando as coisas começam a sair dos eixos, Lola se vê obrigada a desmentir o que contou à Ella sobre sua família, a deixando bem magoada e desconfiada. É reconfortante, porém, notar que a personagem se abre e se mostra vulnerável sabendo que está num círculo “perigoso” para ser ela mesma, principalmente por saber que, mesmo com os ataques, Ella não mudará o jeito que a trata e que a amizade delas vai permanecer sólida – e talvez mais forte.

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Porém, seria mais interessante se elas fossem um parzinho romântico, mas amamos ver que a construção da amizade das duas foi bem natural e recíproca, salientando as melhores partes de uma boa amizade: companheirismo, ombro para chorar, incentivos e muitas risadas.

Confissões de uma adolescente em crise erra em alguns pequenos pontos, mas toda a narrativa envolvente e bem levinha faz desse longa da Disney um clássico adolescente, além de todas as cenas bem musicais (com músicas originais de Lindsay Lohan, inclusive), figurinos bem característicos dos anos 2000 e muita simplicidade.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Autora

Redatora e revisora de textos, apaixonada por língua portuguesa, jornalista de formação e curiosa nas artes gráficas. Escreve sobre terror, sci-fi e comédia e sempre tem uma garrafinha de água na mão. LGBTQIA+ e antifascista.
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