WandaVision: primeira temporada (crítica)

WandaVision: primeira temporada (crítica)

Em seus nove episódios, WandaVision nos apresentou um drama pessoal por debaixo de camadas e camadas de entretenimento clássico, envolvido em uma atmosfera nostálgica das sitcoms estadunidenses do passado. A primeira entrada do MCU no universo do streaming ficou marcada pela premissa metalinguística de ser uma série sobre séries, uma homenagem à mídia televisiva, aliada à missão de se contar uma história sobre luto.

O engajamento na internet, através de memes e teorias surgidas a cada novo episódio, atestou o grande sucesso da empreitada. Com a aproximação de seu último capítulo. Contudo, o saldo final é de uma série de resoluções fracas em comparação aos mistérios levantados.

A história pregressa de Wanda Maximoff

Quando WandaVision foi anunciada pela primeira vez, em 2019 – passando pela conferência com o elenco na San Diego Comic Com daquele ano –, muito já vinha sendo especulado. Mesmo com sua sinopse revelada, uma sitcom estrelada por Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) à semelhança de antigos programas, como I Love Lucy e A Feiticeira, uma coisa era certa: aquela era apenas a ponta do iceberg.

Ora, tanto Wanda como Visão foram, durante muito tempo, relegados a pano de fundo no Universo Cinematográfico da Marvel; desta forma, um desenvolvimento mais cadenciado de suas personagens era um antigo desejo de muitas espectadoras, especialmente quanto à Feiticeira Escarlate, cujo histórico nos quadrinhos revelava um estrondoso potencial.

WandaVision
Cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

O retrato de Wanda no cinema, entretanto, trazia uma série de problemáticas desde 2015, quando fora introduzida junto do irmão, Pietro (Aaron Taylor-Johnson), em Vingadores – Era de Ultron: desde o whitewashing na escolha de Olsen e Johnson, atores brancos, para as personagens, notadamente conhecidas por suas origens Roma nas HQs, até o retrato como voluntários de livre e espontânea vontade da organização HYDRA, tendo em vista a perseguição nazista contra grupos Romani e Sinti (popularmente conhecidos como “ciganos”) durante a Segunda Guerra Mundial.

Com seu sotaque carregado, Wanda Maximoff foi introduzida aos cinemas pelas mãos de Joss Whedon como uma jovem séria e arredia, com um forte sentimento anti-EUA, alimentado pelo trauma da morte dos pais nas mãos de armamentos das Indústrias Stark. A partir dos filmes seguintes, dirigidos pelos irmãos Russo, boa parte destes elementos foram rejeitados em favor de um retrato mais genérico da personagem – apenas mais uma dentre as dezenas de heróis a se juntar contra Thanos (Josh Brolin) na culminância da Saga do Infinito.

Diante de todas estas questões, a notícia de que WandaVision prometia se debruçar sobre as camadas de Wanda Maximoff a partir de pastiches de programas de TV famosos dos EUA era, no mínimo, curiosa. Ora, o imaginário suburbano já aparecera algumas vezes no histórico de Wanda e Visão nos quadrinhos, como nas séries Vision and Scarlet Witch (1982) e The Vision and the Scarlet Witch (1985), nas quais o casal conciliara suas identidades heroicas com uma pacata vida doméstica em Leonia, Nova Jersey.

Mais recentemente, The Vision (2016) mostrou um Visão recolhido no subúrbio de Virginia junto da família de sintozoides que projetara para si. Entretanto, como conciliar estas referências com o contraditório histórico de Wanda no MCU, nascida em Sokovia – fictício país pós-soviético do Leste Europeu – e marcada pelas interferências dos Estados Unidos e dos Vingadores em sua vida?

Em uma entrevista à Emmy Magazine, em 2020, Elizabeth Olsen comentara brevemente que WandaVision endereçaria a relação entre o imaginário de sitcoms da trama e a vivência de Maximoff em Sokovia, estabelecendo os motivos pelos quais esta estética em específico fora escolhida para a série. Restava, então, esperar pela estreia.

De rainha do lar a rainha do caos: a jornada pelos episódios de WandaVision

Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany)
Cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Os dois primeiros episódios de WandaVision estrearam em 15 de janeiro de 2021 na plataforma Disney+ e rapidamente capturaram uma fiel audiência que, semanalmente, criou teorias, compartilhou memes e se empolgou com as aventuras de Wanda e Visão por Westview, Nova Jersey. É válido comentar que a série não atraiu a atenção por ser uma mera paródia de sitcoms de outrora, mas pela promessa de se utilizar deste formato para ocultar seus mistérios.

Desta forma, os primeiros capítulos do programa se propõem a ser um passeio televisivo pelas séries familiares de antigamente, desde programas mais clássicos da década de 50 até séries mais recentes em estilo mockumentary dos anos 2000, tudo isso intercalado com sutis momentos de perturbação daquela realidade, a lembrar as espectadoras de que há algo além daquele cotidiano de comercial de margarina, criando todo um clima de estranheza (“uncanny valley”) debaixo dos rostinhos sorridentes das protagonistas.

A série se passa três semanas após os acontecimentos de Vingadores – Ultimato (2019). Toda a atmosfera deste primeiro capítulo, recriação direta de programas, como The Dick Van Dyke Show e Papai Sabe Tudo (com direito a gravação com audiência ao vivo), nos obriga a ignorar perguntas óbvias, como o porquê de Wanda surgir como uma típica dona de casa dos anos 50 ao lado do marido, teoricamente morto em Vingadores – Guerra Infinita (2018), agora um típico pai de família. Este, e os demais episódios iniciais, estabelecem um ritmo a ser seguido e esperado e que será quebrado incontáveis vezes ao longo da série – às vezes de formas assustadoras.

O enredo desta primeira parte é centrado nas tentativas do casal, que acabara de se mudar, em se enturmar entre a vizinhança e não chamar a atenção para seus poderes, buscando viver uma rotina “normal”, com súbitas quebras de expectativa ao expor as falhas daquela realidade ideal. Estes elementos – a mistura de um humor pastelão, uma roupagem reminiscente de programas antigos aliada a passagens perturbadoras e a uma brincadeira metalinguística com as convenções de sitcoms – são o que torna a série tão intrigante em seus primeiros episódios. Trata-se de uma abordagem pouco convencional e totalmente destoante da fórmula empregada pelo MCU para apresentar suas histórias ao público.

As piadas e as homenagens às obras mais antigas não são um fim em si mesmo: elas ajudam a acentuar a atmosfera propositalmente confusa da trama e a manter a audiência intrigada para saber mais, mas surpreendentemente divertem, entretém, arrancam inesperados risos do público e ainda têm o potencial de tornar o final (quando toda a realidade do programa finalmente cair por terra) ainda mais trágico.

Assim, esta primeira fase de WandaVision eleva o nível de expectativa na medida em que traz em seu entorno uma série de mistérios e atiça o público a imaginar as possíveis respostas que a trama trará para saná-los.

Monica Rambeau (Teyonah Parris) em WandaVision
Cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Ao longo dos episódios seguintes, a sitcom de Wanda e Visão em Westview passa a dividir espaço com um núcleo de personagens que investiga a situação do lado de fora, em uma linguagem próxima a séries e filmes mais tradicionais da Marvel. Somos introduzidas à organização S.W.O.R.D. e reapresentadas a personagens já conhecidas do MCU, como Monica Rambeau, já adulta (Teyonah Parris), Darcy Lewis (Kat Dennings) e Jimmy Woo (Randall Park), respectivamente introduzidas em Capitã Marvel (2019), Thor (2011) e Homem-Formiga e Vespa (2018). Ao longo dos capítulos, o trio atua, em diferentes níveis, como representante da audiência, levantando questionamentos e criando teorias junto com as espectadoras.

Kat Dennings e Randall Park em cena de WandaVision
Kat Dennings e Randall Park em cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Através de Rambeau, ainda vislumbramos as repercussões dos acontecimentos de Ultimato. Observamos, também, potenciais figuras antagônicas e suspeitas em Agnes (Kathryn Hahn), a vizinha fofoqueira de Wanda e Visão em Westview, e em Tyler Hayward (Josh Stamberg), o diretor em exercício da S.W.O.R.D.

Talvez a presença mais inesperada da série, Pietro Maximoff surge sob a pele de Evan Peters no lugar de Aaron Taylor-Johnson, reprisando seu papel após atuar como o velocista nos filmes dos X-Men da Fox, e levantando uma série de especulações internet afora. A progressão da trama, contudo, não dá conta de trabalhar nenhuma destas personagens e subtramas de forma satisfatória: o saldo final é que boa parte das coadjuvantes parece estar “sobrando” em meio à ação.

Sobre as “famosas” expectativas não cumpridas em WandaVision

Evan Peters e Elizabeth Olsen
Evan Peters e Elizabeth Olsen em cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Aliás, muitas críticas surgiram a quem desaprovou o fechamento da série, argumentando-se que teria sido criada “expectativa demais” sobre a proposta de WandaVision. Teorias, easter eggs, Mefistos e multiversos à parte, o fato é que o retorno à uma narrativa mais convencional e mais fiel à famosa “fórmula Marvel”, em especial no último episódio, não teve o condão de acompanhar atmosfera idiossincrática e intrigante dos episódios iniciais, entregando respostas rasas e incompletas e preocupando-se muito mais em anunciar as próximas atrações do MCU do que efetivamente trazer um fechamento coeso ao drama da Feiticeira Escarlate – ou mesmo tratá-la com profundidade adequada; tampouco foi capaz de direcionar suas personagens de apoio.

A construção da narrativa nos induz a acreditar que há mistérios muito maiores a serem descortinados, apenas para que estes se revelem ser exatamente ser aquilo que pareciam o tempo inteiro. Em relação ao uso de certas personagens, as saídas soam pouco trabalhadas e apressadas, valendo-se de desculpas preguiçosas sobre a pretensão de “metalinguagem” e “easter egg” – em especial quanto à personagem de Evan Peters –, contradizendo a si mesma ao não acarretar o pay off correspondente ao peso conferido a tais coadjuvantes na narrativa.

Agnes (Kathryn Hahn) em WandaVision
Kathryn Hahn em cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Em suma, o ponto não é necessariamente sobre quem apareceu ou deixou de aparecer. Resta claro que, desde o início, WandaVision seria uma série sobre a Feiticeira Escarlate, afinal, e aparições especiais só se justificariam na medida em que não apenas estabelecessem precedentes para o MCU e empolgassem a audiência, mas sobretudo se encaixassem de forma adequada dentro do arco narrativo da série. Assim, o problema é muito mais complexo; é sobre como a narrativa em si mesma não foi capaz de sustentar o peso que levantou e os mistérios que criou.

Entender o retorno de Visão após sua morte em Guerra Infinita, ou como surgiu a realidade televisiva, são os fios condutores da primeira parte da trama. O foco principal, entretanto, é a jornada emocional trilhada por Wanda para se chegar a este ponto. Infelizmente, é no coração da premissa que a série parece falhar mais, oculta debaixo de enigmas metalinguísticos e mistérios tornados maiores do que efetivamente o são.

Em diversos momentos WandaVision joga pistas e provoca a audiência, insinuando de que há algo mais para além do que se pode ver em Westview. Ao criar altas expectativas para um mistério que não realmente se justifica, a série parece muito mais uma sofisticada embalagem estética que pouco se comunica com seu conteúdo; ou, ao menos, não é capaz de corresponder à singularidade de seus episódios iniciais.

Como já comentado anteriormente, a relação entre as sitcoms do passado e a infância de Wanda em Sokovia parece um tanto quanto rasa na medida em que as óbvias implicações políticas de uma jovem do Leste Europeu à procura de sustentação emocional em entretenimento estadunidense são completamente ignoradas, quando não dribladas ou manobradas desajeitadamente, em uma espécie de “mea culpa”.

Visão e Wanda
Visão e Wanda | Imagem: reprodução/Disney+

Ao fim do último episódio – a culminância de uma luta frenética repleta de CGI e saídas rasas –, a impressão mais forte é a de que WandaVision, afinal, se convertera naquilo que muitas espectadoras temiam: um belo embrulho para presente ocultando mais uma história solucionada sob a égide da velha “fórmula Marvel”.

Quem, afinal, é a antagonista de WandaVision?

série da Disney Plus
Cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

As antagonistas de WandaVision atuam como forças externas que obrigam Wanda a reconhecer a natureza fugaz, e até mesmo letal, da fantasia de Westview. Tais personagens só são consideradas como antagônicas na medida em que interferem no universo de Wanda, motivadas por interesses escusos ou, no mínimo, questionáveis. Justo por isso, perde-se uma oportunidade de se projetar uma história na qual não há figuras heroicas ou vilanescas, mas pessoas engajadas em atos moralmente ambíguos cujas motivações podem ser explicadas, mas não necessariamente justificadas.

Infelizmente, o programa falha em tratar suas personagens com a complexidade que merecem: ao final do último episódio, as figuras antagônicas que, até então, pareciam caminhar por um espectro moral cinzento e bastante interessante são reduzidas a meras caricaturas com motivações rasas e frases prontas.

Wanda, por sua vez, é aquela que mais sofre do tratamento reducionista, tratada como alguém que teve de realizar um “grande sacrifício” quando finalmente acorda da realidade de sonhos e liberta as pessoas a quem fez sofrer para manter tais sonhos vivos.

Ao manter a aura heroica de Wanda Maximoff e raramente tratá-la sob um prisma moralmente ambíguo, WandaVision perde a oportunidade de explorar as camadas de sua protagonista; comete, afinal, um erro muito similar já observado em incontáveis histórias da personagem nas HQs, o de torná-la unidimensional: temerosa em vilanizá-la como uma mulher descontrolada, incapaz de lidar com seus imensos poderes, a série a transforma em uma vítima das circunstâncias que não poderia ter atuado de outra forma, definida por seu sofrimento.

Feiticeira Escarlate
Imagem: reprodução/Disney+

Wanda não é a heroína da série, não de fato – e muito se poderia argumentar sobre como WandaVision é uma história contada do ponto de vista de sua vilã (outra ótima oportunidade perdida). Ao fim de seus nove episódios, a feiticeira não salva ninguém, senão (talvez) a si mesma. Em vez de tratar Wanda Maximoff como uma pessoa marcada por seus traumas, a série utiliza estes mesmos traumas para defini-la como pessoa.

A Feiticeira Escarlate do Universo Cinematográfico da Marvel é, essencialmente, uma personagem reativa, definida pelo que lhe fizeram, pelo que sofreu e pelo que está destinada a se tornar em função de seus poderes. Isto não é para dizer que WandaVision não esteja repleta de momentos verdadeiramente comoventes e intrigantes. Os diálogos com Visão, especialmente nos últimos episódios, emocionam pela simplicidade e pela entrega das personagens.

Ademais, o desejo de se dissociar do sofrimento e do luto está espalhado por toda a atmosfera da série, por mais espirituosa e bem-humorada que soe, desde a atuação afetada de Elizabeth Olsen (à semelhança de atrizes como Lucille Ball e Mary Tyler Moore) até os enigmáticos comerciais que surgem pela metade dos episódios. Infelizmente, o fechamento parece não corresponder a todo o microcosmo de emoções e subterfúgios construído até aquele momento.

Entre profecias e multiversos, o que o futuro reserva a Wanda Maximoff?

Wanda Maximoff fantasiada de Feiticeira Escarlate em cena de WandaVision
Wanda Maximoff fantasiada de Feiticeira Escarlate em cena de “WandaVision” | Imagem: reprodução/Disney+

Surgida no atual contexto pandêmico após mais de um ano sem novas entradas do MCU nos cinemas, WandaVision cativou o público com seu formato de transmissão semanal, capaz de engajar suas espectadoras em uma experiência televisiva que não se via desde o fim de Game of Thrones (2011-2019) ou de Watchmen (2019), a despeito de como tenha se encerrado. Infelizmente, contudo, o saldo final é o de uma história incapaz de fazer jus, em termos narrativos, a toda a mobilização e engajamento despendido por sua audiência.

Com o fim de sua jornada particular em Westview, Wanda Maximoff retornará em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Tendo em vista que nada se fecha, de fato, no gigantesco Universo Cinematográfico da Marvel, eternamente em construção, questiona-se: quais jornadas a Feiticeira Escarlate trilhará de agora em diante?


Revisão por Gabriela Prado.

Escrito por:

20 Textos

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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