Objetos Cortantes: mãe devastadora e filha perversa

Objetos Cortantes: mãe devastadora e filha perversa

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O livro de suspense Objetos Cortantes, de Gillian Flynn, traz três personagens femininas principais, Camille, Amma e Adora, que serão analisadas aqui, de forma individual e acerca de suas relações.

A narrativa de Objetos Cortantes tem início no momento em que a jornalista investigativa Camille Preaker, uma mulher de quase 30 anos, que saiu recentemente de uma internação psiquiátrica por automutilação, é enviada por seu chefe editor do jornal Chicago Daily Post para investigar uma série de assassinatos em sua cidade natal, Wind Gap.

As personagens principais de Objetos Cortantes

Camille, que não se comunica com sua família há pelo menos 5 anos, deixa desde o primeiro momento clara sua insatisfação em ter que retornar a cidade natal e consequentemente enfrentar o presente, a relação conturbada com a mãe, e as lembranças do passado que ainda não foram superadas, se sentir invadida pelo Outro, além da perda da irmã Marian. 

Adora Crellin, mãe de Camille, de Amma e Marian, tem uma postura bastante cordial com as pessoas da pequena cidade de Wind Gap. Ela e seu marido, pai de Amma e Marian, são herdeiros de uma fazenda de porcos que gera muitos empregos na cidade, por isso são vistos como aqueles com maior autoridade, muitas vezes, maior do que a polícia. Adora, é uma mulher de meia idade, que tenta sempre fazer valer seu desejo, suas relações são sempre relações de poder, onde ela é a Lei e a palavra final, todos aqueles que vão de encontro ao seu desejo são banidos, sejam conhecidos na cidade, ou até mesmo, o seu marido Alan, que não tem a opção de discordar de suas posturas e posicionamentos.

Amma Crellin, é filha de Adora e Allan, irmã de Camille e Marian. Está com 13 anos quando Camille retorna a Wind Gap, ela oscila entre uma postura infantilizada que tenta, em vão, ocupar o lugar da irmã morta Marian, e uma adolescente maldosa e instável com os amigos. Atentaremos principalmente a essa relação de devastação estabelecida entre Adora e as filhas.

A maternidade tóxica de Adora em Objetos Cortantes

Com relação à construção da personagem Adora, mãe de Camille, Amma e da falecida Marian, o livro traz elementos que permitem compreender o que pode ter feito com que ela tenha se tornado uma mãe que desenvolveu a Síndrome de Munchausen – no caso Munchausen Por Procuração (MPP) como pontua a enfermeira Beverly, que cuidou de Marian e, na época, havia notado em Adora sinais e sintomas que acusavam a síndrome. 

A pessoa que sofre de MPP “deixa seu filho doente para mostrar como é uma mãe gentil e atenciosa”, pontua Bevery (p. 230). A síndrome foi originalmente descrita em 1977 por Sir Roy Meadow, que a definiu como um tipo de abuso infantil em que o cuidador atrai as atenções para si mesmo ao provocar e induzir a existência de doenças nas crianças. No caso de Adora, ela provocava sintomas em Marian, sua segunda filha, já que Camille não se permitia o cuidado da mãe. Em uma passagem que mostra seu diário, Adora havia escrito: 

Decidi parar de cuidar de Camille e me concentrar em Marian. Camille nunca será uma boa paciente – ficar doente só a deixa raivosa e malvada. Ela não gosta que eu a toque. Nunca ouvi falar de tal coisa. Ela tem a maldade de Joya. Eu a odeio.

Marian vira uma boneca quando está doente, fica muito carinhosa comigo e me quer com ela o tempo todo. Adoro secar suas lágrimas. (p. 242, Objetos Cortantes)

Adora é filha de Joya e nutre forte ódio à mãe, uma relação complicada na infância, em que relata ter sido inúmeras vezes beliscada e até abandonada numa floresta descalça pela própria mãe. Camille, a narradora em primeira pessoa, não acredita muito nas suas narrativas, mas, de qualquer forma, fica claro que a infância de Adora foi conturbada e que Joya tem grande responsabilidade nisso. Por vários momentos Adora revela que Camille a faz lembrar da mãe, o que também se torna um dos elementos para entender a relação conturbada entre elas.

O pai de Adora era um pai ausente, assim como Alan, seu marido, não se fala muito sobre ele no livro. Como diz Katie em uma conversa com Camille: “Ele nunca estava por perto, e quanto estava era silencioso e… distante. Você conhece o tipo. Como Allan.” (p. 205). Pode-se dizer que a metáfora paterna estava enfraquecida enquanto representação do papel do pai, tanto o pai de Adora quanto Alan, e que Joya e Adora acabaram sofrendo as consequências desse enfraquecimento.

Amma e uma possível estrutura psíquica perversa

Amma é uma pré-adolescente de 13 anos, mas que se comporta como se tivesse 10 anos quando está em casa e 20 anos quando está na rua. É a bonequinha de Adora, mimada e excessivamente cuidada pela mãe.

As colegas da escola a acham maldosa, é a mais popular das garotas e controla o colégio: beija todos os meninos que deseja e obriga outras meninas a lhe pagarem almoço e a se humilharem em sua frente apenas por diversão.

Ela conta com duas melhores amigas, Kelsey e Jodes, que se submetem aos seus comandos para não serem humilhadas como as outras garotas, ou imaginarem que tem algum poder dentro da escola, afinal, é melhor ser amiga de Amma do que inimiga.

Amma (Eliza Scalen) na série televisiva Objetos Cortantes
Amma (Eliza Scalen) na série televisiva baseada no livro Objetos Cortantes, de Flynn| Foto: reprodução

O livro dá diversos indícios de que Amma poderia se encaixar no diagnóstico de estrutura psíquica perversa, sendo seu ápice o assassinato de três garotas. Duas eram suas colegas em Wind Gap e a terceira vítima uma menina recém conhecida em Chicago.

A perversão é compreendida na psicanálise como uma estrutura em que a lei (enquanto metáfora paterna) é reconhecida mas não é acatada, ou seja, há um desejo do sujeito em transgredir e perturbar a norma social. Amma fala que precisava machucar alguém para se satisfazer, o oposto de Camille, que se cortava. Além disso, tem uma péssima forma de lidar com rejeição e com momentos em que as coisas não são feitas como ela quer, chegando até a agredir a irmã com um cabeçada quando ela se recusa a dormir em sua companhia. 

Na perversão, ocorre alienação mas não a separação. Já que a metáfora paterna não foi bem inserida e a figura do pai não tem a força necessária para fazer a separação, o objeto de desejo da mãe é a própria criança. Como pontua Fink, um psicanalista que toma como base a obra de Lacan para sua atuação, “na perversão, é preciso fazer o Outro existir, para que a mãe/Outro materno possa ser barrada e o perverso possa emergir como algo diferente de um objeto imaginário do desejo dela.” (p. 215). Amma ocupa a posição de objeto da mãe ao deixar que Adora faça o que quiser com ela. Porém, o Outro materno, no caso, não foi barrado e nada é interessante o suficiente para desviar o olhar dessa mãe. 

A pré-adolescência é uma fase repleta de descobertas, principalmente no que diz respeito à sexualidade. Amma a explorava como algo mais relacionado ao poder do que ao prazer: ela sentia prazer em se sentir no controle da situação, em se sentir desejada e dispensar facilmente quem quer que fosse. Como observa Camille, “As ofertas sexuais de Amma pareciam uma forma de agressão. Pernas compridas ossudas, pulsos finos e uma voz aguda de bebê, tudo apontado como uma arma. Faça o que quero; talvez eu goste de você.” (p. 156)

Quanto aos cuidados excessivos da mãe, Amma entende que Adora lhe induz sintomas, mas quando indagada por Camille sobre os remédios que a mãe a obriga a tomar diz que não liga, “às vezes não tomo, só finjo, Então ambas ficamos felizes.” (p. 198)

Amma entende que se coloca no controle da situação ao deixar que Adora induza doenças e cuide dela e quando se refere a relações sexuais, já que seu comportamento diante dos garotos é de provocação e ofertas sexuais. Como ela mesma declara à Camille:

Algumas vezes, se você deixa as pessoas fazerem coisas a você, na verdade você está fazendo a elas. (…) Entende o que eu quero dizer? Se alguém quer fazer coisas esquisitas com você, e você permite, você as torna mais perturbadas. Então você tem o controle. Desde que não enlouqueça.  (p. 186, Objetos Cortantes)

Mesmo que não seja um dos personagens principais nem o foco da análise, é interessante falar brevemente sobre Alan, padrasto de Camille e pai de Marian e Amma, para pensar na relação familiar estabelecida. Alan é um homem de meia idade, quinze anos mais velho que Adora e tão rico quanto que nunca trabalhou e mal exerce a função de pai.

Camille, a filha preterida de Objetos Cortantes

Camille Preaker é uma mulher com quase 30 anos de idade que tem um histórico de internações em um hospital psiquiátrico por automutilação. Ela é formada e trabalha com jornalismo investigativo. Por vezes, no livro, Camille descreve sua relação com sua mãe como sendo uma relação tóxica, onde Adora a ataca com palavras e atinge exatamente as fraquezas expressas de Camille. 

Quando Camille retorna a sua cidade natal a trabalho, para realizar uma matéria sobre os assassinatos, Adora a adverte que não quer saber sobre o que ela faz ali, que dentro da casa dela não quer ouvir nenhuma palavra sobre os assassinatos, colocando-a como insensível e, por vezes, diz que sempre foi uma criança assim, bisbilhoteira “(…) perguntas são desestimuladas e consideradas bisbilhotice” (p. 101), mesmo quando se referia a sua intenção de conhecer ou saber sobre o pai. 

Os dias que Camille precisa ficar em sua cidade natal são marcados por uma série de lembranças. Essas lembranças podem ser referentes ao adoecimento da irmã mais nova, Marian. Ou sobre situações em que Adora a marcava como a filha rejeitada (seja abraçando Marian, ou recusando Camille com portas fechadas em seu rosto, ou mudanças do sorriso para uma cara de desapontamento). A mãe, porém, também demonstra falta de conhecimento sobre sua história de vida ou até mesmo os sobre os cortes.

Camille, representada por Amy Adams, na série Objetos Cortantes originada a partir do livro de Gillian Flynn
Camille, representada por Amy Adams na série Objetos Cortantes, originada a partir do livro de Flynn| reprodução

Em um determinado momento, após uma discussão acalorada com Adora em que esta diz a Camille que nunca a amou, Camille se lembra de um ocorrido marcante para si:

Certa vez eu estava parada em uma esquina fria de Chicago, esperando o sinal abrir, quando um cego surgiu batendo sua bengala, Qual é o cruzamento aqui, perguntou, e quando não respondi, ele se virou na minha direção e perguntou: Há alguém aqui? Eu estou aqui, falei e essas palavras pareceram chocantemente reconfortantes.

Quando entro em pânico eu as digo a mim mesma em voz alta. Eu estou aqui. Não costumo sentir que estou. Sinto como se uma rajada de vento quente, pudesse soprar em minha direção e me fazer desaparecer para sempre, nenhuma ponta de unha para trás. Alguns dias acho essa ideia reconfortante; em outros, ela me dá arrepios. (Flynn, 2015, p. 100, Objetos Cortantes)

Primeiramente, é importante destacar que ela admite uma forma de demarcar o lugar que ela é destituída, e segundo que ela deixa claro que a cidade de Chicago e os significantes que lhe são direcionados por Adora, como “frio”, “insensível”. Portanto, o que ela pode levar é justamente o seu oposto: “rajada de vento quente”.

Nesse ponto, ela também deixa expresso que os cortes são sua forma de marcar a presença de si no seu corpo e ao mesmo tempo admite que se permitir ser tomada por essa ideia de desaparecer enquanto sujeito, poderia ser reconfortante para lidar com suas relações, já que ela vive uma constante briga e angústia em delimitar seu espaço e marcar o seu corpo como forma de estar presente.

A partir desse momento, ela segue por uma série de lembranças sobre sua infância e sobre o seu pouco conhecimento de sua história particular, seu pai e sua família. “Minha sensação de falta de gravidade, acho, que deriva do fato de que sei muito pouco sobre meu passado” (p. 101); 

Quando era criança, eu me esforçava para ver uma semelhança clara entre mim e minha mãe, alguma ligação que provasse que eu saíra dela. Eu a analisava quando ela não estava olhando, roubava os retratos emoldurados do quarto dela e tentava me convencer de que tinha seus olhos. Ou talvez, não fosse algo no rosto, a curva de uma panturrilha ou a base do pescoço. Ela nunca me contou sequer como conhecera Alan, o que sabia da história deles vinha de outras pessoas. (…)

Quando criança, não lembro de dizer a Adora minha cor favorita ou que nome daria a minha filha quando crescesse. Não acho que ela tenha um dia sabido qual o meu prato favorito, e certamente nunca fui ao quarto dela de madrugada chorando por causa de pesadelos. Sempre me senti triste pela garota que eu era, porque nunca me ocorrera que minha mãe poderia me consolar. Ela nunca me disse que me amava, e eu nunca supus que sim. Ela cuidava de mim. Ela me administrava. (Flynn, 2015, p. 101, Objetos Cortantes)

Camille também descreve que a relação que Adora tem com crianças é uma relação de voracidade, mas que ela sente que existe uma inveja, um ressentimento e continua falando sobre sua relação: 

Mesmo eu, em público, era uma criança amada. Assim que seu período de luto por Marian terminou, ela desfilava comigo pela cidade, sorrindo e me provocando, me fazendo cócegas enquanto conversava com pessoas na calçada. Quando chegávamos em casa, ela partia para o quarto, como uma frase incompleta, e eu ficava sentada do lado de fora, com o rosto colado em sua porta, repassando o dia em minha cabeça, buscando pistas do que eu tinha feito para deixá-la insatisfeita. (Flynn, 2015, p. 102, Objetos Cortantes)

Nesses trechos fica claro o quão confuso era, quando criança, o tipo de relação que ela deveria ter com a mãe, uma relação marcada por amor e ódio e principalmente, por rejeição. Camille, mesmo depois de adulta, busca ser legitimada por essa mãe que devasta, rejeita e a coloca num lugar de dejeto. Adora, poder-se-ia dizer, é uma mãe que devasta.

A devastação na perspectiva psicanalítica

O termo devastação, para a psicanálise, refere-se a um fenômeno subjetivo, que aparecerá no relacionamento mãe e filha. “A devastação pode ser lida como uma dificuldade estrutural própria á inexistência do todo feminino, tal como diz Miller (2003), “uma mulher tem sempre um ponto de devastação que não há relação com a lei que possa poupá-la disso, no mesmo sentido em que Lacan dizia que a verdadeira mulher tem sempre algo de perdida” (Drummond, 2006, p. 47).

Existem dois exemplos de devastação que aparecem no relacionamento mãe e filha que podem ser compreendidos em uma exigência de amor pleno por parte da mãe ou da filha, pois “é pelo amor que uma mulher pretende remediar sua falta de substância que ela imputa ao Outro.” (Drummond, 2006, p 44). Tal qual sugere Silva (2008) sobre o caso Camille Claudel, podemos dizer que Camille Preaker também se encontra presa a essa devastação por estar ligada a impossibilidade de ser legitimada pela mãe.

O que também podemos relacionar a sua questão da automutilação por não conseguir se desvincular do lugar em que foi colocada por sua mãe, um local de fora, tido como irresponsável e problemática. A automutilação pode se estender até como um reflexo do olhar do Outro, e a repetição desse traço inscrito, pois se automutila desde os 13 anos de idade, e antes disso já escrevia palavras repetidas vezes em um caderno, como uma forma de demarcação de si.  

A automutilação reflete ao olhar do Outro, ela escreve palavras sempre direcionadas a ela de alguma forma, ou em alguma ocasião. A forma como Adora significa Camille desde criança é colocando-a no lugar de uma criança não desejada, não amada, que parece com um pai desconhecido e irresponsável, sem lugar fixo. Adora também coloca Camille no lugar de filha fria e parecida com sua mãe, que é tudo que ela desaprova, distante e má.

Camille é sempre colocada na posição da filha que deveria ter morrido “Por que não ela, por quê Marian” e no lugar de que nunca poderia ser o desejo de sua mãe. “A devastação refere-se também ao modo particular com que a linguagem emergiu em um sujeito e que, portanto, traz a referência do Outro primordial. Diz da maneira como o sujeito foi nomeado por esse Outro, da marca do significante” (Bonfim, 2014). Os cortes de Camille, então, marcam a repetição do gozo numa tentativa de lidar com o real insuportável, e consequentemente, é a marca de uma angústia profunda marcada pela devastação do feminino e também pela presença de um corpo, o dela. 

Vimos, por fim, uma relação conflituosa entre mãe e filhas retratada de forma explícita pelo livro e também pela série. Ao olharmos pela lente da psicanálise, podemos nos aprofundar em possíveis estruturas psíquicas que nos possibilitam uma maior compreensão dessa relação complicada, que tem grande importância em sua representação já que não é um assunto tão abordado na cultura pop.   

Adora (Patricia Clarkson), Camille (Amy Adams) e Amma (Eliza Scanlen) em Objetos Cortantes
Adora (Patricia Clarkson), Camille (Amy Adams) e Amma (Eliza Scanlen) em Objetos Cortantes | Foto: reprodução
Referências
  • FINK, Bruce. Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana. Capítulo 9. Perversão. Zahar; Edição: 1ª (2018).
  • FLYNN, Gillian. Objetos Cortantes. 1. ed. Rio de Janeiro. Intrinseca. (2015).
  • SILVA, A. M. da . A devastação e o feminino. Psychê, 12(22), 27-34. ( 2008)
  • BONFIM, Flavia Gaze. Amor-Ódio: devastação na relação mãe e filha. Fractal: Revista de Psicologia, v. 26, n. 1, p. 245-252, (2014)
  • MULLER, Débora Dias; CASTELO, Regina. A falta de substância na relação mãe e filha. Estudos de Psicanálise, n. 43, p. 51-56, (2015)
  • SOARES, Jean-Claude; LIGEIRO, Vívian Martins. Camille Claudel—Angústia e Devastação. Psicanálise & Barroco em Revista, v. 5, n. 2, (2019)

Texto escrito por mim em colaboração com Natália Cristina Ribeiro Pacheco. Revisão e colagem em destaque por Isabelle Simões. 


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Written by:

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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