Hadestown: o mito de Orfeu e Eurídice por Anaïs Mitchell

Hadestown: o mito de Orfeu e Eurídice por Anaïs Mitchell

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Há séculos, a mitologia grega serve de inspiração para histórias dos mais variados tipos. No cinema, na literatura, na televisão, nas histórias em quadrinhos… Para onde quer que a gente olhe, é possível encontrar um número considerável de releituras de mitos gregos. No mundo dos musicais, a adaptação mais conhecida é My Fair Lady, de George Bernard Shaw, baseada na história de Pigmaleão. Porém, recentemente, foi a vez de Orfeu e Eurídice chegarem aos palcos da Broadway com Hadestown: The Myth, The Musical.

Vencedor do prêmio de melhor musical no Tony de 2019, entre sete outros troféus, Hadestown tem música, letra e libreto de Anaïs Mitchell. Contudo, antes de ser um musical, Hadestown foi um álbum conceitual idealizado pela própria Mitchell. A cantora e compositora folk também deu voz à personagem Eurídice no álbum lançado em 2010.

Capa do álbum conceitual Hadestown | Imagem: divulgação

O álbum também conta Justin Vernon (da banda Bon Iver) no papel de Orfeu, Ben Knox Miller (The Low Anthem) como Hermes, Greg Brown como Hades, Ani DiFranco como Perséfone e as Haden Triplets como as três parcas.

Orfeu e Eurídice: da Grécia antiga ao século 21

Na mitologia grega, Orfeu é filho do deus Apolo e da musa Calíope. Capaz de encantar a todos com a música de sua lira, ele se apaixona pela humana Eurídice. Ambos se casam, mas a história de amor do casal está fadada à tragédia. Pouco tempo depois do casamento, Eurídice é picada por uma cobra e morre.

Embora os detalhes mudem dependendo de quem conta a história, em todas as versões Orfeu vai até o Hades em busca de sua amada. Senhor dos mortos, o deus Hades se sensibiliza com a triste música de Orfeu e permite que ele leve Eurídice de volta para a terra.

Porém, o acordo tem uma condição: Orfeu deve percorrer o caminho para fora do Hades sem olhar para trás, confiando que Eurídice o seguirá. Entretanto, o músico não consegue resistir à tentação e acaba olhando, condenando Eurídice a uma segunda morte. Angustiado, ele pede aos deuses para morrer.

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Anaïs Mitchell
Anaïs Mitchell | Imagem: divulgação

Na versão de Mitchell, Eurídice é uma jovem faminta que é atraída pelas promessas do rico senhor de Hadestown. A sedução é cantada na música Hey, Little Songbird, um dueto de Mitchell e Brown.

[Hades]
Hey, little songbird, cat got your tongue?
Always a pity for one so pretty and young
When poverty comes to clip your wings
And knock the wind right out of your lungs
Hey, nobody sings on empty
[Eurídice]
Strange is the call of this strange man
I want to fly down and feed at his hand
I want a nice soft place to land
I want to lie down forever
[Hades]
Ei, passarinho, o gato comeu sua língua?
É sempre uma pena para alguém tão bonita e jovem
Quando a pobreza lhe corta as asas
E arranca o ar dos seus pulmões
Ninguém canta de barriga vazia
[Eurídice]
Estranho é o chamado deste homem estranho
Eu quero voar para baixo e comer da mão dele
Eu quero um lugar macio para pousar
Eu quero ficar deitada para sempre
Justin Vernon
Justin Vernon | Imagem: divulgação
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Apesar dos avisos de Orfeu e Hermes, Eurídice aceita o convite de Hades. Porém, em Hadestown, a jovem encontra um outro tipo de miséria: um lugar escuro e sem alegrias em que as pessoas são obrigadas a trabalhar o dia inteiro. Orfeu parte para resgatá-la, mas o fim da história é igualmente trágico, descrito na música Doubt Comes In.

A história de Hades e Perséfone

Hades e Perséfone são dois personagens centrais para o mito de Orfeu e Eurídice. Filha de Deméter e Zeus, Perséfone foi raptada por Hades e enganada para comer uma romã do mundo dos mortos. A fruta fez com que ela ficasse presa para sempre a Hades. Por um terço do ano, a deusa era obrigada a permanecer no submundo. Nos outros meses, podia ir ao Olimpo visitar sua mãe – ou, pelo menos, era assim que os gregos antigos contavam a história.

Recentemente, o mito sobre a origem das estações do ano tem sido abordado de novas maneiras pelos amantes da mitologia grega. Um bom exemplo é o jogo Hades, lançado em 2020, no qual Perséfone fugiu para o mundo dos mortos por estar cansada da vida no Olimpo.

Ani DiFranco
Ani DiFranco | Imagem: divulgação

O álbum Hadestown fica um pouco no meio do caminho nesse sentido. Não fica claro para o ouvinte qual é exatamente a dinâmica da relação entre Perséfone e Hades. Embora ainda seja obrigada a retornar para Hadestown nos meses de inverno, Perséfone ocupa um papel importante na sociedade do submundo.

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Na música Our Lady of the Underground, a rainha de Hadestown se apresenta como alguém capaz de oferecer aos trabalhadores os prazeres que eles abandonaram. Em How Long?, é ela a grande responsável por convencer Hades a permitir que Orfeu e Eurídice voltem para casa.

Todavia, no musical da Broadway, a relação entre Perséfone e Hades é marcada por uma violência inquestionável. Em uma fala adicionada à música Way Down Hadestown, Perséfone reclama, antes de seu verso sobre voltar para Hadestown, que “ainda não se passaram seis meses”. Em outro ponto, Hades diz que a melhor forma de garantir que uma mulher permanecerá ao seu lado é prendendo-a com uma coleira de diamantes.

Por outro lado, a peça também explicita o interesse sexual de Hade por Eurídice, manifestado de maneira agressiva não só para a protagonista, mas também para Perséfone: em mais um verso inédito do musical, Hades diz a Perséfone que encontrará outra que saiba apreciar os confortos de uma gaiola de ouro. A peça, portanto, se aproxima bem mais da versão original do mito do que o álbum conceitual, que deixa ambíguo se prefere a história clássica ou uma reinterpretação moderna.

Perséfone na Broadway
Amber Gray como Perséfone na Broadway | Imagem: divulgação

O muro e a política do mundo real em Hadestown

Quando Hadestown: The Myth, The Musical chegou à Broadway, muitas foram as críticas que apontaram a peça como uma obra anti-Trump. A principal razão para isso foi a música Why We Build the Wall, cantada por Hades e pelos trabalhadores de Hadestown:

[Hades]
Why do we build the wall?
My children, my children
Why do we build the wall?
[Coro]
Why do we build the wall?
We build the wall to keep us free
That’s why we build the wall
We build the wall to keep us free
[Hades]
Por que construímos o muro?
Meus filhos, meus filhos
Por que construímos o muro?
[Coro]
Por que construímos o muro?
Nós construímos o muro para nos mantermos livres
É por isso que construímos o muro
Construímos o muro para nos mantermos livres

O muro é construído, em parte, por pessoas que, assim como Eurídice, abandonaram a terra acreditando que encontrariam uma vida de sonho em Hadestown. Em Way Down Hadestown, Orfeu e Hermes tentam alertar a jovem a respeito da vida de trabalho quase escravo que aguarda as pessoas que sobem no trem junto com Hades. Contudo, a promessa de uma boa vida é mais forte.

O muro de Hadestown é uma versão do rio Estige da mitologia grega, que apenas os mortos podem atravessar. No álbum e no musical, ele é um “rio de pedras” construído pela mão de obra recrutada por Hades. Seu principal propósito é impedir a passagem de todos os que desejam entrar em Hadestown sem permissão para fugir da pobreza.

É fato que a música ganhou todo um novo sopro de vida no governo de Donald Trump, encerrado em janeiro de 2021. Afinal, o ex-presidente americano se elegeu tendo como principal plataforma construir um muro separando os Estados Unidos do México.

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Cena de Why We Build the Wall
O elenco da Broadway canta Why We Build the Wall. (Imagem: Divulgação)

Contudo, as primeiras barreiras físicas entre os dois países começaram a ser erguidas em 1994. Quando Trump tomou posse, em 2017, mais de mil quilômetros de cerca já haviam sido instalados. Em 2010, quando o álbum de Mitchell foi lançado, o muro já estava lá. Em pleno governo Obama.

A obra de Mitchell dialoga também com outro fato político e econômico de grande importância dos últimos anos: a crise de 2008. O estouro da bolha imobiliária americana e a falência do banco Lehman Brothers causaram uma recessão de proporções não vistas desde a Grande Depressão. Ainda hoje, em 2021, o mundo não se recuperou totalmente dos efeitos da crise. Em 2010, época o lançamento do álbum, o desemprego e a miséria causados por ela estavam fresquinhos na memória coletiva.

A adaptação de Hadestown para os palcos

O período da Grande Depressão é uma grande fonte de inspiração para o musical da Broadway. A crise teve início nos Estados Unidos em outubro de 1929, quando a bolsa de Nova York quebrou devido a uma rápida expansão seguida de uma recessão.

A crise se espalhou pelo mundo e, nos Estados Unidos, o desemprego chegou a quase 25%. A época é retratada em clássicos do cinema como As Vinhas da Ira (1940) e A Noite dos Desesperados (1969) – este último sobre as famosas maratonas de dança, que ofereciam prêmios em dinheiro ou até mesmo em comida para os competidores sem opções.

Como forma de estabelecer um cenário de extrema pobreza, o figurino de Hadestown na Broadway tem como principal inspiração a forma como a classe trabalhadora americana se vestia no fim dos anos 20. Os suspensórios e a camisa de gola portuguesa de Orfeu, bem como o sobretudo xadrez puído de Eurídice, trazem à memória um período de crise econômica, assim como o final dos anos 2010.

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Ao mesmo tempo, as roupas criam um distanciamento entre o público e a trama da peça. Ao situar a história em um período relativamente distante, a peça permite uma atmosfera fantástica que dificilmente seria alcançada se os personagens seguissem a moda de 2008.

Hadestown na Broadway
Eva Noblezada, André De Shields e Reeve Carney na Broadway | Imagem: divulgação

Porém, nem todas as versões de Hadestown têm essa marcação temporal. Antes de ir para a Broadway, Hadestown foi adaptado para um musical no chamado circuito off-Broadway, lar de produções menores e alternativas. Nessa primeira versão para os palcos, o figurino era mais simples e reminiscente da década de 50. Orfeu se veste de maneira próxima a James Dean, e a saia rodada de Eurídice é típica do período pós-Segunda Guerra.

Embora tenham um ar boêmio que Orfeu, como músico, certamente aprovaria, as roupas dos anos 50 não funcionam tão bem. Afinal, a época foi de prosperidade econômica nos Estados Unidos, tanto que foi quando surgiu a noção do “sonho americano” como o conhecemos hoje.

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Hadestown off-Broadway
Damon Daunno e Nabiyah Be como Orfeu e Eurídice na versão off-Broadway de Hadestown | Imagem: divulgação

O musical off-Broadway estreou em 2016. Três anos depois, a primeira apresentação na Broadway foi realizada no teatro Walter Kerr. Hadestown: The Myth, The Musical é dirigido por Rachel Chavkin e tem no elenco principal Reeve Carney (Orfeu), Eva Noblezada (Eurídice), Patrick Page (Hades), Amber Gray (Perséfone) e André De Shields (Hermes).

Nos nove anos que separam o álbum dos palcos da Broadway, Mitchell acrescentou novas músicas e falas à sua versão do mito de Orfeu e Eurídice. As alterações adicionaram camadas à história e foram responsáveis por grandes números, como Chant, em que vemos um embate entre Hades e Perséfone.

Infelizmente, os espetáculos da Broadway estão suspensos devido à pandemia de COVID-19 e uma versão brasileira de Hadestown não está nem perto da linha do horizonte. Mas, felizmente, para quem quer conferir a beleza das composições de Anaïs Mitchell, tanto a gravação do musical quanto o álbum de 2010 estão disponíveis no Spotify.


Revisão por Gabriela Prado.


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Tradutora, bacharel em Jornalismo e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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