Três livros infantis que mudaram minha vida

Três livros infantis que mudaram minha vida

Eu posso ter muitas reclamações à minha família, mas nenhuma delas será a escassez de estímulo intelectual. Sendo a filha caçula, convivi com a diferença de 15 e 13 anos entre minhas irmãs mais velhas e também com suas rotinas escolares; então eu sempre tive livros, apostilas e revistas ao redor do meu crescimento, além da minha mãe com suas leituras diárias da Bíblia. Meu pai me visita quinzenalmente trazendo dezenas de gibis – literalmente – da Turma da Mônica e foi com as aventuras da Mônica, Cascão, Magali e Chico Bento (este último, já adulta, notei que sempre foi meu favorito) me alfabetizei.

Cresci um pouco e aposentei minhas leituras da Turma da Mônica; a pré-adolescente em mim conheceu as revistas teens: Capricho, TodaTeen, Atrevida e a minha favorita, Atrevidinha, emolduraram minha adolescência por anos. Foi mais ou menos nessa época que comecei a descobrir a minha personalidade e saborear o prazer de ler histórias sendo escritas.

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Contudo, ainda que eu tenha tido um contato desde cedo com a leitura, levaram alguns anos para eu começar a ler romances. Se eu bem me recordo, foi com 12 ou 13 anos que eu li meu primeiro livro: não sei ao certo se foi As Crônicas de Nárnia (C.S. Lewis) ou A Rainha da Fofoca (Meg Cabot). De qualquer maneira, na minha primeira e segunda infância e pré-adolescência, não tive contato com tantos livros.

Quero dizer, talvez não por livre e espontânea vontade… afinal, eu estava na escola e ali eu tinha minhas leituras obrigatórias dos livros paradidáticos. Na minha escola líamos um livro por bimestre e eu sempre lia dias antes, afinal, não entendia o que eram aqueles livros e do que se tratava – pelo menos era esse pensamento que eu tinha. Ainda assim, no 5º ano tive contato com algumas leituras que hoje eu encaro que tenham sido o pontapé para uma possível mudança de vida. Falarei a seguir sobre elas.

O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry

Acho que uma leitura clássica e que teremos em comum com muitas pessoas é O Pequeno Príncipe (Antoine Saint-Exupéry). Naquela época eu não fui capaz de entender muita coisa sobre a obra, mas hoje, mais de 10 anos depois daquele primeiro contato, entendo a importância dessa leitura, principalmente no que cerne o valor da nossa autonomia, da preciosidade de nossas amizades e a dor que eu senti quando eu vi o pequeno príncipe incompreendido com as interpretações de seu desenho. Hoje, eu sei que estava me reconhecendo na pequena violência de ser silenciada por ser criança.

Nós, adultos, temos a constante infelicidade de subestimar as crianças, suas ideias e sentimentos. É incansável assumirmos a ideia de que “as crianças não sabem nada da vida”, afinal, elas existem no mundo há muito pouco tempo. Além disso, desconsideramos as experiências que elas carregam consigo e suas interpretações sobre a dinâmica da vida – e sim, elas têm.

Ilustração do livro “O Pequeno Príncipe” | divulgação

A minha versão de 10 anos ficou muito chateada ao ver que, além de não enxergarem o que o Pequeno Príncipe havia desenhado (sim, foi muito fácil assumir que aquele era um chapéu, mas mais fácil que isso), foi ignorar suas explicações sobre. Estavam não só ignorando o que uma criança tinha a falar, como fizeram pouco caso de sua exposição sobre sua subjetividade.

Na terapia cheguei a comentar sobre situações similares a essa: diversos momentos eu tinha o que falar, o que opinar, e poderia, sim, expor o que pensava sobre. Mas eu era silenciada. Ou seja, por ser apenas uma criança, o que eu poderia acrescentar na cabeça daqueles adultos?

Crianças na escuridão, de Júlio Emílio Braz

Crédito: @powerfulket

Essa foi outra leitura a qual me foi muito dolorosa. Enquanto O Pequeno Príncipe foi selecionado para ser a primeira leitura do ano, essa foi eleita para ser a última. Na obra do autor francês, nós exploramos a inocência e a poesia dentro do ouvir e da amizade; com Crianças na escuridão eu tive meu primeiro contato com uma realidade totalmente diferente da minha.

Não venho de uma família rica, longe disso, na verdade; mas eu fui bem privilegiada em crescer com estabilidade, conforto e amparo. Já o contexto apresentado na história demonstra uma vertente da sociedade que a minha mãe sempre me protegeu de ver: crianças em situação de rua, marginalizadas e expostas à criminalidade.

Rolinha tinha seis anos quando foi abandonada pela mãe na Praça da Sé, em São Paulo. O livro é de 1991 e expõe o mundo que aquela criança teria de ter como seu. A seguir, ela encontra um grupo de sete meninas, liderado por Doca – a considera mãe do grupo, que não tem sequer 15 anos – e lá ela precisa aprender a roubar para comer e convencer a si mesma a encontrar algum conforto nas caixas de papelão ao dormir. O livro é forte, cru e bem realista, sendo capaz de expor essa dura faceta da nossa sociedade de uma maneira que eu, também criança, fiquei dolorida e reflexiva.

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Eu lembro que a cena que mais me incomodou foi uma em que Doca manteve relações sexuais com outro menino, também da mesma idade e líder de outro grupo de meninos que moravam na rua. O incômodo era por, além de eu ser uma criança que lia o sexo como um tabu grave, eu tinha a consciência de que eles ali eram novos demais para lidar com isso. Na minha mente só martelava: “isso é errado, isso é errado, isso é errado”, “vocês são novos demais, vocês são novos demais. Vocês. São. Novos. Demais”.

Ao passo que, da minha maneira, eu entendia também que talvez não tivessem completado seus desenvolvimentos e a idade terrena ainda fosse pouca mesmo. Mas o mundo em que aqueles personagens estavam inseridos pouco ligava para isso. E aquela prática, mesmo que inapropriada, era real e compatível na conjuntura que viviam.

Eles não deveriam conhecer o sexo tão jovens, da mesma maneira que também não podiam saber como era passar fome, frio e ter medo, além de estarem imersos na violência. Eles não mereciam viver ali, mas estavam – e não havia Estado, superiores ou família que pudessem lhes proteger.

Portanto, assim que eu concluí a leitura, me senti machucada. A literatura consegue penetrar em nossos sentimentos de uma maneira avassaladora e eu acredito que esse livro foi o que me promoveu, pela primeira vez, não somente uma ressaca literária, mas também uma ressaca moral.

De uma maneira possível para a minha maturidade de dez anos, eu fiquei abalada ao entender que aquela violência existia. E me doía ter consciência de que eu, sozinha, talvez não pudesse mudar nada daquilo.

Onde andará Alegria?, de Miriam Portela

Crédito: @powerfulket

Onde Andará Alegria? foi o primeiro livro que eu devorei na vida, sem ser um almanaque de histórias em quadrinho. Era um livro bem curtinho, com muitas ilustrações coloridas e uma história dolorosamente doce.

A história girava em torno de um casal, Téo e Laís, que havia se mudado para a vizinhança e acaba conhecendo uma criança de seis anos chamada Alegria; era um casal solitário e Téo era ainda mais introspectivo. Com o contato com a criança, ele começa a se sentir vivo e aprendeu a interpretar o mundo de uma maneira mais colorida e imaginativa.

Até que chegou o dia em que Alegria tinha que se mudar e a vida de Téo despenca; ele não conseguia imaginar, mas havia se apegado – e muito – à criança. O restante do livro percorreu a busca desesperada dele pela garotinha alta dos joelhos machucados. A história se encerra com um pedido de, quem encontrasse qualquer notícia da Alegria, que enviassem uma carta a ele sobre para um endereço fictício escrito na última página.

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Enquanto o personagem ali dentro do livro ficava desesperado por ela, eu ficava angustiada do lado de fora da história. Por mais que eu estranhasse a estrutura daquele endereço – aquilo ali não parecia um nome de rua ou estado -, eu queria buscar pela Alegria e enviar quaisquer mensagens para o Téo.

Até que eu reli algumas páginas e senti um desconforto absurdo em saber que um homem adulto, mesmo que no mundo da ficção, estivesse obcecado por uma criança. Por mais que a relação fosse exclusivamente amistosa – e a história tenha sido escrita por uma mulher -, causou-me até que ojeriza.

Muito provavelmente, eu perdi a inocência que eu tinha quando li esse livro pela primeira vez. E a visão de mundo que eu tenho hoje é bem, bem mais cruel.

Crédito: @powerfulket

Eu comecei a trabalhar com o ensino infantil tem um pouco mais de um ano. Minhas crianças têm entre três e cinco anos e por mais novinhas que elas sejam, e eu tenha 23 anos, faculdade e um divórcio nas costas, eu digo, sem dúvida alguma, que aprendo muito mais com elas do que elas comigo.

É interessante, confortável e extremamente sábio conversar com as crianças, porque o mundo delas é isento do que nubla nossa perspectiva da realidade. As crianças choram, esperneiam e podem ser estressantes, mas nada disso chega aos pés da maravilha que é enxergar cada passo de seus desenvolvimentos, de cada novidade aprendida e como é incrível entender o mundo por suas perspectivas.


Revisão por Gabriela Prado e Isabelle Simões.

Autora:

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Ket tem 23 anos, é formada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa, pela UFAM. Nasceu e criou-se em Manaus, onde ainda mora. Não é capaz de conceber uma realidade em que as mulheres não sejam livres, uma vez que sua vida inteira viveu em um lar matriarcal. Gosta de histórias tristes, é fascinada pela cultura Sul-coreana e chora com animes.
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