Mitski: The Land (2025) – quando a arte de Mitski alcançou os cinemas

Mitski: The Land (2025) – quando a arte de Mitski alcançou os cinemas

Em 2023, ano seguinte a Laurel Hell, Mistki lançava ao mundo seu sétimo álbum de estúdio, The Land Is Inhospitable and So Are We. Com visuais sombrios e cinematográficos, além das sonoridades que brincam com um country soturno e nostálgico junto de outras sonoridades já características da artista, a obra foi muito abraçada pelos fãs, garantiu elogios da crítica e até mesmo se tornou viral no Tik Tok através da música My Love Mine All Mine.

A visibilidade do álbum não é por acaso. Mitski, acertadamente, parece ter optado por explorar ainda mais profundamente assuntos e referências já abordados em trabalhos anteriores, fazendo de seu sétimo trabalho um ponto de contato entre suas maiores qualidades como artista. 

Pôster oficial do filme Mitski: The Land (2025)
Pôster oficial do filme Mitski: The Land (2025) | Fonte: Mitskifilm.com

Seu mencionado trabalho anterior, Laurel Hell, já trazia em sua estética e conteúdo o gosto da artista por cinema, característica muito evidente na música e clipe Working for the Knife, principalmente. O nome de seu álbum mais aclamado até então, Be the Cowboy, também já indicava o interesse da cantora pelo western. Em uma entrevista, ela declarou que essa imagem do cowboy lhe remete a coragem e ousadia necessárias para sobreviver, sem ter que pedir desculpas por existir.

Essas tendências e muitas outras já preconizadas ganham uma máxima intensidade em The Land Is Inhospitable and So Are We. A turnê chamou a atenção principalmente pelas performances ao mesmo tempo catárticas, intensas e intimistas da cantora. Para eternizar essa experiência, o concerto ganhou uma versão em filme e foi exibido exclusivamente nos cinemas na última quarta-feira, dia 22 de outubro. 

O filme Mitski The Land 

Mais que apenas um registro de um concerto da tour The Land no Fox Theatre em Atlanta, o longa homônimo dirigido por Grant James demonstra um esforço em dialogar e potencializar a proposta estética do próprio álbum.

Semelhante ao público do cinema, o público do show captado está sentado, em silêncio, olhando passivamente para um ponto à sua frente: um palco pequeno. Mitski se posiciona no centro redondo desse espaço, emulando uma experiência parecida com um teatro onde ela é a única atriz entregando uma performance que dramatiza e condensa a vida à técnica artística.

Assim, a cantora passa os 78 minutos do filme-concerto em pleno movimento, cantando e dançando, cumprindo a tripla função de cantora, dançarina e atriz. A impressão passada por seus movimentos é de uma artista que atingiu a maturidade de integrar as várias possibilidades de seu fazer artístico, deixando a música falar através de seu corpo, não somente através de sua voz

Mitski em um dos concertos da tour The Land
Mitski em um dos concertos da tour The Land | Fonte: reprodução

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A câmera e a montagem do longa se preocupa em contemplar todas as nuances possíveis de sua performance, intercalando imagens em preto e branco (técnica já bem explorada nos visuais do álbum), valorizando os borrões de movimentos e pontualmente usando o close-up nas expressões faciais da cantora. Esses pequenos pedaços de imagens estáticas ou em slow motion integram a simbologia dos cacos que também fazem parte da estética de The Land Is Inhospitable and So Are We

Essa impressão de lugares e tempos fragmentados perpassa também outros elementos da performance e conteúdo das músicas. A história contada pelo álbum é de um mundo onde os seres humanos são um pedaço de terra (inóspita) em si mesmos. Nas fronteiras entre essas terras – ou seja, no contato entre pessoas-terras – que os conflitos acontecem, as imagens evocadas por Mitski fortalecem a materialidade terrena desses conflitos.

Na versão de estúdio de I’m Your Man, o lado amargo das relações é embalado por um coral de bichos. Buffalo Replaced faz referência a mosquitos, vagalumes e búfalos para falar de solidão. Memórias são neve derretendo em When Memories Snow

Já o amor, para o eu-lírico de Mitski, é algo vertical, de cima para baixo, divino e superior. Contrariamente aos outros sentimentos e experiências humanas, as metáforas e imagens criadas para o amor são de paraíso (na música Heaven), estrelas (Star) e a luz da lua (My Love Mine All Mine). Nas terras arrasadas do existir, Mitski defende o amor como algo redentor.

Mitski durante um dos concertos da tour The Land
Mitski durante um dos concertos da tour The Land | Fonte: reprodução

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Esse com certeza foi o tema e premissa escolhidos para o filme-concerto. As luzes, vindas de cima para baixo, fazem participação ativa na apresentação, hora fugindo do alcance da cantora, hora banhando-a e até mesmo dançando com ela. Essa intenção fica ainda mais clara quando, ao entoar a primeira linha de Heaven, Mitski aponta o braço para o teatro, referenciando aquele ambiente ao ambiente mencionado na letra: “Todo o nosso amor, enchendo todo o nosso quarto”.

Nesse lugar de amor e luz criado pela ambientação do filme, temos acesso privilegiado a flashes dos rostos dos espectadores durante a apresentação, bem como a breves entrevistas aos fãs carinhosos, contando suas relações pessoais com o trabalho de Mitski, enfatizando a força da história contada pelo álbum e continuada pelo longa-metragem. 

Mais uma vez relembrando o álbum anterior, Mitski desdobra em The Land mais um paradigma levantado pela música Working For the Knife, que abre com os versos:

“Eu choro no início de todo filme / Acho que é porque eu queria estar fazendo coisas também / […] Eu costumava pensar que eu contaria histórias / Mas ninguém se importou com as histórias que eu tinha”.

Agora, ela finalmente parece ter encontrado seu lado caubói, tomando a coragem para contar uma história “sem mocinhos” para exibir nas telas de cinema.

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Como uma última boa notícia, as cenas pós-créditos dão a entender que há mais um álbum vindo por aí no inverno do hemisfério norte, ou seja, entre dezembro deste ano e março de 2026. Seguimos na torcida! 

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Criança dos anos 2000, filha do cerrado mato-grossense, historiadora, pesquisadora da cultura e aspirante a crítica.
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