Em 2023, ano seguinte a Laurel Hell, Mistki lançava ao mundo seu sétimo álbum de estúdio, The Land Is Inhospitable and So Are We. Com visuais sombrios e cinematográficos, além das sonoridades que brincam com um country soturno e nostálgico junto de outras sonoridades já características da artista, a obra foi muito abraçada pelos fãs, garantiu elogios da crítica e até mesmo se tornou viral no Tik Tok através da música My Love Mine All Mine.
A visibilidade do álbum não é por acaso. Mitski, acertadamente, parece ter optado por explorar ainda mais profundamente assuntos e referências já abordados em trabalhos anteriores, fazendo de seu sétimo trabalho um ponto de contato entre suas maiores qualidades como artista.

Seu mencionado trabalho anterior, Laurel Hell, já trazia em sua estética e conteúdo o gosto da artista por cinema, característica muito evidente na música e clipe Working for the Knife, principalmente. O nome de seu álbum mais aclamado até então, Be the Cowboy, também já indicava o interesse da cantora pelo western. Em uma entrevista, ela declarou que essa imagem do cowboy lhe remete a coragem e ousadia necessárias para sobreviver, sem ter que pedir desculpas por existir.
Essas tendências e muitas outras já preconizadas ganham uma máxima intensidade em The Land Is Inhospitable and So Are We. A turnê chamou a atenção principalmente pelas performances ao mesmo tempo catárticas, intensas e intimistas da cantora. Para eternizar essa experiência, o concerto ganhou uma versão em filme e foi exibido exclusivamente nos cinemas na última quarta-feira, dia 22 de outubro.
O filme Mitski The Land
Mais que apenas um registro de um concerto da tour The Land no Fox Theatre em Atlanta, o longa homônimo dirigido por Grant James demonstra um esforço em dialogar e potencializar a proposta estética do próprio álbum.
Semelhante ao público do cinema, o público do show captado está sentado, em silêncio, olhando passivamente para um ponto à sua frente: um palco pequeno. Mitski se posiciona no centro redondo desse espaço, emulando uma experiência parecida com um teatro onde ela é a única atriz entregando uma performance que dramatiza e condensa a vida à técnica artística.
Assim, a cantora passa os 78 minutos do filme-concerto em pleno movimento, cantando e dançando, cumprindo a tripla função de cantora, dançarina e atriz. A impressão passada por seus movimentos é de uma artista que atingiu a maturidade de integrar as várias possibilidades de seu fazer artístico, deixando a música falar através de seu corpo, não somente através de sua voz.

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A câmera e a montagem do longa se preocupa em contemplar todas as nuances possíveis de sua performance, intercalando imagens em preto e branco (técnica já bem explorada nos visuais do álbum), valorizando os borrões de movimentos e pontualmente usando o close-up nas expressões faciais da cantora. Esses pequenos pedaços de imagens estáticas ou em slow motion integram a simbologia dos cacos que também fazem parte da estética de The Land Is Inhospitable and So Are We.
Essa impressão de lugares e tempos fragmentados perpassa também outros elementos da performance e conteúdo das músicas. A história contada pelo álbum é de um mundo onde os seres humanos são um pedaço de terra (inóspita) em si mesmos. Nas fronteiras entre essas terras – ou seja, no contato entre pessoas-terras – que os conflitos acontecem, as imagens evocadas por Mitski fortalecem a materialidade terrena desses conflitos.
Na versão de estúdio de I’m Your Man, o lado amargo das relações é embalado por um coral de bichos. Buffalo Replaced faz referência a mosquitos, vagalumes e búfalos para falar de solidão. Memórias são neve derretendo em When Memories Snow.
Já o amor, para o eu-lírico de Mitski, é algo vertical, de cima para baixo, divino e superior. Contrariamente aos outros sentimentos e experiências humanas, as metáforas e imagens criadas para o amor são de paraíso (na música Heaven), estrelas (Star) e a luz da lua (My Love Mine All Mine). Nas terras arrasadas do existir, Mitski defende o amor como algo redentor.

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Esse com certeza foi o tema e premissa escolhidos para o filme-concerto. As luzes, vindas de cima para baixo, fazem participação ativa na apresentação, hora fugindo do alcance da cantora, hora banhando-a e até mesmo dançando com ela. Essa intenção fica ainda mais clara quando, ao entoar a primeira linha de Heaven, Mitski aponta o braço para o teatro, referenciando aquele ambiente ao ambiente mencionado na letra: “Todo o nosso amor, enchendo todo o nosso quarto”.
Nesse lugar de amor e luz criado pela ambientação do filme, temos acesso privilegiado a flashes dos rostos dos espectadores durante a apresentação, bem como a breves entrevistas aos fãs carinhosos, contando suas relações pessoais com o trabalho de Mitski, enfatizando a força da história contada pelo álbum e continuada pelo longa-metragem.
Mais uma vez relembrando o álbum anterior, Mitski desdobra em The Land mais um paradigma levantado pela música Working For the Knife, que abre com os versos:
“Eu choro no início de todo filme / Acho que é porque eu queria estar fazendo coisas também / […] Eu costumava pensar que eu contaria histórias / Mas ninguém se importou com as histórias que eu tinha”.
Agora, ela finalmente parece ter encontrado seu lado caubói, tomando a coragem para contar uma história “sem mocinhos” para exibir nas telas de cinema.
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Como uma última boa notícia, as cenas pós-créditos dão a entender que há mais um álbum vindo por aí no inverno do hemisfério norte, ou seja, entre dezembro deste ano e março de 2026. Seguimos na torcida!





