[LIVROS] Leia Mulheres: Quem é Scholastique Mukasonga?

[LIVROS] Leia Mulheres: Quem é Scholastique Mukasonga?

Começaram a circular, essa semana, algumas indicações sobre os autores e autoras que comporão as mesas na edição desse ano da FLIP e um dos nomes que chamou a nossa atenção foi o de Scholastique Mukasonga, cuja obra ainda está inédita no Brasil. No entanto, a sua presença no maior evento literário do Brasil já despertou o interesse das editoras, que anunciaram que dois de seus livros, Nossa Senhora do Nilo e a A Mulher dos Pés Descalços, ganharão uma edição brasileira, traduzida pela poeta Marília Garcia para a Editora Nós. Vale lembrar que tanto esse tipo de evento quanto os próprios prêmios literários tem, como uma de suas funções mais importantes, dar visibilidade àquelas vozes que dificilmente chegariam até nós sem a chancela de algum júri. Um exemplo disso é o caso da jornalista bielorrussa Svletana Alexievitch, que só foi traduzida para o português e publicada aqui no Brasil após ser laureada com o Nobel, em 2015.

Voltando a Scholastique Mukasonga, ela é uma autora nascida em 1956, em Ruanda. Desde sua infância, ela foi testemunha da violência e da brutalidade dos conflitos étnicos que dilaceraram seu país e marcaram a sua história e a sua literatura. Na década de 1960, sua família foi enviada para a região de Nyamata au Bugesera, para onde inúmeras famílias de etnia Tutsi, sobreviventes dos massacres étnicos, foram deportadas. Em 1973, ela se exila no Burundi e, em 1992, ela se estabelece na França, onde trabalhou como assistente social. Em 1994, 27 pessoas de sua família, incluindo sua mãe, foram vítimas do genocídio étnico em Ruanda. Perpetradores e colaboradores do massacre que tirou a vida de mais de 800.000 pessoas aguardam julgamento até hoje.

Scholastique Mukasonga
Galeria da autora

Mukasonga teve sua estreia literária em 2006, com o livro Inyenzi ou les Cafards (Inyenzi ou as Baratas), que tem um tom memorialístico bastante marcante. Segundo a apresentação do livro, no site de sua editora, a Gallimard, a autora escreve “um precioso relato autobiográfico, capaz de nos revelar a Ruanda pós-colonial”.

“Qualquer um que visite Ruanda é tomado pela beleza de sua paisagem, mas também é aterrorizado pela violência da sua história pós-colonial. Tudo acontece como se o bem e o mal, irremediavelmente inseparáveis, tivessem selado, sob as mil e uma colinas, um pacto de amizade. Há, de um lado, as colinas; de outro, um milhão de crânios que as recobrem. Mas, o que predomina, nesse relato, é o remorso dos sobreviventes, que se traduz pelos inúmeros pesadelos da autora. Daí esse desejo manifesto de dar aos desaparecidos uma sepultura digna de palavras que possa, ao mesmo tempo, pacificar os vivos e santificar os mortos.”

O livro seguinte, publicado em 2008, chama-se La femme aux pieds nus (A Mulher dos Pés Descalços) e também se inscreve na mesma linha de escrita autobiográfica. Além disso, trata-se de uma homenagem a sua mãe, conforme podemos perceber no texto que aparece na contracapa do livro:

“Essa mulher dos pés descalços que dá título ao meu livro é minha mãe, Stefania. Quando éramos crianças, em Ruanda, minha irmã e eu, mamãe nos dizia sempre: ‘Quando eu morrer, cubram o corpo com meus panos, ninguém deve ver o corpo de uma mãe.’

“Minha mãe foi assassinada, como todos os Tutsi de Nyamata, em abril de 1994; eu não pude cobrir seu corpo, seus restos desapareceram. Esse livro é o sudário com o qual eu não pude envolver minha mãe. É também a alegria lancinante de trazê-la de volta à vida, ela, que até o fim, encurralada, quis nos salvar, afastando de nós o terror sangrento do quotidiano. No limite desse genocídio terrível, sua história é também a nossa história.”

A Mulher dos Pés Descalços recebeu, no mesmo ano, o prêmio Seligmann contra o racismo. O livro seguinte, L’Iguifou, publicado em 2010, apresenta contos tomados “de poesia e de humor, gravitando incansavelmente em torno do indizível, a sombra negra do genocídio”. Esse livro de Scholastique Mukasonga recebeu, também, dois prêmios: o prêmio Renaissance de la Nouvelle, atribuído exclusivamente a livros de contos, e o prêmio de l’Académie des Sciences d’Outre-Mer.

Em 2012, mais um livro, agora um romance, Nossa Senhora do Nilo, e também mais dois prêmios – o prêmio Ahmadou Kouroma e o prêmio Renaudot. Confira o início do romance, com tradução nossa – enquanto aguardamos a de Marília Garcia.

“Não existe nenhum colégio melhor que o Nossa Senhora do Nilo. Não existe também nenhum que seja mais alto. 2500 metros, anunciam orgulhosamente os professores brancos. 2493, corrige a irmã Lydwine, a professora de geografia. “Estamos tão perto do céu”, murmura a madre superiora, unindo as mãos.

O ano letivo coincidia com a estação das chuvas, o colégio estava sempre nas nuvens. Às vezes, ainda que raramente, o céu limpava. Percebíamos então, lá embaixo, o grande lago, como um frasco de luz azulada.

O colégio era para as meninas. Os meninos, por sua vez, ficavam lá embaixo, na capital. É para as meninas que se construiu o colégio, bem no alto, bem longe, para afastá-las, protegê-las do mal, das tentações da cidade grande. É que as moças do colégio estão destinadas a um belo casamento. É preciso que elas saíam dali virgens ou, pelo menos, que não engravidem antes. Virgens, é melhor. O casamento é coisa séria. As internas do colégio são filhas de ministros, de militares de alta patente, de homens de negócio, de ricos comerciantes. O casamento de suas filhas é uma questão política. As moças  se orgulham disso: elas sabem o quanto valem. Já está longe o tempo em que se contava somente com a beleza. Como dote, suas famílias não receberão apenas as vacas ou os tradicionais barris de cerveja, mas também malas repletas de notas, uma conta bem recheada no Belgalaise, em Nairóbi ou em Bruxelas. Graças a elas, a família vai enriquecer, o clã afirmará seu poderio, a linhagem estenderá sua influência. Elas sabem o quanto valem, as moças do colégio Nossa Senhora do Nilo.”

Em 2014, a escritora publica um novo livro Ce que murmurent les collines (O que murmuram as colinas), também premiado. Em sua segunda incursão no formato de contos, o texto de apresentação do volume anuncia que a autora constrói um mosaico, com as belezas e os horrores que estão gravados para sempre em sua memória. Finalmente, seu último livro, um romance de título Coeur tambour (Coração tambor), publicado no ano passado, marca uma mudança de tom, mas ainda tocando em temas recorrentes de sua obra.

“Ninguém sabia mais muito bem quem era essa tal princesa, chamada Nyabinghi. Seu nome tinha vindo se chocar contra as praias da Jamaica sob estranhas circunstâncias… Em 12 de dezembro de 1935, pouco tempo antes da invasão da Etiópia pela Itália fascista, saiu no jornal Jamaica Times, um artigo intitulado “Uma sociedade secreta para destruir os brancos”: vinte milhões de negros, em nome de uma misteriosa rainha chamada Nya-Binghi, iriam se espalhar pela Europa e pela América – Nya-Boinghi signficando “morte aos brancos”. Os rastas, que haviam adotado o nome de nyabinghi, não eram nenhum pouco sanguinários e, no torpor benfazejo da erva sagrada e não sonhavam sequer em massacrar quem quer que fosse. Os tambores bastavam para a rebelião deles.”

Na segunda parte desse artigo dedicado a Scholastique Mukusonga, traremos mais informações acerca de seu processo criativo e de questões pertinentes relacionadas aos seus livros, além de uma tradução inédita de um conto de seu livro, O que murmuram as colinas. Não deixe de acompanhar. Para quem se interessou em saber mais a respeito de sua obra, é possível consultar, aqui, o site da autora. Vamos torcer para que as editoras publiquem as obras de Scholastique o mais rápido possível. 

Obras da autora publicadas no Brasil:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Professora, feminista, pesquisadora em literatura, engajada na missão de ler sempre mais mulheres. É viciada em livros & séries. Tem sempre um lugar especial no coração para Star Wars, filmes da Ghibli & gatos.
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