[QUADRINHOS] A Infância do Brasil: O olhar das crianças sobre os séculos brasileiros (Resenha)

[QUADRINHOS] A Infância do Brasil: O olhar das crianças sobre os séculos brasileiros (Resenha)

José Aguiar, autor da nova HQ lançada pela Editora Avec, propõe em seu novo trabalho apresentar a história do Brasil ao longo dos séculos por um olhar esquecido e negligenciado, o olhar das crianças. A Infância do Brasil dá voz a um grupo social que costuma não ter fala em revoluções ou em guerras. Mas e afinal, o que as crianças têm a nos dizer?

Sinopse Oficial de A Infância do Brasil

No Brasil, ser criança nem sempre foi como é hoje. O que mudou na vida das nossas crianças, se compararmos os relatos de séculos passados com o nosso presente? Em sua nova obra, o premiado quadrinista José Aguiar (Coisas de Adornar Paredes, Nada Com Coisa Alguma, Folheteen) lança seu olhar sobre a História do Brasil não pela perspectiva dos grandes eventos, mas pela das pessoas comuns, pelo viés da infância. O brasileiro de hoje cresceu acostumado com a ideia de que vive num país jovem. Mas, inevitavelmente, o país está crescendo, amadurecendo e deixando sua infância para trás. Chegamos a um ponto em que é importantíssimo olhar retrospectivamente e refletir sobre nossa trajetória para compreender de onde viemos, no que nos tornamos e pensar em nosso futuro como nação. A Infância no Brasil é sobre refletir o presente a partir do nosso passado, para, quem sabe, projetarmos um futuro melhor.

A Infância do Brasil foi dividida em partes para situar melhor cada contexto histórico. Que são: Século XVI (o nascimento do Brasil), Século XVII (a Escola), Século XVIII (os enjeitados), Século XIX (infância e escravidão), Século XX (a Pátria que trabalha e marcha) e Século XXI (o novo milênio de uma criança). Optamos por discutir pontos importantes presentes em cada etapa da história brasileira, mostrando como passado e presente estão conectados e dependentes entre si.

A Infância do Brasil

 

“Descoberta” do Brasil

“O dia que o capitão-mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz (…) era a 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pos nome à terra que havia descoberta de Santa Cruz e por este nome foi conhecida muitos anos. Porém, como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha em os desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado de cor abrasada e vermelha com que tingem panos, que o daquele divino pau, que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja. ” Frei Vicente do Salvador, 1627

Quando estudamos a disciplina de História no Ensino Fundamental, aprendemos roboticamente que a terra descoberta pelos portugueses, denominada de Brasil, era uma terra povoada por “povos selvagens” que não possuíam “bons costumes”. Durante os anos escolares aprendemos como funcionava a economia de Portugal, como funcionava sua história política e social, mas nunca (ou raramente) aprofundado na história dos povos indígenas que foram colonizados, escravizados e até catequizados.

Sabemos que o Brasil já era uma terra habitada, com pessoas que já possuíam sua própria cultura, costumes e crenças. Com a chegada dos portugueses não houve uma conciliação de termos ou mesmo diálogo, os povos indígenas se viram obrigados a aceitar exigências da colônia portuguesa ou morrer, como milhares foram dizimados. O estupro sempre foi uma arma do patriarcado utilizada em guerras e colonizações (mas não restringindo-se “somente” nestes contextos).

A violência praticada contra as mulheres negras e indígenas ia além de agressões e punições, não era a mesma violência ocorrida com os homens negros e indígenas, o estupro sempre foi utilizado como uma arma de violentar mulheres.

Além da agressão sexual sofrida, diversas mulheres não conseguiam ficar perto de seus filhos ou eram obrigadas a assistir a morte destes. Já os filhos que conseguiam nascer, eram postos à marginalização e ao esquecimento, sendo rapidamente tomados como escravos de algum senhor branco. Observamos a realidade de uma criança ser moldada desde cedo, a pobreza e a desigualdade social.

A Infância do Brasil

“Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao Poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância.” Joaquim Nabuco, “O abolicionismo”, 1883

Desigualdade social na infância

Para uma criança crescer saudável fisicamente e mentalmente, ela deve, principalmente, ter uma ingestão de nutrientes adequada. A segurança alimentar é um assunto atual e de grande preocupação quando o assunto é desigualdade social, pois como já dizia o ditado é difícil raciocinar sentindo fome.

Segundo o “Relatório de Insegurança Alimentar 2015“, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU, Programa Mundial de Alimentos (PMA), dentre outros, o Brasil ganha destaque na redução das taxas de subnutrição. Entre as décadas de 1990 haviam 22,6 milhões de pessoas em situação de subnutrição, já na década de 2000 o número cai para 19,9 milhões. O relatório aponta a associação na redução da fome ligada aos programas “Fome Zero” e “Bolsa Família”, percebendo desta maneira, que a situação alimentícia e a má distribuição dos alimentos está diretamente conectada com a má distribuição de renda.

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As vítimas que são perversamente prejudicadas com a subnutrição, é principalmente as crianças, que precisam de ainda mais atenção para um bom desenvolvimento. O que podemos perceber é que crianças que não possuem acesso à educação, saúde, lazer, entretenimento, também não obtém uma alimentação que consiga abarcar a diversidade de vitaminas e nutrientes necessários para o bom funcionamento do organismo.

A Infância do Brasil

A desigualdade social atinge diversas camadas da vida, seja moradia, alimentação, saúde ou lazer. A Infância do Brasil destaca em como a má distribuição de renda é prejudicial para o crescimento e desenvolvimento de uma criança.

Frequentemente nos deparamos com a cena de crianças em situação de rua, onde o seu único meio de sustento é pedindo esmolas na rua ou dento de conduções públicas. Ler a HQ é relacionar o passado e presente, perceber a ligação existente entre crianças em situação de rua com a escravidão e a colonização realizada pelos portugueses.

A história do Brasil é marcada pela desigualdade social, pelo racismo e pelo machismo. José Aguiar propõe um exercício de observação de nossa própria história retratada pelos olhos de crianças, que são frequentemente apagadas e esquecidas.

“Saiba

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Saiba 

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu” Arnaldo Antunes, “Saiba”, 2004

Sobre o autor

José Aguiar é quadrinista e editor na editora independente Quadrinhofilia, pela qual publicou as séries Folheteen e Vigor Mortis Comics e a elogiada graphic novel Coisas de Adornar Paredes. Recebeu diversos prêmios, como o Ângelo Agostini e Troféu HQMIX, além de ter sido vencedor do I Concurso Internacional de Quadrinhos do Secac-SP.

Fora das páginas, foi curador e cocriador dos premiados eventos culturais Cena HQ, projeto de leituras dramáticas de quadrinhos no teatro e também da Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba.

A Infância no Brasil foi sua primeira webcomic, pubicada entre 2015 e 2016. Foi um projeto realizado pela Quadrinhofilia Produções Artísticas, através do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba, com incentivo da Caixa Econômica Federal.


A Infância do BrasilA Infância do Brasil

Autor: José Aguiar

AVEC Editora

96 páginas

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Esta obra foi cedida pela editora para resenha.

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Feminista e estudante de serviço social. Ama Star Wars e é viciada em gatos. Adora conversar sobre gênero e brinca de ser gamer nas horas vagas. Nunca superou o fim de The Smiths.
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