Mulheres na história da fotografia documental: Zanele Muholi

Mulheres na história da fotografia documental: Zanele Muholi

Continuando a lista de fotógrafas documentais, previamente iniciada com a apresentação de uma das mais conhecidas e imortalizadas profissionais do gênero, Dorothea Lange, introduziremos então a artista e ativista lésbica sul-africana Zanele Muholi, conhecida por – através de suas fotografias – retratar e enfatizar pessoas e realidades da comunidade negra LGBT.

Zanele Muholi nasceu em 1972 – no ápice do apartheid da África do Sul – em Umlazi, Durban, e vive hoje em Joanesburgo. É formada em Fotografia Avançada, pela Market Photo Workshop e possui um diploma de MFA (Master of Fine Arts) em Mídia Documental, pela Ryerson University, em Toronto, Canadá. Tem como uma de suas principais e autoproclamadas missões reescrever a história LGBT sul-africana, de modo a mostrar ao mundo a existência de mulheres lésbicas, homens gays e pessoas trans na África do Sul, ressaltando também a presença de crimes de ódio contra essas pessoas.

A fotógrafa, Zanele Muholi. (Reprodução)

O trabalho da artista, apesar de possuir o teor político de representar comunidades sistematicamente marginalizadas, é bastante intimista. Através de retratos, Zanele Muholi apresenta de forma sensível as feições e peculiaridades de lésbicas butch, casais lésbicos em seus ambientes particulares, homens trans, drag queens e sobreviventes de violências como o estupro corretivo. Reforça com isso suas existências como grupos em resistência, sem deixar de lado suas respectivas individualidades.

Zanele Muholi

O projeto mais conhecido de Zanele Muholi, nomeado “Faces e Fases” foi criado em 2006, com o intuito de ampliar a história visual de pessoas sul-africanas – especialmente lésbicas, que até hoje possuem pouquíssima representação icônica fora do patamar patriarcal e racista, extremamente objetificante e fetichista, liderado por homens brancos.

A fotógrafa – que já disse em várias entrevistas enxergar a arte como algo político – reitera a importância da escrita, no sentido figurado da palavra, e perpetuação da história através daqueles que a vivenciaram e verdadeiramente a conhecem. Contra a homogeneidade de representações quase sempre sofridas ou estereotipadas e equivocadas da comunidade LGBTI, “Faces e Fases” é uma série de retratos simples, profundos e sensíveis – fotografados e reunidos por Muholi durante alguns anos por todo o mundo – de mulheres negras e lésbicas, como a própria artista, e pessoas trans.

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Zanele Muholi

Além do “Faces e Fases” – exibido em diversas galerias ao redor do globo, inclusive na 29ª Bienal de São Paulo – a fotógrafa possui diversos outros projetos solo e conjuntos, expostos nos 4 cantos do planeta. Suas mais recentes contribuições incluem a “Art/Afrique, le nouvel atelier”, na Fundação Louis Vuitton, em Paris, e o “Kyotographie International Photography Festival”, em Kyoto.

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Mas os trabalhos de Zanele – que já ganhou inúmeros prêmios, incluindo o recente ICP Infinity Award for Documentary and Photojournalism (2016) – ultrapassam o âmbito da fotografia. Em 2002, a artista co-fundou o Forum for Empowerment of Women (FEW), a primeira organização de direitos de mulheres negras lésbicas da África do Sul. Em 2009 fundou a Inkanyisouma plataforma de ativismo queer. Também dirigiu o documentário Difficult Love, que expõe os vários desafios enfrentados por lésbicas negras sul-africanas. Além disso, é professora honorária da University of the Arts Bremen, na Alemanha.

Zanele Muholi

Zanele Muholi lutou pelos direitos e deu representatividade a muitas pessoas do meio LGBT, não só em seu trabalho – expondo faces, culturas e intimidades de populações excluídas – mas por seu trabalho. Seu talento, sua história e seu ativismo fazem parte de uma parcela ínfima da quantidade de mulheres negras, lésbicas e transexuais que, por viverem numa sociedade misógina, racista, lesbofóbica e homofóbica, não têm os devidos espaços e oportunidades no meio artístico.

Julho é o mês da celebração da luta e da resistência da mulher negra. Marcadamente, o dia 25, representa o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres.

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Admiradora de tudo que envolve arte, cultura (especialmente a japonesa) e filosofia. Mãe de dois gatos, feminista e vegetariana. Em seu tempo livre descobre bandas inexploradas, fotografa e tenta desvendar a personalidade MBTI alheia (é INFP, por sinal). Considera The Office o ápice da humanidade.
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