[LIVROS] As Garotas: Mulheres, o crime e a psicologia de grupo (Resenha)

[LIVROS] As Garotas: Mulheres, o crime e a psicologia de grupo (Resenha)

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Talvez pudesse ter sido fácil”. O ano era 1969, o local era Los Angeles. A vítima, uma famosa atriz, grávida de 8 meses, alguns amigos dela e um casal em uma casa distante. Meses depois, a resolução que marcaria a história dos crimes nos Estados Unidos. Os criminosos, um grupo intitulado Família Manson. O líder, Charles Manson. Parece ficção, mas é realidade. E com base nesses fatos, a autora californiana Emma Cline escreveu As Garotas, seu primeiro romance.

As Garotas

A misoginia para além do crime

Algumas críticas apontam para a ausência de originalidade de As Garotas. Afinal, os elementos foram fornecidos previamente pela história real. Todavia, Emma Cline soube conduzir a história de forma a entreter e criticar uma sociedade. A partir de sua protagonista, Evie Boyd, discute a relação entre as mulheres e a sociedade. Diante da opressão cotidiana, o grupo é o meio em que se pode encontrar a essência enquanto ser mulher. E o crime pode ser a manifestação extrema de um ódio generalizado.

Questionada em uma entrevista ao The Guardian quanto à escolha de escrever uma versão da Família Manson, Emma Cline responde que o crime é o aspecto menos importante de seu romance. O foco da história é a violência cotidiana contra as jovens garotas, as brutalidades diárias. O crime em sua literalidade é o ponto de partida para uma análise psicológica maior.

A adolescência como um processo de divisão das mulheres

Evie Boyd é uma garota rica de Los Angeles, sem grandes méritos e de pouca popularidade. Sua única amiga é Connie. Ainda assim, parece faltar algo em sua vida. A adolescente sente-se como uma observadora do mundo. Ela vê a típica adolescência da melhor amiga, resumida aos rituais determinados pela mídia.

Ela vê os homens, em torno dos quais pensava dever orbitar. Ela vê seu pai, ausente e focado no novo casamento. Ela vê a mãe em sua tentativa de reconstruir a identidade diante da partida do marido. E ela vê aquelas garotas, que parecem ser tão livres quanto ela gostaria de ser.

“Era uma época na qual eu analisava e classificava outras garotas de imediato.”

Uma briga típica do modelo de adolescência imposta às meninas é o estopim para a mudança. Quando a última conexão com a vida de privilégios é rompida, Evie busca o mundo apresentado pela intrigante Suzanne. Com Suzanne, Evie não precisava julgar. O distanciamento entre as mulheres, imposto socialmente, era anulado por uma vida com outra perspectiva. No rancho, as mulheres eram livres para viver as relações entre si, sem a comum rivalidade, sem as comuns exigências estéticas e comportamentais.

Uma liberdade limitada

Aos poucos, porém, Evie percebe que mesmo nesse grupo criador de seu próprio mundo, aspectos da cultura externa penetram. Em primeiro lugar, há um líder do sexo masculino. Russel é um homem cativante. Consegue conquistar a todos, apesar dos traços de autoritarismo em sua personalidade. Ele enxerga as pessoas enquanto indivíduos e suas necessidades, dando-lhes aquilo de que acreditam precisar.

A vida sexual do grupo é determinada por ele. Ao mesmo tempo em que as mulheres possuem a liberdade de se comportar independentemente dos padrões sociais típicos, entregam-se a novos padrões. Se Russel as chama para o trailer, elas vão. Se Russel lhes pede para dormir com outros homens, elas acatam. A “liberdade” é alcançada por meio de seu cerceamento.

Evie, claro, não percebe isto imediatamente. Apenas a Evie de mais de 50 anos, diante de uma nova adolescente, expressará as conclusões sobre a violência naturalizada. A Evie de 14 anos acreditava que poderia viver aquele mundo proposto por Suzanne com base na figura de Russel. Mais do que isso, acreditava que poderia viver um amor naquele meio de suposta libertação.

O ser humano é um criminoso em potencial

Emma Cline trabalha com a ideia de que o ódio promovido por uma cultura de violência é responsável pelas escolhas do indivíduo. Quando o grande crime é orquestrado, nada diferenciava Evie de Suzanne, ou Donna, ou Helen. Um acidente a desconecta do grupo. Todavia, ela própria conclui que, não fosse isto, provavelmente seria conduzida à atrocidade que se anuncia desde o início.

O ódio que motivava Suzanne – pela análise de Evie, enquanto narradora parcial – é o mesmo ódio nutrido por grande parte das mulheres. Toques indesejados. Menosprezo, subestimação, objetificação, sexualização. A humanidade do ser feminino é retirada na prática da misoginia.

Instaura-se, então, uma realidade contraditória. De um lado, exige-se a humanidade de indivíduos aptos a cometerem crimes – qualquer ser humano possui essa capacidade; de outro, retira-lhes a humanidade quando convém aos interesses daqueles que detêm o controle.

O desconforto como crítica à sociedade misógina

As Garotas é um livro desconfortável, seja pela descrição ou pela essência da história. O ambiente em que o grupo vive constitui um meio por si impactante – um reflexo da ausência de conformidade com os padrões externos. Constitui um contraste com a ideia de higiene e organização estimuladas pela sociedade.

O desconforto alcança o ápice na descrição do crime. Emma Cline se utiliza disto como ferramenta para transmitir ao leitor a brutalidade dos sentimentos a que também eram submetidas as personagens. Revela uma mistura de personalidade selvagem – enquanto distante das normas estabelecidas socialmente – e de ódio extravasado.

O desconforto, porém, contribui para a crítica que se realiza através do enredo. Por vezes, é possível sentir-se absorvida pelo ódio nutrido pelas personagens de As Garotas. A identificação com muitos dos fatos é de fácil ocorrência, o que revela que os elementos por trás do crime não são tão extraordinários. Na medida em que a história decorre, é difícil julgar todas as atitudes descritas diante da contextualização, o que não justifica, por óbvio, a realização de um crime tão brutal.

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Por fim, é um livro que intriga. Prende, mesmo diante do conhecimento geral quanto aos fatos que o inspiram. Apresenta uma interpretação interessante e importante. Faz refletir sobre uma cultura misógina e sobre a relação entre os indivíduos e os grupos, a importância de se conectar com ideias e de de sentir parte de um movimento.

“Tínhamos estado com homens, os tínhamos deixado fazer o que quisessem. Mas eles nunca conheceriam as partes de nós mesmas que escondíamos deles – nunca sentiriam a ausência ou mesmo saberiam que havia algo mais que deveriam estar procurando.”


As Garotas

As Garotas

Autora: Emma Cline

336 páginas

Editora Intrínseca

Este livro foi fornecido pela editora para resenha

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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