[LIVROS] Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida: Xinran dá voz às mulheres impedidas de criar suas filhas

[LIVROS] Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida: Xinran dá voz às mulheres impedidas de criar suas filhas

O foco de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, publicado pela escritora Xinran no Brasil em 2011, pela Companhia das Letras, é nas mães que deram suas filhas em adoção, muitas vezes abandonando-as em locais públicos; mas também há histórias de famílias vivendo no campo que decidem “resolver” as bebês recém-nascidas – um eufemismo para o ato do infanticídio, já naturalizado (embora pouco comentado) nessas localidades.

A política do filho único na China, a preferência por bebês do sexo masculino, o aborto seletivo e o infanticídio de meninas não são um assunto totalmente desconhecido pelos ocidentais. São frequentemente objeto de relatórios e de denúncias de organizações internacionais em defesa dos direitos humanos, assim como um exemplo real da misoginia que incide sobre meninas e mulheres em várias partes do mundo.

Desde que tal política foi adotada, em 1979, com o objetivo de diminuir o imenso crescimento populacional do país, estima-se que 400 milhões de nascimentos foram evitados, a imensa maioria de meninas, resultando em uma enorme disparidade populacional de gênero – hoje há 119 homens para cada 100 mulheres. Em 2015, o governo pôs fim à restrição, mas o déficit populacional gerado pela política fez surgir o tráfico de meninas para fins de casamento forçado, que deve persistir ainda por muitas décadas.

Embora o Ocidente tenha conhecimento dessa situação há muitos anos, um personagem importante para se compreender todo esse cenário costumava permanecer na sombra: as mães que precisam abortar suas filhas, permitir que elas sejam mortas assim que nascem, ou que precisam abandoná-las pouco após darem à luz – em geral, obrigadas pela família do marido, nas mãos de quem sofrem inúmeras violências.

Adoções internacionais inspiraram livro

Com o crescimento do número de adoções de meninas chinesas por ocidentais, o interesse por essas mães esquecidas veio à tona. “Por que minha mãe chinesa não me quis?” era a indagação constante das milhares de chinesinhas ao redor do mundo, em meio ao estranhamento frente a uma cultura que não parecia ser a sua e ao sentimento de rejeição – e também a um esforço sincero de suas mães ocidentais para entender o que levou as mães biológicas de suas meninas a tomar essa atitude extrema.

Mas como acessar os pensamentos e sentimentos dessas mulheres desconhecidas, a maioria delas camponesas que mal sabiam ler e escrever, moradoras de longínquos rincões da China e que viviam suas vidas silenciosamente, jamais tocando naquele que é um dos maiores assuntos-tabu da China profunda?

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida

O objetivo de Xinran, como o título do livro já revela, é ser a mensageira dessas mães, e permitir às suas filhas entenderem por que e em que condições se deu esse abandono. Composto de dez histórias protagonizadas por diferentes mães – a maioria são camponesas pobres, mas há também uma funcionária de alto escalão e o relato da própria autora, que adotou uma menina, retirada dela pelo governo –, “Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida” é um livro imensamente triste.

O grande mérito de Xinran é dissipar a aura de folclore que envolve a política de planejamento familiar chinês e a política do filho único e lhe conferir humanidade por meio dos relatos dessas mães, vítimas da pobreza, da misoginia, de tradições milenares e de intrincadas relações de poder que geram um cenário desesperador.

Isso porque, durante muitos séculos e ainda hoje, a lei chinesa sempre priorizou famílias com filhos homens ao distribuir as terras do governo – as mulheres, quando casam, migram para a casa do marido, enquanto que os filhos casados permanecem na terra onde nasceram.

Ainda há uma questão religiosa e cultural: de acordo com a tradição, é preciso que o casal tenha um filho homem, pois somente o filho mais velho (homem) pode queimar um incenso no altar dos ancestrais quando seus pais morrem. Se a chama se apagar porque não há um filho homem para mantê-la acesa, os mortos jamais terão paz.

No livro Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, as histórias são dolorosas e mesmo terríveis, seja pelas ações tomadas pelos pais para se livrarem das filhas, seja pelas consequências dessas ações na vida de suas mães.

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida
Foto: Reprodução

Em três histórias particularmente marcantes, Xinran conta o caso da menininha abandonada numa estação de trem pelo pai e pela mãe grávida, que já haviam tido três meninas antes dela e que percorriam o país fugindo dos fiscais da política do filho único; o de uma parteira que, a pedido da família do pai, afogou uma bebezinha de poucos minutos de vida em uma bacia de água suja, enquanto a mãe soluçava e chorava baixinho no quarto, e o de uma mulher, vendida como noiva a um camponês, que tentou por duas vezes cometer suicídio ao presenciar, no restaurante em que era garçonete, duas diferentes festas em comemoração ao aniversário de duas meninas – ao olhar para os balões cor de rosa e as menininhas em vestidinhos de festa, amadas e festejadas pelos pais, ela então se lembrou do que havia ocorrido com suas duas bebês, mortas afogadas em uma bacia.

“Mas então Kumei viu a menina de cinco anos comemorar seu aniversário no Pequeno Chefe de Cozinha. Ela ficou atônita. Era possível que as pessoas da cidade realmente cuidassem de meninas daquele jeito? Parecia uma menininha de um conto de fadas. Pela primeira vez, Kumei compreendeu como poderia ter sido ser a mãe de uma menina. Se suas filhas tivessem sobrevivido, talvez tivessem o rosto tão rosado e fossem tão adoráveis quanto aquela menina. Se usassem saias, como as meninas da cidade, talvez também fossem igualmente bonitas! Se apenas elas tivessem podido conhecer a cidade grande… mas elas nem sequer tiveram a oportunidade de viver um dia inteiro. Kumei foi dominada por um sentimento de amargura que acabou por levá-la ao desespero e a tentar se matar. Pelo menos assim talvez ela pudesse abraçar mais uma vez aqueles corpinhos nus. Quando Kumei terminou, ela nos perguntou, chorando: “Por que as minhas filhas não puderam viver? Por que eu tive que matar as minhas próprias filhas? Eu queria que elas tivessem provado pelo menos um bocado daquele bolo de aniversário, só um bocado! Se ao menos elas tivessem podido usar aquelas roupas bonitas, por um dia que fosse!”. Ficamos sentados em silêncio, com as palavras de Kumei ecoando em nossos ouvidos: Por que as minhas filhas não puderam viver?

Kumei continuou trabalhando no Pequeno Chefe de Cozinha até eu ir embora da China, em 1997. Minguang transformou a história de Kumei em um conto, que eu li no meu programa. Entre as muitas cartas de ouvintes que recebi como resposta, várias eram de mulheres que me disseram que também elas haviam perdido a primeira filha. Mais tarde Minguang me disse que Kumei havia ingerido os líquidos de limpeza, incluindo o sabão líquido, porque, sendo analfabeta, pensara que todos os produtos de limpeza eram pesticidas. Um número incontável de mulheres oriundas de zonas rurais comete o suicídio ingerindo pesticidas. Em um relatório das Nações Unidas de 2002, a China ficou em primeiro lugar na lista de suicídios femininos, e ingestão de pesticida era o método preferido. A China é um dos poucos países em que mais mulheres que homens cometem suicídio” – Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, p. 73-74

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida
Camponesa trabalha em um campo de arroz com o filho nas costas. Foto: Reprodução

As histórias narradas por Xinran, autora do best-seller “As boas mulheres da China”, são cativantes. Anos de experiência como jornalista em veículos estatais chineses – principalmente no jornalismo de rádio, em que grande parte de seu público eram mulheres e pessoas de pouca escolaridade – lhe renderam a capacidade de dizer muita coisa em poucas palavras e de trabalhar com uma linguagem simples, sem análises afetadas e descrições enfadonhas.

A descrição dos hábitos culinários de diferentes regiões da China, da burocracia estatal e das intricadas relações estabelecidas entre as pessoas do campo tornam a leitura prazerosa e ajudam a erradicar a imagem do povo chinês como um povo exótico e incompreensível – imagem que, obviamente, foi construída sob um olhar eurocêntrico, colonizador e racista.

Porém, a autora às vezes derrapa ao apelar para um sentimentalismo excessivo ou quando se põe a analisar a maternidade por um viés moralista, biologizante ou essencialista. A tradução também dificulta um pouco a leitura – nos livros da autora, é comum haver desde logo, na introdução ao livro, uma espécie de mea-culpa de suas tradutoras neste sentido, já que seus livros em português são traduzidos do inglês, e não diretamente do mandarim.

Para saber mais: Em 2004, Xinran criou a organização The Mother’s Bridge of Love, que tem como objetivo unir as famílias que adotaram crianças chinesas, fornecer um espaço de apoio para as crianças e seus pais diante das adversidades que surgem do choque entre as duas culturas e ser também uma ponte entre essas famílias e a sociedade chinesa – com alguma sorte, a autora afirma que pretende reunir as meninas chinesas adotadas e suas mães que vivem na China.


Mensagem de uma mãe chinesa desconhecidaMensagem de uma mãe chinesa desconhecida

Autora: Xinran

Editora: Companhia das Letras

182 páginas

Ano: 2011

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