[CINEMA] Human Flow: A crise de refugiados sob uma lente macro

[CINEMA] Human Flow: A crise de refugiados sob uma lente macro

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A recente crise de refugiados na Europa foi altamente documentada e noticiada, com milhares de pessoas fugindo de seus lares em conflito, vindos principalmente da Síria em guerra e do norte da África. O artista chinês Ai Weiwei, sendo ele mesmo exilado de sua pátria, busca em Human Flow, documentário de 2 horas e meia, fazer um apanhado não só dessa crise recente, mas de movimentos migratórios de refugiados no mundo inteiro. Visitando 23 países, com um bom financiamento da Amazon, e uma equipe intercambiável de 200 pessoas ao redor do planeta, Ai procura fazer um recorte macro do nosso tempo histórico, e também situá-lo no que ele chama de perpétua condição histórica de migração da espécie humana.  

Embora inclua algumas entrevistas com refugiados e com agentes de ajuda humanitária, Ai prefere se ater a uma visão ampla da situação, enfatizando a coletividade, os grandes grupos de pessoas se deslocando, atravessando rios, acampando perto das fronteiras muradas, e, principalmente, nos frequentes planos abertos com drones, que capturam imagens aéreas impressionantes dos campos de refugiados e das paisagens por onde passam.

Human Flow 

Em entrevistas, Ai ressalta que não pretende que Human Flow tenha um caráter de registro histórico, mas sim que seja compreendido como uma visão artística e pessoal sobre a situação dos refugiados. Ele também justifica sua decisão de colocar uma lente macro sobre os acontecimentos: “Não podemos olhar para a situação atual e decidir que é um problema regional. O título ‘Human Flow’ (em tradução: Fluxo Humano) vem de um entendimento do aspecto histórico disso: algo que sempre aconteceu. A crise de agora está se tornando cada vez mais dura e difícil de entender, e tem o potencial de se transformar em um problema maior. Precisamos que este filme atinja o público, especialmente as pessoas de nações privilegiadas com a habilidade de ajudar.”

Muitos críticos se incomodaram com esse formato macro, sentindo falta de uma abordagem mais particular e afetiva, como o belo trabalho do fotógrafo Brandon Stanton, da página Humans of New York, que capturou tão bem a essência das histórias particulares de indivíduos refugiados. Abarcando uma ampla gama de acontecimentos, Human Flow acaba apresentando uma montagem não tão bem costurada, que muitas vezes pula abruptamente de uma situação para outra sem estabelecer uma ligação narrativa entre elas. Mas, pelo que Ai Weiwei diz em entrevistas, esta composição do filme como um mosaico foi intencional, selecionando partes de mais de 900 horas de filmagem.

Ele também aparece algumas vezes como personagem, interagindo com as pessoas, as ajudando, filmando com seu celular, ou simplesmente as observando. Há uma preocupação em normalizar sua presença no ambiente, portanto o filme o mostra também realizando atividades mundanas, como assar churrasquinho ou cortar o cabelo em meio aos outros.

Human Flow 

Da mesma forma, há um interesse em mostrar um pouco da vida cotidiana dos refugiados nos acampamentos. Além do desespero, também aparecem o tédio e atividades comuns como tirar selfies, carregar os celulares em extensões elétricas improvisadas, e ajudar a vestir os filhos. 

Human Flow retrata situações tão diferentes quanto os Rohingya de Myanmar, o campo Dadaab no Quênia, a fronteira entre México e Estados Unidos, e afegãos exilados no Paquistão que finalmente estão conseguindo voltar a seu país de origem. Essas, porém, são eclipsadas pelo tempo muito maior que Ai Weiwei se debruça sobre a crise na Europa e na Palestina, mais particularmente na faixa de Gaza, onde consegue entrevistas e cenas arrebatadoras. 

Há algumas metáforas pontuais e contundentes, como a ironia em países vizinhos que juntam forças para devolver um animal selvagem ao seu local de origem, mas que são incapazes de resolver o conflito humano dentro de seus territórios, que há décadas força milhares de pessoas a permanecer sem pátria, ou, como uma mulher diz em depoimento, “numa grande prisão”.

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Human Flow acerta também ao privilegiar as imagens ao invés de incluir narração ou um excesso de depoimentos. Apesar de fornecer algumas estatísticas como contexto e inserir algumas poesias em momentos de transição, a força do filme está nas imagens que consegue mostrar. Tanto os grandes planos abertos quanto os momentos de cotidiano dos refugiados são muito eficazes em comunicar visualmente a crueldade e sofrimento a que essas pessoas estão submetidas, sem recorrer a imagens sensacionalistas. E felizmente, apesar das belas composições imagéticas e do ritmo suave e lento, o filme não romantiza a situação. Apesar da falta de um clima de tensão e desespero, o documentário é muito eficaz em passar uma sensação de urgência e gravidade sobre essa crise mundial.

Human Flow 

Human Flow também chama atenção para o grande efeito colateral que pode surgir nas novas gerações, caso o mundo realmente não apresente uma solução para esse problema. Crianças que crescem nessas condições não têm acesso a escola, higiene, nem cuidados médicos, se mantendo muitas vezes apenas com a escassa ajuda humanitária que chega até os campos. Também não tem perspectivas de encontrar emprego, pois não tem cidadania no local que habitam, sendo forçadas a permanecer à margem e na pobreza.

Tal situação as torna muito vulneráveis a exploração, inclusive para a radicalização. Diante de um muro que separa Gaza de Israel, um homem alerta para o fato de que as crianças estão crescendo sem nunca ter conhecido ninguém que habita o outro lado. Tudo que sabem sobre eles são os estereótipos contatos pelo seu próprio povo. Com tal nível de distanciamento e desumanização do inimigo, o prospecto de resolução dos conflitos se mantém distante. Esta é a situação de milhões de refugiados pelo mundo, que só tende a piorar nos próximos anos, e para a qual a humanidade precisa encontrar uma solução coletivamente e com urgência.

Human Flow estreia hoje (16) nos cinemas.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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