A solitária luta feminina em “Liga da Justiça”

A solitária luta feminina em “Liga da Justiça”

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Liga da Justiça (Zack Snyder, 2017) chega para salvar os homens. Pra variar, mais um filme de super-heróis que deixa as mulheres em segundo plano, isso quando aparecem. Nem mesmo quando há personagens coadjuvantes, elas surgem muito na telona. Tudo bem, há mulheres poderosas e essenciais à trama. Vamos à elas: Mulher-Maravilha (Gal Gadot), as Amazonas, Lois Lane (Amy Adams) e Marta Kent (Diane Lane), e só.

Se é fato que as mulheres estão ganhando cada vez mais poderes e protagonismo nos filmes de ação e aventura, elas continuam sozinhas e parecem exceções à regras. Não têm sequer outro personagem feminino para interagir com elas. Se não fosse uma simples conversa entre Lois Lane e Marta Kent sobre a venda da casa da mãe de Clark Kent/Superman (Henry Cavill), por exemplo, Liga da Justiça nem passaria no Teste de Bechdel (duas mulheres com nomes, que conversam entre si, sobre outro assunto que não seja homens). Até porque elas logo mudam de assunto e começam a falar do Superman.

Martha Kent, Lois Lane e o teste da lâmpada

Na verdade, a personagem de Marta Kent não tem nenhuma finalidade na trama de Liga da Justiça. A mãe do extraterrestre mais poderoso do planeta não consegue seguir adiante sem ele, decide mudar-se e vai atrás da “viúva” de seu filho apenas para reclamar. Um sentimento digno, porém, dispensável para a trama, pelo menos da forma como foi mostrado. Logo ela volta para casa e fica feliz de novo com o retorno de Superman.

Na trama em si, Martha Kent poderia ser substituída facilmente por uma lâmpada, outro teste cinematográfico simples, criado pela autora de quadrinhos Kelly Sue DeConnick, sobre a participação feminina nas telas. O teste da lâmpada é simples: se você conseguir trocar a mulher em sua história por uma lâmpada e isso não fizer nenhuma diferença para sua narrativa, você tem um problema.

A intrépida repórter Lois Lane, orgulho de todo/a jornalista, ganhadora de prêmios Pulitzer de jornalismo, indomada, incontrolável, enxerida, curiosa, audaciosa, corajosa, destemida, agora escreve sobre animais de estimação e não quer mais saber de investigar casos insolúveis e mostrar um pouco da verdade escondida por trás das tramas de poder. Nada contra escrever sobre bichinhos, mas é também como se mundo tivesse perdido uma heroína.

Na trama, Lois tem apenas uma participação importante: trazer o Superman à realidade, depois que ele é ressuscitado pela Liga da Justiça e não sabe bem quem é. Ela apenas lembra que Batman (Ben Affleck) não foi bacana com ele no último filme Batman Vs Superman – A Origem da Justiça (Zack Snyder, 2016). Nem mesmo o laço mágico da Mulher-Maravilha funciona tão bem quanto o abraço reconfortante da pacífica Lois Lane.

A sexualização e a representação das Amazonas

As Amazonas trazem uma polêmica antes mesmo da estreia do filme. O figurino das guerreiras de Snyder é sexualizado em comparação ao longa Mulher-Maravilha (2017), dirigido por Patty Jenkins. Os corpos e músculos das Amazonas estão mais expostos nas cenas de Liga da Justiça. No entanto, a representação delas quanto da própria Mulher-Maravilha não é tão sexualizada como as heroínas costumavam ser antigamente. Não há closes em peitos e bundas, um recurso comum utilizado por diretores homens. É um pequeno avanço que deve continuar.

As Amazonas lutam com toda a força para impedir o vilão Lobo das Estepes (Ciarán Hinds) de conseguir uma das três caixas que precisa para dominar o mundo; um plano clichê, mas ainda assim perigoso. No entanto, há apenas duas Amazonas com nomes: a rainha Hipólita (Connie Nielsen) e a general Antíope (Robin Wright).

As outras amazonas são coadjuvantes sem grande distinção. Aliás, uma das cenas mostradas parece muito com outra de Thor Ragnarok (Taika Waititi, 2017), que não passa no Teste de Bechdel, quando uma das Valkírias (Tessa Thompson) perde uma amiga em um luta, envolvendo mulheres guerreiras montadas em cavalos e uma vilã com grande poder, Hela (Cate Blanchett).

Hipólita também lamenta a morte de uma companheira que deve ser importante para ela, mas não sabemos quem é. Parece que a DC está atrás do prejuízo causado pela Marvel e resolveu copiar algumas ideias. Contudo, a princesa Diana Prince não escapa de algumas situações em que sua beleza e o fato de ser mulher causa alguma reação nos seus companheiros.

Em uma delas, Aquaman (Jason Momoa), preso sem saber pelo Laço Mágico, é obrigado a dizer a verdade e fala claramente o quanto ela é bonita e interessante. Em outra cena, o desajeitado Flash (Ezra Miller) cai com o corpo todo em cima da heroína e fica com vergonha.

Liga da Justiça

A Mulher-Maravilha

A Mulher-Maravilha tem um papel essencial na trama de Liga da Justiça. Ela é importante para recrutar os outros membros da Liga (todos homens) e discute com Batman sobre questões sobre as quais divergem. Uma delas é trazer de volta o Superman à vida. Apesar do risco que a manobra poderia causar, ela cede e Superman facilmente ressuscita.

O estranho é que depois que essa ideia deu certo, ninguém mais no mundo quis usar o poder das caixas para trazer seus entes queridos/as de volta, nem mesmo os atormentados seres especiais da Liga. E olha que esse é um dos desejos mais intensos do ser humano: ter uma segunda oportunidade com pessoas que já se foram. Ressuscitar em Liga da Justiça parece algo cotidiano.

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Voltando a nossa amazona favorita, Diana lamenta-se algumas vezes pela morte de Steve Trevor (Chris Pine), por quem apaixona-se no longa Mulher-Maravilha e explica porque ficou tanto tempo longe da luta e da defesa de pessoas inocentes, uma promessa das Amazonas. Ela é fundamental na trama. Sem ela, o vilão não teria o que merece, mas ela está sozinha. Nem mesmo os problemas dos outros super-heróis da Liga envolvem muitas mulheres.

Conclusão

Já estamos cansadas de saber a origem do Batman e o problema da morte de seu pai (Thomas Wayne) e sua mãe (Martha Wayne). Flash vive tentando impressionar o pai Henry Allen (Billy Crudup) que está preso. Cyborg (Ray Fisher) não entende o que o pai Dr. Silas Stone (Joe Morton) fez para salvá-lo da morte. A mãe dele sequer é mencionada. Aquaman tem ressentimentos contra a mãe Atlanna, mas ela não aparece no filme.

Concluímos que Liga da Justiça tem um roteiro previsível: uma ameaça alienígena que quer destruir a Terra, e um time de super-heróis que aparecem para salvar o planeta. O recurso de artefatos com superpoderes escondidos pelo planeta também não é nada original. No entanto é um filme entretido, que deve ajudar à DC e a Hollywood a sair um pouco do buraco desastroso onde se meteram este ano, cheio de fracassos de bilheteria, se não fosse pela Mulher-Maravilha.

Um recado final: o que nós precisamos mesmo é de mais heroínas no cinema!


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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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