[ENTREVISTA] Marcela Reis e CabraMacabrA: “a gente tá perdendo o medo de meter a cara e tomar nosso espaço”

[ENTREVISTA] Marcela Reis e CabraMacabrA: “a gente tá perdendo o medo de meter a cara e tomar nosso espaço”

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No mês de outubro, a banda CabraMacabrA, diretamente da Inglaterra, veio fazer a sua turnê de estreia aqui no Brasil. Trouxeram junto com eles os caras do Dowsing, banda emo dos EUA. A galera teve a chance de assistir ao show de duas bandas gringas (e algumas brasileiras em cada cidade que passavam) por um preço super tranquilo – e isso devemos à Marcela Reis, também conhecida como Kill, que organizou tudo praticamente sozinha.

Baixista da CabraMacabrA e vinda de Mogi das Cruzes (SP), ela atualmente mora em Londres. Conversamos com ela para entender como foi o processo de mudança, as principais diferenças entre aqui e lá, suas experiências pessoais e, principalmente, como foi a sensação de organizar uma tour internacional:

DN: Quando você começou nesse meio musical? Já teve outros projetos?

Marcela: Eu comprei meu primeiro baixo aos 14 anos e comecei a estudar por conta própria, no meu tempo vago. Aos 18 eu formei uma banda com algumas amigas, a “Give Me A Break!” e a gente tocou juntas por uns 5 ou 6 anos. Toquei numa outra banda chamada “High Low Nurse” por algum tempo antes de me mudar pra Londres.

Kill com a High ow Nurse em 2014 (Foto: Reprodução)

DN: E de onde surgiu essa ideia de ir para Londres? Você está aí há muito tempo? Tem previsões de retorno?

Marcela: Me mudei porque tava cansada do Brasil, não tinha mais tesão nenhum em morar aí. Sempre quis vir pra Europa, e Londres é uma cidade muito atrativa pra quem é apaixonado por música – além de ter mais oportunidades e algumas facilidades. Então escolhi me mudar pra cá e já estou há três anos, sem nenhuma intenção de volta pro Brasil, não.

DN: Em relação à cena musical, você vê muita diferença entre Europa e Brasil? A relação palco-plateia é a mesma?

Marcela: Eu não percebo muitas diferenças entres as cenas musicais underground – elas são mais evidentes no mainstream. No meio punk/D.I.Y. em que eu me relaciono, essas cenas todas têm se mostrado bem similares – exceto pelas facilidades que alguns países oferecem em relação à organização e suporte.

Em Londres, por exemplo, é muito mais fácil organizar um evento com bom retorno financeiro, bons equipamentos por conta das casas de show etc. Fora o incentivo à cultura musical que é evidentemente maior.

DN: Quando vocês resolveram começar com a “CabraMacabrA”?

Marcela: A ideia surgiu porque eu namorava o Marcelo na época, e desde que a gente começou a namorar fomos muito presentes na vida musical um do outro – eu tinha banda na época e ele também. Eu sempre achei ele um ótimo compositor e eu queria tocar com ele, queria que a gente tivesse uma banda juntos. Mas ele sempre me enrolou. E aí quando nos mudamos para Londres, nenhum dos dois tava tocando então foi mais fácil de convencê-lo a montar uma banda [risos]. Depois que começamos a tocar juntos, a Laura, que era nossa amiga por causa do rolê, descobriu que a gente tava precisando de um baterista e se ofereceu para tocar (o que a gente achou ótimo já que ela tem tudo a ver com nós dois).

DN: E que tipo de som vocês tocam?

Marcela: É uma coisa meio orgânica. A gente nunca parou pra pensar “vamo montar uma banda de emo” ou de punk, ou de hardcore, sei lá. A gente começou a tocar primeiro. O Marcelo é intrinsecamente emo – não tem como evitar isso. Eu pendo um pouco pra um som mais agressivo – um hardcore, um metal. A gente acabou misturando isso, e a Laura flui bem entre todos os estilos. A gente costuma dizer que somos um “post-emocore” com uma “fusão no metal punk” [risos], mas é difícil dizer que tipo de som a gente toca. É confuso. É diferente, eu acho.

CabraMacabrA da esquerda para a direita: Marcelo (guitarra e vocal), Laura (bateria) e Kill (baixo e vocal) (Foto: Reprodução)

DN: No cenário emo atual, você vê muitas mulheres em bandas, participando ativamente? Qual a receptividade delas pelo público?

Marcela: Acho que sim, cada vez as mulheres têm tomado à frente e reclamado seu espaço dentro das cenas musicais. Eu percebo que na Inglaterra essa força “feminina” é ainda maior por ser um país, de certa maneira, um pouco menos machista que os outros. Eu acho que ainda falta muito entendimento entre nós pra que essa luta alcance uma significativa mudança na mentalidade patriarcal, mas eu boto fé que as coisas tão melhorando. No emo ainda é grande minoria bandas com mulheres envolvidas, mas é um número gradativamente maior a cada dia. Acho que a gente tá perdendo o medo de meter a cara e tomar nosso espaço.

DN: Uma banda emo formada por mulheres que tem chamado atenção é a “Colour Me Wednesday”, e você tocou numa turnê no UK com elas! Como isso aconteceu? Você está oficialmente na banda?

Marcela: A “Color Me Wednesday” eu conheci ao vivo. Na época eu escrevia pra uma revista online e entrei em contato com elas pra fazer uma entrevista. Depois disso, ficamos muito amigas! Então a baixista teve uns problemas pessoais e precisou sair da banda. Como eu era muito fã, a princípio não quis entrar no lugar dela – apesar de terem me chamado. Mas elas tinham uma turnê marcada nos EUA e precisavam de alguém no lugar.

Quando percebi que outra pessoa poderia substituí-la (e ela nunca mais voltar!), eu resolvi entrar provisoriamente. Acho que ela não volta, mas eu vou ficando pra ver.

DN: Como foi/está sendo essa experiência?

Marcela: A turnê foi incrível! Eu nunca tinha saído em uma antes. E nós somos bem amigas, eu não simplesmente toco numa banda com pessoas avulsas, então fica tudo muito fácil. Agora estamos gravando um CD novo, fizemos um pré-show de lançamento etc.

É um universo bem diferente porque elas tocam um punk melódico com um apelo bem mais pop que o “CabraMacabrA”. Algo que eu nunca fiz antes! Mas é bem legal, eu gosto muito de tocar com elas e, mesmo não sendo membro oficial da banda, eu me sinto bem à vontade.  

DN: Agora sobre a sua segunda turnê, aqui no Brasil, com o “Dowsing”. Como foi a organização dela?

Marcela:  A organização foi independente, D.I.Y., feita por mim mesma, praticamente. Eu tive a ajuda dos produtores que iam realizar os shows nos lugares. Mas era pouca, né? A gente combina “precisa disso, daquilo” e pronto. Se alguma coisa sai do controle, dá errado, é tudo minha responsabilidade.

Tive muita ajuda do Marcelo da minha banda, principalmente com a grana.  Eu sou muito ruim para administrar dinheiro então ele foi tipo o meu tesoureiro. Ele segurou a onda e a gente conseguiu fazer a turnê inteira sem passar (muito) perrengue [risos]. 

O Roceiro, um amigo nosso, também ajudou muito. Na verdade, acho que sem ele a turnê nem sairia! Ele se ofereceu pra dirigir pra gente de graça, na loucura, e dirigiu a van mais da metade do caminho. Foram 28 horas, direto, de Porto Alegre até o Rio de Janeiro sem nem usar droga pra ficar acordado [risos]. 

DN: E no final, qual foi o saldo da tour?

Marcela: Melhor do que eu esperava! Eu tinha uma visão totalmente diferente de como eu, particularmente, seria recebida – apesar de já esperar que fosse mais tranquilo porque eu tava com gringo e brasileiro adora gringo, né? Isso é um pouco incômodo, mas não chegou a me incomodar de fato nessa turnê porque a companhia era boa, os shows foram bem legais, em lugares bem maneiros. Pouquíssima coisa saiu do controle.

No Brasil o cenário independente é muito difícil e conseguimos fazer 11 shows em 2 semanas. A gente gostou muito, tanto é que nós das bandas fizemos uma tatuagem em conjunto! Foi muito especial pra todo mundo.

CabraMacabrA e Dowsing durante a turnê no Brasil (Foto: Low Life Collective)

DN: Em relação às mulheres na cena underground, você tem uma visão pessimista ou otimista? Você acha que esse boom de popularidade do feminismo contribui ou não para o fortalecimento desse elo?

Marcela: Eu tenho duvidas sobre isso. Não saberia dizer se sou otimista de fato ou não. Mas eu acredito nelas, de certa forma. Acho que ainda tem muito chão pela frente, tem muita luta pra encarar e muito o que acertar entre nós mulheres mesmo – a gente ainda é muito inexperiente em relação a sermos empáticas e unidas de fato. O hype do feminismo atual pode tanto ajudar quanto atrapalhar, mas eu considero tudo evolução. Eu acho que permaneço em cima do muro mas tou sempre do lado das minas!

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DN: Você sempre pontua muito o fato de ser negra e gorda. Por que sente necessidade de fazer isso?

Marcela: Eu não tinha essa consciência de que eu sempre pontuo isso, acho que deve ser um instinto natural de causar desconforto. Ser negra e ser gorda incomoda as pessoas, elas não gostam nem mesmo de usar essas exatas palavras, é um grande tabu! Deve ser por isso que as pessoas acham que sempre pontuo isso, porque incomoda ouvir algo que você se esforça pra ignorar. É importante que se fale sobre isso, creio eu. E eu sou negra e gorda, não vejo razão pra não pontuar isso!


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Autora

Feminista, bruxa e vegana. Estudante de jornalismo e de bateria. Apaixonada por gatos, filmes de terror, contracultura e roller derby. Cozinheira (e meio piadista) nas horas vagas.
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