[ENTREVISTA] Gillian Rosa: Sobre começos e ‘sarrar para não chorar’

[ENTREVISTA] Gillian Rosa: Sobre começos e ‘sarrar para não chorar’

Conheci Gillian Rosa, autor da webcomic PONGO, não lembro como nem quando – mas basta uma olhada rápida nos trabalhos do autor para se tornar fã. No decorrer de um ano, entre mensagens trocadas em redes sociais e crescimento da página, tive o prazer de entrevistá-lo durante a Comic Con Experience, evento ao qual o artista – que atualmente mora em Curitiba/PR – compareceu para o lançamento de seu primeiro livro: “Rindo, Mas Não Deveria” (Shockdom Brasil).

Após passar pelo estande da editora três dos quatro dias da CCXP, no último combino de entrevistá-lo, mas o tempo é curto: temos dez minutos antes que ele retorne para atender pessoas que já conhecem seu trabalho ou estão tendo contato pela primeira vez. Na área externa da São Paulo Expo, sentados no chão e interrompidos a cada cinco minutos pelo interminável aviso de que o ônibus para o Terminal Jabaquara sairia do lado direito da marquise, os dez minutos fluem fácil e logo se tornam quase doze. Confira agora o resultado, que tem mais teor descontraído do que propriamente profissional.

Gillian Rosa

“Pode enrolar, tem dez minutos pra enrolar”
“Tá bem então. Quero começar dizendo que tô zero preparada pra isso.” (risos)

Delirium Nerd: Gillian, fale um pouco sobre você e algo que você gostaria que as pessoas soubessem.

Gillian Rosa: Bem, não consigo falar muito sobre mim, mas gostaria que as pessoas soubessem que sou o contrário daquilo que aparento ser nas publicações, acho que lá é apenas minha parte boa e a ruim o pessoal não conhece. Isso faz com que quando elas venham conversar comigo tenham uma ideia pré-concebida de mim que não é real.

DN: Você começou cedo a desenhar. De onde surgiu a vontade?

GR: Sempre fui sozinho, meus amigos eram o lápis e o papel, meus pais eram professores. Haviam muitos livros em casa, os quais eu ficava folheando e encontrando várias tirinhas da Laerte, do Glauco, do Adão, o que acabou despertando o interesse. Então comecei a copiar, mas logo veio a vontade de querer fazer mais, criar mesmo.

“Espera, deixa eu formular” (risos)

DN: Algumas das suas artes com maior visibilidade abordam paródias musicais. Eu comecei na Delirium escrevendo sobre música, então preciso perguntar: de onde surgiu o seu gosto musical?

GR: As músicas que mais gostei de ter utilizado nas minhas artes foram músicas da infância/adolescência, como KLB, anos 2000. Sempre que escuto música gosto de criar paródias na minha imaginação, brincando, as colocando em situações que não condizem com a letra – por exemplo, ela fala sobre amor e tento colocar outro cenário. Fico rindo sozinho dessas coisas, aí comecei a fazer e o pessoal gostou.

Gillian Rosa

DN: Mudando um pouco o tema das perguntas, é possível encontrar influências femininas no seu trabalho?

GR: Bastante! Sirlanney, Ilustra, Lu; Laerte, Chiquinha, Raquel (Aquele Eita!), Bianca (Anna Bolenna – A perturbada da corte). Tem muitas meninas que acompanho.

(pausa para tietarmos a Sirlanney e nos lamentarmos por ela não ter comparecido ao evento)

DN: E representatividade feminina, como você lida?

GR: Tenho um pouco de pé atrás. Tem momentos que faço, mas tem momentos nos quais me sinto falso por não ter a vivência necessária para isso. Existem algumas tirinhas que quero passar para outras ilustradoras, pois acho que não é meu local de fala e não me sinto bem tratando de um assunto que não sofro, não passo (sobre situações de machismo). Mas tento colocar alguns detalhes sobre mulheres que o senso comum não gosta.

DN: Três ilustradores que você indica?

GR: Oi, Aure; Éff e Bom Dia e Tal.

DN: Falando sobre o seu livro, o que a pessoa que comprá-lo pode esperar?

GR: É mais uma mensagem, o título é “Rindo, Mas Não Deveria” porque todo dia eu ia num bar e mesmo passando por diversas dificuldades ao falar sobre elas tinha crises de riso. Fala sobre rir, mesmo na hora que não se deve. É até uma coisa que gosto de falar, que a desgraça está aí, não podemos fazer nada – ela virá de qualquer jeito. Então, temos que saber lidar, fazer com que ela seja nossa amiga.

DN: Uma mensagem que você gostaria de passar para as pessoas que estão começando agora.

GR: Ah, o negócio é só fazer. Todo mundo diz isso, mas é o que se tem a dizer. Algo que eu gostaria de dizer para quem está começando e que isso ficasse na cabeça é que quando comecei eu não tinha nada, só trabalhava com design/publicidade e não gostava. Nunca que imaginaria que chegaria aqui (sobre estar na CCXP como artista e ter conhecido pessoas que admira desde criança) e se cheguei foi por causa do PONGO. Eu apenas comecei a fazer tudo o que vinha em mente, e mesmo não gostando, mesmo não tendo nada a se ilustrar eu fazia um quadrinho de mim não pensando em nada, sem parar. Não sou “grande”, mas consegui chegar em alguns lugares que não chegaria se não fosse pelo PONGO, a página. É realmente algo no qual não consigo parar de pensar.

DN: Finalizando, mais uma vez, há algo que você quer que as pessoas saibam?

GR: Sarrar para não chorar, sério. Quando cheguei em Uberlândia/MG (o autor é originário de Parnaupebas/PA) não conhecia ninguém, o PONGO nasceu lá e eu colocava para expôr em baile funk, era o público que eu queria. Comecei a dançar, não gostava, mas foi a melhor coisa da minha vida ter começado, me fez ver o mundo de outro modo. Parece que é uma hora na qual a tristeza vai embora, assim como na música e na leitura de humor. Na verdade em toda linguagem artística, é um momento no qual saímos do mundo, dos problemas, acabamos indo para o problema dos outros, pois acabamos vivendo a situação que a pessoa está trazendo para o contexto. E é isso (risos). Sarrar para não chorar.

“É isso, Gillian. Olha só, você tinha dez minutos e chegamos em onze. Você tá atrasado.”

Gillian Rosa
Foto: Vithor Laureano

E foi assim,  com um pôr-do-sol visto da marquise da São Paulo Expo com direito à trechos de céu limpo, nuvens de chuva e aviões passando, que encerramos a entrevista e o acompanho de volta para o estande da Shockdom Brasil, na rua R.

“Gillian Rosa é paraense, dramático e nascido em 1993. Sua carreira começou aos 17 anos, fazendo charges políticas para o Correio do Pará, mas foi só em 2016 que criou o PONGO. Seus quadrinhos e charges refletem seus próprios questionamentos e experiências, num diário tragicômico que é o espelho do autor. Este é seu primeiro livro.”

Independente da amizade firmada mesmo antes da CCXP, ao chegar em casa tenho a confirmação de duas amigas que tiveram contato com o livro e tirinhas pela primeira vez: o menino é um gênio. Trazendo ilustrações antigas e inéditas, “Rindo, mas não deveria” além de leitura fácil é garantia de risadas – são paródias musicais, representações da vida, artes em geral e sacadas brilhantes. Sem dúvidas, vale cada centavo gasto.

Leia também:
[NOTÍCIA] Avec Editora lançará esse ano diversas obras com protagonistas femininas!
[QUADRINHOS] Angola Janga: Uma História de Palmares (resenha)
[QUADRINHOS] Sopa de Lágrimas: as mulheres de Palomar e o realismo mágico

Sinopse do livro:

“Existe uma certa ironia nas pequenas tragédias cotidianas, sejam elas um coração partido, uma crise de ansiedade, uma música que te faz lembrar do ex que te deu um fora, o fato de não saber o que quer da vida ou mesmo a preguiça de levantar da cama de manhã. Neste livro imperdível, que nasce da webcomic PONGO, nos deparamos com essas situações e muitas outras, vistas sob a ótica tragicômica do autor. Um livro para rir de nervoso.”


Gillian Rosa

Rindo, Mas Não Deveria

Gillian Rosa

Shockdom Brasil

112 páginas

Se interessou pelo quadrinho? COMPRE AQUI!

 

Escrito por:

28 Textos

Estudante de Produção Cultural, social media na Cérebro Surdo Produções e colunista no portal Timbre. Também proprietária das melhores fotografias em cafés.
Todos os textos
Follow Me :