Mulheres na Geladeira: até quando a morte de mulheres será um mero recurso de roteiro?

Mulheres na Geladeira: até quando a morte de mulheres será um mero recurso de roteiro?

Em 1999, a escritora Gail Simone notou um padrão perverso nas histórias em quadrinho de super-heróis: muitas mulheres eram mortas, estupradas, feridas ou perdiam seus poderes para motivar seus companheiros masculinos. Ela criou o termo “Mulheres na Geladeira” a partir de uma história do Lanterna Verde, em que ele chega em casa e encontra sua namorada morta e enfiada na geladeira de sua casa. Despertando revolta e transtorno, isso motiva Lanterna Verde ir atrás do vilão e derrotá-lo.

Um problema maior é que esse padrão envolvia não só personagens secundárias, mas também mulheres protagonistas ou personagens importantes das histórias em quadrinho. Para chamar atenção para esse problema, Gail Simone criou o website Women in Refrigerators, com uma enorme lista dos quadrinhos onde mulheres eram “colocadas na geladeira”.

Não é de se espantar que as adaptações de vários desses quadrinhos fossem reproduzir o tropo também no cinema. Aviso: este texto traz alguns spoilers dos filmes de super-heróis e dos filmes dirigidos pelo Christopher Nolan!

  • Em Batman – O Cavaleiro das Trevas, o Coringa explode Rachel Dawes, o interesse romântico de Batman, para atordoá-lo ainda mais.

  • Em O Espetacular Homem Aranha 2 – A Ameaça de Electro, Gwen Stacy morre após uma queda, causando enorme dor em seu namorado.
  • Em X-Men Apocalipse, a filha e a esposa de Magneto são mortas por soldados, fazendo-o se vingar e retornar a ser o vilão que era.
  • Em X-Men Primeira Classe, a mãe de Magneto é morta na frente dele pelo vilão, para fazê-lo despertar seus poderes mutantes junto com sua fúria, e isso também o faz posteriormente se tornar um assassino em busca de vingança.
  • Em Wolverine – Imortal, Wolverine é perturbado em seus sonhos pela memória de Jean Grey, a quem ele mesmo assassinou no X-Men – O Confronto Final. A memória dela serve apenas oferecer um conflito interno ao personagem dele, e logo desaparece assim que ele encontra um novo interesse amoroso.
  • No péssimo X-Men Origens: Wolverine, a namorada de Wolverine é morta para motivá-lo a ir atrás do vilão. Isso antes de descobrirmos algo pior: que ela fingiu a própria morte para envolver Wolverine em um plano mirabolante, algo no nível daquele outro péssimo filme em termos de representação feminina, Garota Exemplar. A franquia X-Men definitivamente tem um problema sério com “mulheres na geladeira”.

Wolverine chora a morte de sua namorada, Silver Fox, em “X-Men Origens: Wolverine”

O problema deste tropo não é retratar a morte de personagens femininas em si, mas sim usá-la como mero recurso de roteiro para motivar um homem. A morte de personagens como Gwen Stacy revolta ainda mais, por ser uma pessoa tão importante na história do Homem-Aranha. O recurso soa barato e gratuito, parecendo mais preguiça dos roteiristas do que necessária à trama. Adaptações têm a chance principalmente de mudar o que era ruim na obra original.

Claro que homens às vezes também são colocados em situações como essa. Por exemplo, no primeiro filme do Homem-Aranha, a morte do tio Ben é o que motiva Peter Parker a usar seus novos poderes para se tornar um combatente do crime. Já em Operação Big Hero, a morte de Tadashi tem um grande impacto em seu irmão mais novo, Hiro, e o motiva a transformar Baymax, um robô-enfermeiro criado pelo irmão, em um robô de luta.

Hiro testemunha a morte de seu irmão Tadashi, em “Operação Big Hero”.
Leia também:
>> [CINEMA] Nascida Sexy Ontem: Uma fantasia masculina de poder
>> [CINEMA] O Fantasma da Ópera: A escolha entre dois homens abusivos
>> [CINEMA] “Detenham aquela mulher!”: Controle e misoginia nos filmes dos X-Men

Também há casos em que a morte de uma mulher não é um recurso barato. Em Capitão Fantástico, o falecimento da esposa de Ben Cash causa um impacto profundo nele e em seus vários filhos. Mas o evento permeia o filme inteiro, e a trama gira em torno dos personagens concretizarem o último desejo dela. A morte também é tratada de forma respeitosa, não sendo um evento pontual que serve somente para motivar o marido. A memória da esposa permanece viva durante todo o filme.

O problema com o tropo das “Mulheres na Geladeira” é sua grande repetição, o que passa a impressão de que personagens femininas podem ser facilmente descartadas, enquanto homens aparecem em número muito menor nessa situação. E isso não acontece só em filmes de super-heróis.

Em Gladiador, o que motiva Maximus a virar um assassino é a morte de sua esposa e seu filho, que aparecem enforcados quando ele volta pra casa um dia.

Em Rogue One – Uma História Star Wars, a esposa de Galen Erso e mãe da protagonista Jyn Erso, é morta logo no começo do filme pelo vilão, apenas para provar como os agentes do Império são cruéis e frios. Ela nunca mais é mencionada ao longo do filme. Galen também é morto mais à frente, mas ele tem um papel muito maior dentro da história, ao contrário de sua esposa.

A mãe de Jyn Erso, pouco antes de morrer, em “Rogue One”.

O diretor Christopher Nolan também é famoso por colocar suas personagens femininas na geladeira:

  • Em Amnésia, Leonard tem que descobrir quem assassinou brutalmente sua esposa, enquanto lida com os mistérios de sua perda de memória.

  • Em O Grande Truque, as esposas dos dois protagonistas acabam morrendo em algum ponto do filme! Apenas para simbolizar a tragédia que a competição entre os dois mágicos traz às suas vidas.
  • Em A Origem, a esposa de Leonardo DiCaprio morre e fica reaparecendo em seus sonhos para assombrá-lo.
  • Em Interestelar, a esposa de Matthew McConaughey já está morta quando o filme começa.

Realmente, Nolan não é um cineasta muito hesitante quando o assunto é matar mulheres para motivar os personagens masculinos. O já mencionado Batman – O Cavaleiro das Trevas também é dirigido por ele.

Julia Angier é assassinada dentro de um tanque de água em “O Grande Truque”.

É preciso que os escritores de todo tipo de mídia tenham mais criatividade na hora de encontrar fontes de motivação para seus personagens. Além de ser um recurso preguiçoso, o “Mulheres na Geladeira” se baseia em ideias machistas de que mulheres devem servir apenas como apêndice na história de um homem, assim como o outro tropo famoso da “Donzela em Perigo”. Está na hora de aposentar esses elementos dos quadrinhos, da literatura, dos videogames e do cinema.

Uma das soluções está em contratar mais mulheres para fazer parte do time de roteiristas, como a própria Gail Simone, que acabou integrando o time de Mulher-Maravilha em 2007, sendo a primeira mulher a fazê-lo em 66 anos de existência da super heroína nos quadrinhos. Que cada vez mais mulheres tenham a oportunidade de fazer o mesmo, e esperamos que a representação das personagens femininas certamente melhore de acordo.

Escrito por:

79 Textos

Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
Todos os textos
Follow Me :