Porque Outlander é um romance feminista

Porque Outlander é um romance feminista

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Artigo originalmente publicado por The Conversation, traduzido parcialmente por Maria Amélia Fleury Nogueira. Aviso: o texto possui spoilers da 1ª temporada da série Outlander.

Baseada na série bestseller de romances históricos de Diana Gabaldon, Outlander segue as aventuras da viajante no tempo Claire Randall. 

Claire (Caitriona Balfe) é uma enfermeira que serviu na Segunda Guerra Mundial e que, no episódio de estreia da série, tenta se reconectar com seu marido após a guerra, fazendo uma viagem para a Escócia. Mas quando Claire visita um círculo de pedras, ela é jogada misteriosamente de volta no tempo, no século 18. Agora, Claire precisa confiar em seus instintos e na boa vontade do Clã McKenzie, que a encontrou e a levou para casa – e se recusou a deixar que ela fosse embora.

Uma Heroína com Desejos

Balfe está carismática como uma heroína direta e dona de si e que não tem medo de expressar suas opiniões e desejos. Maureen Ryan do Huffington Post, escreveu:

“Outlander acabou com muitas das ideias pré-concebidas do sexo na televisão – como é filmado, para quem é filmado, por quem é feito e sobre quem é feito.”

Neste sentido, o episódio de estreia impõe o ritmo do restante da série com firmeza e rapidez. A primeira cena de sexo explícito ocorre entre Claire e seu marido Frank (Tobias Menzies, roubando a cena) enquanto eles exploram o castelo escuro e em ruínas, onde Frank pratica sexo oral em uma Claire totalmente vestida. O desejo de Claire está em primeiro plano enquanto a cena minimiza o potencial para a excitação voyeurística que o corpo dela causaria.

Ao longo da série, os desejos de Claire tendem a guiar o olhar da câmera. Em particular, o episódio 7 (“O Casamento”, escrito e dirigido por duas mulheres, Anne Kenney e Anna Foerster) gerou muita discussão sobre o uso do olhar feminino.

O olhar masculino, como definido originalmente pela crítica de cinema Laura Mulvey, é o olhar tanto do espectador masculino quanto da câmera. Este tipo de olhar tipicamente erotiza e objetifica o corpo feminino na tela. A prevalência do olhar masculino no cinema e na televisão sugere que as mulheres, tanto como agentes quanto como espectadoras, são menos importantes que o público masculino heterossexual para quem este olhar é produzido.

Por outro lado, o olhar feminino é feito para um público feminino heterossexual que consegue prazer assistindo o corpo masculino erotizado (como foi mostrado recentemente por Lili Loofbourow, da Slate). Na série Outlander, o corpo de Jamie Fraser (Sam Heughan), o ruivo que é o interesse romântico do século 18 de Claire, é repetidamente mostrado nu. Neste aspecto, como observa Kayla Upadhaya no AV Club, a série enfatiza o direito da mulher heterossexual de olhar.

No episódio “O Casamento”, no qual Claire se encontra casada com Jamie por necessidade política (cometendo, dessa forma, bigamia em uma viagem no tempo), a primeira experiência sexual do casal subverte a glamourização típica de uma cena de sexo. Jamie é virgem e Claire é uma mulher mais velha e experiente. Ambos os personagens permanecem vestidos durante a cena. O sexo é breve e, após o ato, Jamie está claramente extasiado enquanto Claire está claramente decepcionada.

Quando eles tentam pela segunda vez, Claire toma a frente e manda Jamie se despir para ela. E ele o faz, com a câmera permanecendo focada nos braços musculosos e nas nádegas nuas de Heughan. Eventualmente, Claire também fica nua, mas o sexo que ocorre ainda é um pouco cômico, já que Jamie confunde o orgasmo de Claire com uma dor física. Finalmente, Jamie confessa que sempre achou que sexo deveria ser feito por trás – como ele sempre viu os cavalos que ele treina fazerem.

A sinceridade e inocência de Jamie nessa cena subvertem as expectativas de um herói romântico sedutor que aparece nos filmes e na televisão, mostrando que honestidade e intimidade podem ser tão atraentes em um homem quanto a confiança sedutora de um Casanova.

A vontade de Outlander de quebrar com as convenções de gênero, erotizando a forma masculina e seguindo o desejo da heroína feminina, foi parabenizada como sendo um passo à frente rumo a uma dinâmica mais feminista na televisão. Porém, a série também oferece desafios sérios a esta extrapolação ávida (e, no fim das contas, reducionista) em classificá-la como feminista ou não.

Nos primeiros oito episódios da primeira temporada, Claire é ameaçada com violência sexual nada menos do que quatro vezes. O uso do estupro como uma ferramenta melodramática da trama foi parcialmente justificado como sendo a realidade de uma mulher que enfrenta a sociedade patriarcal do século 18. 

No entanto, a veracidade histórica parece ser uma desculpa frágil para o que seria, na verdade, usar o perigo sexual para gerar emoção na narrativa. A pergunta permanece se Outlander explora muito ou não essa alegoria – ou, pelo contrário, se a série consegue efetivamente usar a segurança fragilizada de Claire como uma plataforma para discussão sobre a cultura de estupro que ainda existe no século 21.

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Apenas mais um romance de banca?

Talvez o mais interessante sobre a resposta a série Outlander é a forma paradoxal como, enquanto os críticos elogiam a série pelo uso do “olhar feminino”, eles também tentam distanciar o sucesso de Outlander do seu gênero de texto romântico.

O protagonista Sam Heughan disse à crítica da revista New Yorker, Emily Nussbaum, que Outlander não é “apenas” um romance, que é “mais” do que um romance de banca indulgente. Antes da estreia da série, um artigo na revista Vanity Fair perguntava: A nova série Outlander conseguirá ser mais do que apenas um romance de banca?

Segundo o artigo, a série não faria sucesso devido ao seu “gênero de nicho”, e teria que: encontrar uma forma de interessar mais do que apenas as mamães. Em outras palavras, não pode ser só mais um Cinquenta Tons de Xadrez. Ainda que chocantemente condescendente, esta opinião com relação ao gênero de romance é muito comum.

O que se presume nesse artigo é extremamente anti-feminista: o fato de que todos os romances são fantasias escapistas com sexo explícito, que o romance é um “gênero de nicho” que não consegue interessar seriamente a um publico maior (sim, aparentemente as mulheres são um público de nicho!), e que não consegue abordar assuntos sérios com peso realmente dramático.

Na verdade, o gênero romance produz e vende muito mais que todos os outros gêneros de ficção. É uma categoria ampla, com muitos sub-gêneros que exploram muitos modelos diferentes de relacionamentos entre homens e mulheres. Livros de romance são lidos por mulheres de todas as idades, escolaridades, classes e raças.

No entanto as leitoras de romances são infelizmente e injustamente muitas vezes percebidas como consumidoras reprimidas e ingênuas. Como gênero, o romance continua a ser denegrido, em grande parte, devido à sua associação cultural com as mulheres, com a feminilidade, intimidade emocional e com o prazer sexual da mulher.

Mas, ao contrário do que ocorreu com os críticos, o sucesso de Outlander não surpreende as leitoras de romance. Elas já sabem que um drama protagonizado por mulheres, um drama que leva os desejos das mulheres a sério, anda em falta no mercado e é digno do nosso tempo e de nossa consideração crítica. Essas leitoras talvez estejam surpresas apenas com o tempo que levou para que a televisão percebesse isso.


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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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