Povo eterno não tem medo: entre a resistência e os estilhaços de conflitos armados

Povo eterno não tem medo: entre a resistência e os estilhaços de conflitos armados

Desde sua independência, Israel tem sido campo de disputas e conflitos armados entre o governo judeu (com apoio americano) e a população árabe que rodeia a região. Aqui, no ocidente, o que chega do conflito étnico e militar são relatos de selvageria, ou de interesses políticos e econômicos colocados acima dos direitos humanos. Isso se dá, principalmente, pela nossa falta de conhecimento sobre a região, o que nos deixa tão distantes de compreender, ou até imaginar como vivem de fato as pessoas nesses lugares. Nestes casos, a literatura produzida se torna quase um documento histórico, uma forma de acessar o imaginário coletivo e diminuir, por meio da leitura, o abismo que impede nossa compreensão de mundos distantes da nossa própria realidade.

O livro Povo eterno não tem medo, da autora Shani Boianjiu, é um mosaico de histórias e experiências das quais ela mesma foi parte: como toda mulher habitante do Estado de Israel, Shani cumpriu dois anos de serviços militares obrigatórios após completar o ensino médio. Essa experiência comum entre as jovens é o mote do livro, que costura em sua narrativa o passado dos conflitos e das populações que sobreviveram à guerra constante, juntamente com as marcas e a destruição da história, de civilizações e de famílias, com a suspensão temporal do presente no serviço militar e a projeção de um futuro quebrado, fosco e inconstante. A guerra é tão presente quanto incompreensível.

Israel também é a casa dos que, durante milênios, foram expulsos: sendo o povo judeu um povo diaspórico, poucas vezes nos atentamos que essa mesma diáspora impôs a eles a multiplicidade. São tanto os judeus do Iêmen, do Iraque e do Egito quanto os provenientes da Alemanha, Polônia e Inglaterra, todos habitando a região. As personagens principais de Shani revelam esse multiculturalismo que não desabona a unidade da religião. Nesse pequeno território, habitado por tantas culturas diferentes, é possível traçar as hierarquias sociais ao longo da narrativa, que usa da ironia, de descrições secas e precisas para descrever tanto o estado mental de suas personagens quanto à visão de mundo da autora. Há ali, além de uma crítica à sociedade judaica, um retrato do pensamento das pessoas que habitam a região. A autora fala de seu povo colocando-se como parte dele e se pondo à prova.

Povo eterno não tem medo
Edição da Alfaguara
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Em O Povo Eterno Não Tem Medo, o romance segue a amizade de três meninas que viviam na mesma vila de Israel e que se separam na hora de entrar para o treinamento militar. O recrutamento é destino certo, porém, dentro do serviço, são diversas as opções de carreira que se apresentam e nenhuma das garotas sabe exatamente onde será colocada quando entrarem no exército – e muito menos o que o farão depois que saírem dele. De origens diferentes entre si, Yael, Avishag e Lea também vivem situações familiares distintas, traumas particulares e destinos próprios. É por meio dos pontos de vista dessas garotas (e da exploração de perspectivas de outras personagens que habitam a trajetória de cada uma) que a autora explora um impulso por aquilo que as mulheres do ocidente também procuram: uma voz própria, um caminho pessoal. Em meio aos treinos de tiro, às fiscalizações nas fronteiras e ao trabalho burocrático entediante, a juventude e os sonhos ficam em modo de espera, enquanto elas sobrevivem e se acostumam a cada dia que passa e ao clima constante de provável conflito.

Shani também explora anedotas. Em certo momento do romance, Lea, encarregada da vigilância das fronteiras, se depara com três manifestantes do lado palestino. Eles protestam contra o fechamento da passagem, usando apenas um cartaz, e tentam negociar com o lado israelense uma maneira de serem reprimidos para que a notícia chegue nos jornais. Existe a questão do telefone vermelho, que precisa ser constantemente vigiado e que jamais toca, a não ser quando finalmente tocou na história de alguém do passado.

Há também um momento em que as garotas, escaladas para a vigia de uma torre de comunicação e completamente sozinhas na região, tiram as roupas e pegam sol durante a tarde vazia. Mas como não existe fronteira não assistida, a situação acaba causando um incidente diplomático com os guardas do outro lado, que começam a observar as garotas nuas. Nessas passagens, somos obrigadas a lembrar que sentimentos comuns da vida cotidiana, como o tédio, a depressão e o medo, continuam presentes nessas situações extremas dos conflitos armados. Soldados são pessoas e não há rigidez de treinamento capaz de anular sensações humanas.

Povo eterno não tem medo
A autora Shani Boianjiu

A autora aborda também a misoginia latente, mesmo em um Estado com exército misto. O estupro, a violência e o abuso se intensificam antes e depois dos conflitos, e é de conhecimento geral que soldados homens costumeiramente abusam das mulheres escaladas depois de uma vitória, ou derrota nos campos de batalha. A visão do “outro” também é explorada em várias passagens do romance, e sendo Israel uma nação judaica rodeada pelo mundo árabe, é tocante como a desumanização do desconhecido permanece essencial tanto para a sobrevivência quanto para a manutenção da maneira imperialista de lidar com os conflitos étnicos e sociais.

Povo Eterno Não Tem Medo é composto de várias vozes e, ao mesmo tempo, um panorama íntimo de algo inteligível para qualquer mulher do mundo. O romance traz questões universais à tona, descreve sentimentos partilháveis e nos faz perguntas inquietantes. Shani descreve situações extremas e equipamentos de artilharia tão bem quanto pinta paisagens de sonhos possíveis, ironizando, às vezes de forma cruel, nossa própria ideia fantasiosa de mundo, que nos tem falhado ao longo da história repetidamente.


Povo eterno não tem medoPovo Eterno Não Tem Medo

Shani Boianjiu

Editora Alfaguara

280 páginas

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Feminista Raíz
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