As personagens femininas da Ghibli: Rikako, Arrietty e Sheeta

As personagens femininas da Ghibli: Rikako, Arrietty e Sheeta

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O Estúdio Ghibli esse ano completa 34 anos e, em sua curta história de criações, causou um grande impacto em toda a indústria cinematográfica. Além de reformular o que a sociedade pensava ser uma animação, criando narrativas não apenas para crianças, mas também para um público mais adulto, o estúdio se propõe com maestria ao questionamento de como a sociedade retrata e trata mulheres.

O estúdio abre caminhos, mesmo que indiretos, para que se repense toda a estrutura do que é feminino ou masculino, incentivando e colocando personagens femininas tão icônicas e donas de suas próprias narrativas em seus principais filmes. Além disso, foi um grande marco para que o ocidente passasse a consumir mais produções orientais, reduzindo o preconceito que era concebido a produção de animes, chegando a ser indicado a diversos Oscars e inclusive ganhando por “A Viagem de Chihiro”, em 2003.

Esse especial (que você pode conferir aqui todas as outras partes) foi quase como uma carta de amor aos grandes cineastas e produtores e seus trabalhos que o estúdio Ghibli veiculou, e para marcar o fim desse especial, vamos acompanhar a trajetória de Rikako, Sheeta e Arrietty.

Rikako, de “Eu Posso Ouvir o Oceano” (Tomomi Mochizuki, 1993)

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Em busca de querer incentivar seus artistas mais jovens e inexperientes a criar suas histórias, o Estúdio Ghibli abriu uma possibilidade destes trabalharem e ficarem encarregados de uma produção mais simples e também mais barata. Desse modo, em 1993 o estúdio lançou “Ocean Waves”, ou “Eu Posso Ouvir o Oceano“, dirigido por Tomomi Mochizuki, que era estudante de Hayao Miyazaki, um filme para televisão de pouco mais de uma hora que era baseado em uma light novel de mesmo nome, lançada em 1990.

Um dos filmes mais modestos e menos celebrados de todo o estúdio, e também o primeiro do estúdio que não foi dirigido pelos criadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, se propõe a retratar o processo de amadurecimento de três adolescentes que se envolvem em um triângulo amoroso implícito e que, mesmo simples, cumpre muito bem o que promete: um filme despretensioso e inteligente.

O longa conta a história de Taku, um aluno de ensino médio que mora em uma pequena cidade litorânea chamada Kochi, e possui um melhor amigo chamado Yukata, um rapaz sério, estudioso e na frente dos projetos da escola, e estes são muito unidos desde a pré-adolescência. No penúltimo ano do colégio, então, uma menina chamada Rikako, vinda de Tóquio, é transferida para a escola destes, ganhando o afeto dos dois garotos, o que pode acabar causando um abalo na amizade entre eles. A trama começa quando Taku, ao caminho de uma reunião de sua antiga classe, pensa ter visto uma de suas antigas colegas e passa a recordar sua trajetória no colégio, quase como “Only Yesterday” (comentado no especial), mas menos intimista.

Apesar de ser considerado o protagonista do longa, o personagem Taku funciona mais como um observador de toda a trama, quase que imitando o próprio espectador do filme, para que este possa acompanhar a história de Rikako, que na verdade é o verdadeiro foco do filme. A menina, vinda de Tóquio, aos olhos daqueles adolescentes de uma pequena cidade litorânea,  que não concebem como é viver em uma grande metrópole, acaba representando isso: o excêntrico, o novo, o diferente; esta representação acaba por intimidar alguns alunos, fazendo com que Rikako torne-se solitária e com a aparência de sempre estar triste.

No primeiro momento do filme vemos apenas o que Taku conhecia dela, ou seja, uma figura distanciada que é reconhecida por ser muito boa tanto nos esportes quanto nas suas notas na escola em geral, considerada uma das melhores alunas mesmo em tão pouco tempo que chegou naquele espaço. Rikako, observada por Taku, é vista quase como um ser divino. Perfeita, boa em tudo que faz, distante de todos, uma figura fria e distante, e essa visão vai crescendo em sua mente, enquanto, ao mesmo tempo, seu amigo Yukata conta histórias da menina.

Mais tarde, em uma viagem da turma, Rikako pede dinheiro emprestado a Taku, alegando ter perdido o seu. Quando Taku e Rikako finalmente interagem entre si, é aí que temos outra visão da garota. Em vez de um ser divino, sem defeitos, o garoto passa a percebê-la como uma pessoa em todas as suas facetas, reconhecendo seus defeitos e vislumbrando como ela é uma garota mimada e sem escrúpulos, não sendo gentil ou solidária com seus colegas. A alegação de ter perdido seu dinheiro era apenas uma mentira para mascarar o fato de que pediu dinheiro emprestado para usá-lo para conseguir viajar.

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Mesclando entre esses sentimentos de raiva e empatia, Taku nos mostra outra faceta daquela personagem – e a mais importante e interessante. As fragilidades começam a se destacar e aí que o espectador percebe que aquela postura distante, fria e sem amigos é uma máscara para esconder seus sentimentos e seus problemas, sobretudo devido o divórcio dos seus pais. Essa separação faz com que ela se mude para Kochi, distanciando-se de onde sempre morou, dos seus amigos e principalmente do seu pai.

Toda a reação imatura de Rikako é um reflexo de sua idade e da sua dor com a mudança bastante significativa da sua vida e é isto que torna a personagem tão interessante. Geralmente em filmes de amor idealizam ao extremo as personagens femininas, como se estas não fossem humanas, mas essa animação faz justamente o oposto, mostrando que somos personagens reais, complexas, repletas de defeitos, que temos passado e este implica nas nossas ações e no nosso crescimento.

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Conforme Taku muda sua visão sobre a garota, o espectador também muda. Inicialmente vemos essa completamente distante, sem defeitos. Posteriormente sentimos raiva dela por ter enganado Taku. Logo após passamos a compreender suas ações e sentimos empatia por essa, até que ela toma outra atitude complicada e deixa o personagem com raiva novamente. Os sentimentos que a rodeiam são sempre muito maleáveis, mostrando como é um relacionamento de verdade, passando da admiração para a raiva, para a pena e para o afeto, e isso acontece muito rapidamente, formando uma paixão que nem o próprio garoto percebe que sente até os momentos finais do filme, tornando os personagens mais humanos e reais.

A narrativa apresenta, pelos olhos de um jovem adulto, o processo de amadurecimento, não só seu, mas também de seus colegas. O filme apresenta com maestria como mulheres devem ser retratadas de uma maneira real e não fantasiosa, afastando-se da imagem sexualizada ao extremo, da mulher que não pensa em outra coisa além de seu parceiro ou que não possui nenhuma complexidade. Rikako é uma das personagens mais humanas de toda a história das animações.

Arrietty, de “O Mundo dos Pequeninos” (Hiromasa Yonebayashi, 2010)

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Sho e Arriety em cena de “O Mundo dos Pequeninos” (Imagem: reprodução)

O Mundo dos Pequeninos“, de 2010, é o filme de estreia do diretor Hiromasa Yonebayashi, animador conhecido do estúdio. O filme é baseado no livro “The Borrowers”, da escritora britânica Mary Norton, e foi adaptado por ninguém mais ninguém menos que Hayao Miyazaki.

A animação conta a história de Sho, um garotinho que possui uma doença rara de coração e vai passar as férias na casa de infância de sua mãe, no campo, em que mora a sua tia e uma senhora chamada Haru, a empregada da casa. Sem que essas pessoas tenham conhecimento, há, na verdade, outros três moradores naquela casa, uma família de pessoas pequeninas, que residem abaixo do assoalho da casa, e é aí que aparece Arrietty. Ela e seus pais são de uma espécie de criaturas chamadas de mutuários, seres que se assemelham aos humanos, só que sendo muito – muito – menores. Esses seres moram há bastante tempo abaixo daquela casa, sempre bastante cautelosos para que não sejam vistos pelos humanos, pegando coisas emprestadas destes, como alimentos e objetos, e é daí que vem seu nome.

O garoto, por conta de sua doença, tem o menor contato físico possível com tudo ao seu redor. Seus pequenos momentos de felicidade começam graças à aparição de Arrietty. Porém, por conta desses “empréstimos”, a empregada da casa passa a se irritar e busca aniquilá-los. No seu caminho há Haru, uma inconveniente empregada que busca descobrir se eles existem de verdade para aniquilá-los, a fim de encontrar paz nos seus afazeres.

A personagem Arrietty, apesar de não tão dissecada quanto outras companheiras do estúdio, mostra-se sempre determinada a ajudar sua família e mostra-se uma ótima amiga para o garoto Haru. Nem sempre é necessário que existam grandes tramas ou clímax complexos para que essas personagens femininas demonstrem sua preciosidade, e é esse um dos casos. Mesmo que o longa retrate uma história simples e doce, demonstram bons personagens para que meninas ao redor do mundo possam se inspirar.

Sheeta, de “O Castelo no Céu” (Hayao Miyazaki, 1986)

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Sendo o primeiro filme produzido oficialmente pelo Estúdio Ghibli, logo após o estrondoso sucesso comercial de “Nausicaä do Vale do Vento”, em 1984, do então criador do estúdio e diretor Hayao Miyazaki, o longa “O Castelo no Céu” conta a história de Pazu, um menino que vive em uma pequena vila industrial e trabalha em uma mina. Em um certo dia, ele vê uma menina caindo do céu, quase como se estivesse flutuando, e não caindo, de forma bem lenta. Impressionado, a leva para sua casa.

Esta menina é Sheeta, que afirma estar sendo perseguida por dois grupos: piratas e militares. Estes estão buscando o seu colar, que, aparentemente, dá certos poderes mágicos a ela. Posteriormente, o espectador descobre que a menina é a descendente perdida e também a princesa por direito de uma antiga civilização chamada Laputa. Esta civilização flutuava no céu e dominou o mundo há muitos anos, sendo esse o motivo para estarem a perseguindo.

Essa civilização, sendo quase como uma lenda popular, jamais vista pela população atual (no geral), foi mencionada pelo pai de Pazu, que acreditava fielmente na existência de Laputa, dizendo que havia a visto em uma de suas aventuras enquanto aviador, porém ninguém nunca acreditou nele e este faleceu sendo chamado de mentiroso. Desse modo, Pazu cresceu com interesse em descobrir esse lugar misterioso, principalmente para limpar a honra de seu pai. Tornando-se amigos, retomando o sentimento tão bonito de quando somos crianças e criamos amizades tão rapidamente, estes aliam-se ao grupo de piratas que antes os perseguiam; assim, fogem dos soldados e decidem procurar pela terra de Laputa, ou o que restou dela, voando pelos céus.

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Sheeta e Pazu em cena de “O Castelo no Céu” (Imagem: divulgação)

Vemos aqui, mais uma vez, uma protagonista feminina independente que apresenta uma subversão de estereótipos que limitam os papéis atribuídos às mulheres. As heroínas de Miyazaki, como já antes abordadas, não são simplesmente essa figura distante e divina; pelo contrário, estas destacam-se por serem tão humanas e únicas, trazendo sempre sua identidade e personalidade de forma tão distinta.

Comparando com uma trama semelhante, Sheeta, ao contrário de sua antecessora Nausicaa, não é uma princesa de ação, vivenciando a guerra diretamente, próxima a todo momento da violência daquele espaço. Esta é mais ponderada e introvertida. Seu comportamento varia entre momentos de atitude direta e inércia, e isto não é um demérito, isso a torna ainda mais única e faz com que muitas garotas se espelhem nesta. Além disso, o longa conta com um protagonista masculino que não está ali para salvar sua colega; na verdade, este mostra-se sempre um amigo muito prestativo, que luta ao seu lado, apoiando e ajudando ela a todo momento, e não tomando seu protagonismo e sua luta.

Ademais, há outro caso interessante que Miyazaki coloca idosas como um ponto importante da história. Quando o espectador se depara com os coadjuvantes antagonistas, os Piratas, liderados pela imponente senhora Dola, se tornam aliados e amigos dos protagonistas. Vemos que Dola é quase como uma matriarca daqueles: forte, inteligente e coordenando as ações destes, é um ponto chave para que encontrem a então Laputa e também torna aquela trupe de piratas uma verdadeira família, mostrando compaixão e adotando as duas crianças como parte de seu grupo.

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Castelo no Céu“, apesar de não ser tão conhecido no ocidente quanto seus outros companheiros de estúdio, é tão importante quanto estes. Foi um grande passo para que o público contemple a grandiosidade do Estúdio Ghibli e também para que criasse a identidade de sempre preocuparem-se em colocar uma protagonista feminina forte como centro de sua própria história.

Conclusão

Miyazaki e Takahata, ao criarem o estúdio procurando fugir de prazos intensos e desestimulantes que condenavam a maneira criativa e lenta que as animações desses criadores eram construídas, criaram um espaço que não é possível apenas se aventurar por histórias fantásticas, divertidas, mas que fazem com que, por um momento, esqueçamos dos problemas de nossas vidas e também criam um universo que é possível superar o machismo que acomete a indústria cinematográfica, através de suas personagens inteligentes, fortes e complexas.

A genialidade dos criadores, roteiristas e produtores dessas animações transcendem completamente a ideia da infantilidade humana que geralmente diversas animações abraçam. “Castelo no Céu“, “O Mundo dos Pequeninos” e “Eu Posso Ouvir o Oceano” e suas personagens femininas só solidificam ainda mais a singularidade que eles conseguem captar para tramas tão únicas, humanas e fortes.

Espero que tenham gostado do especial e tenham se emocionado com as obras tanto quanto eu. Até a próxima!


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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