As mulheres em “Downton Abbey” e o rompimento dos valores vitorianos

As mulheres em “Downton Abbey” e o rompimento dos valores vitorianos

Produzida e exibida originalmente no Reino Unido nos anos 2010-2015, “Downton Abbey” foi uma série dramática com pano de fundo histórico. A série conquistou fãs no mundo inteiro e foi criticamente aclamada, recebendo nomeações e prêmios em grandes premiações de televisão, como o Globo de Ouro e o Emmy.

Dentre essas nomeações, destacam-se as direcionadas para suas atrizes, desde Joanne Froggatt (Anna Bates) até a veterana Maggie Smith (Violet Crawley). Sem dúvida, o elenco feminino da série pertence a um dos mais interessantes da televisão nos últimos dez anos, apresentando atuações impecáveis em personagens femininas fortes e tridimensionais.

Apesar de “Downton Abbey” se passar no início do século XX e retratar os costumes da estrita aristocracia britânica, as personagens femininas são, em geral, muito bem escritas, posicionadas e possuidoras de agência. Inclusive, justamente por se passar no século XX, um período de constantes mudanças na sociedade britânica, acompanhamos também as mudanças do papel da mulher nessa sociedade, tanto em classes mais baixas quanto na aristocracia.

Violet Crowley

Antes mesmo das maiores transformações chegarem, já temos uma personagem que, apesar de presa às convenções e regras morais de sua época, era mestra em utilizar sua posição em seu favor e de acordo com suas vontades. A matriarca Violet Crowley (Maggie Smith) é desde o início uma das forças principais da série, com suas respostas rápidas e secas e sua inteligência inegável, ainda mais no que toca as convenções sociais da época.

Downton Abbey

Com o passar do tempo, o anacronismo das atitudes e crenças de Violet, assim como sua relutância e dificuldade de se encaixar nos novos tempos ficam demarcados. Violet é a Condessa Viúva, avó, mãe e sogra, e um símbolo de uma era que chega ao fim: a série começa no ano de 1912, no fervor do acidente do Titanic, e atravessa acontecimentos chave do século XX para a Grã-Bretanha e para o mundo. Entre estes acontecimentos estão a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola de 1918 e a Guerra da Independência da Irlanda; e cada um deles deixa a sua marca na família e também na sociedade britânica.

Com a Primeira Guerra Mundial, todo o país passa por enormes dificuldades e os efeitos são sentidos desde os criados até a aristocracia. Homens jovens e saudáveis são enviados à guerra e voltam severamente debilitados – se voltarem. Tudo isso traz consequências profundas nas esferas privada e social, para as quais Violet não se encontra preparada. O mundo está cada vez mais diferente do mundo no qual Violet cresceu, e com isso mudam-se também os costumes.

Essa lacuna pode ser melhor sentida quando se analisa a relação de Violet com suas netas Mary, Edith e Sybil, com a prima Isabel, e até mesmo com sua nora Cora. Cada uma dessas mulheres, em especial Isabel e Sybil, reconhece os desafios da nova era e passam a viver de acordo com ela, saindo da zona de conforto e sendo agentes de suas próprias vidas. Ainda que Violet seja, por vezes, uma voz sensata e sensível em tempos difíceis, a constante imposição de seus valores vitorianos causa muitos atritos. Cada uma das transgressões das mulheres de sua família é recebida com comentários sarcásticos e repreensão de Violet.

É curioso que Violet tenha tanto poder na sua comunidade e na sua família, mas, inicialmente, se recuse a aceitar os avanços das outras mulheres: sua agência vem do conhecimento e da manipulação de uma etiqueta muito bem estabelecida, da qual ela mesma é – e foi muitas vezes – vítima. Ainda que com o tempo Violet também tenha de se acostumar com o novo (e, mais adiante na série, tenha atitudes até mesmo progressistas) de início, as mudanças são para ela absurdas e inconcebíveis.

Sybil

Cada uma dessas personagens passa por seus perrengues distintos e individuais, e como se pode ver mais claramente no caso das netas, atravessando um novo período histórico de maneira muito distinta à maneira das mulheres que as precederam em suas posições na aristocracia. Cada uma das três irmãs comete suas próprias transgressões, sendo a mais radical de todas a mais nova, Sybil (Jessica Brown Findlay), que durante a Primeira Guerra decide abandonar os confortos e certezas da sua vida como Lady Sybil, para tornar-se enfermeira. Já antes disso, numa cena lindíssima, é a primeira mulher da família a atrever-se a usar calças.

Não surpreendentemente, interessava-se por política, um interesse visto por sua família (e principalmente da parte de sua avó) como pouco nobre e incabível para uma mulher. Não parando por aí, ela depois se apaixona pelo chofer de sua família, Tom Branson, socialista e irlandês, tendo a paixão, antes iniciada por parte dele, um romance que eventualmente leva ao casamento dos dois, posteriormente ao abandono da sua família e sua mudança para a Irlanda, para viver uma vida simples e fora de tudo o que seria imaginado para alguém de sua classe social.

Mary

Mary (Michelle Dockery), a irmã mais velha, é prometida a diferentes homens durante a série, sendo a razão principal para esses noivados o fato de que, como mulher, ela não teria direito a herdar as posses dos pais, já parte de sua linhagem há muitos anos. A série começa, de fato, com as notícias da morte de seu noivo e primo, um casamento que lhe renderia segurança financeira, social, e garantiria que ela permanecesse na casa da sua linhagem.

Após a morte de seu marido (também um primo), ela encontra-se como herdeira legítima do que é de seu pai e seria de seu marido e filho, e logo (com a ajuda de seu cunhado Branson), toma o seu lugar como uma das gerentes do patrimônio da família Crawley (a única mulher nessa posição, e possivelmente a primeira). Como mãe viúva e também como uma “mulher de negócios”, envolve-se romanticamente com diferentes homens, inclusive de maneira muito casual e apoiada pelo advento de métodos contraceptivos.

Edith

Considerada desde o início como o “patinho feio” dentre as irmãs, Edith (Laura Carmichael) inicia um romance com um homem muitas décadas mais velho, para depois ser abandonada no altar por este – uma grande tragédia que tradicionalmente só poderia ser remediada pelo amor de outro homem, certo? Certo, mas não para Edith. Esse momento torna-se um divisor de águas na sua vida, quando começa a ver-se como agente de seu destino.

A partir daí, Edith envolve-se com a escrita de artigos de opinião para uma publicação de Londres, onde conhece o editor com quem inicia um caso amoroso e posteriormente acaba na morte do mesmo e na gravidez inesperada de Edith (então, uma lady e mãe solteira). Entre as várias idas e voltas da narrativa televisiva e dramática, Edith tem de deixar a filha, posteriormente recuperando-a, e torna-se responsável pela publicação que antes pertencia ao seu amante.

Apesar das personagens pertencentes à classe mais alta serem interessantíssimas, além de testamentos do poder onde as mulheres exercem em suas vidas pessoais e para além delas, elas são claramente delimitadas pela classe à qual pertencem. Há, sem dúvida, sofrimentos que são inerentes à classificação histórica da “mulher” na Inglaterra, em pleno início do século XX; mas é igualmente inegável que há diferenças gigantescas entre as experiências das personagens da aristocracia e suas criadas.

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A vida como criada

A vida de uma criada, e de uma trabalhadora em geral, não se apresenta como fácil, de forma alguma. Seus fracassos e vitórias são menos dramáticos e recebem menos holofote do que as vivenciadas pelas personagens principais, mas são, talvez, os mais reais. E, entre as criadas, há duas personagens entre as criadas cujas trajetórias são particularmente interessantes e dignas de menção.

Gwen Dawson

Gwen Dawson (Rose Leslie) é uma dessas personagens que, apesar de presente apenas na primeira temporada, decide buscar mais do que a jornada exaustiva de uma criada. Guardando o seu salário com esse objetivo em mente que ela adquire uma máquina de escrever, e depois faz um curso de datilografia. Seu sonho era o de ser secretária – uma posição possível para uma mulher no início do século XX. Seu desejo é também um sinal da mudança dos tempos: ser criada não é mais o suficiente, e nem uma das únicas opções de trabalho para uma mulher.

Sua decisão e o seu objetivo são objetos de muita discussão, tanto entre os outros criados quanto entre os patrões — e são tomados, de fato, quase que como uma ofensa. Lady Sybil é a que demonstra seu apoio mais claramente, passando a auxiliar Gwen, às vezes em segredo. É graças ao seu apoio que Gwen consegue fazer entrevistas e, finalmente, conseguir um emprego na companhia telefônica que instala o primeiro telefone em Downton Abbey.

Gwen aparece na série novamente na sexta temporada, como uma mulher de sucesso e casada. Na sua volta para a mansão, de início, não é reconhecida pelos membros da família Crawley, com quem depois comenta a ajuda oferecida pela falecida Lady Sybil, a qual nunca esquecerá.

Daisy Manson

Daisy Mason (Sophie McShera) é uma das personagens mais interessantes da série. Vista como boba e ingênua, Daisy luta para melhorar sua posição de criada da cozinha para assistente de cozinheira. Ninguém a leva a sério. Ela é amada por quem não ama, e colocada na posição de casar-se com este, então um soldado prestes a morrer. Através das temporadas o seu crescimento é o mais impressionante: Daisy decide estudar, cada vez mais afiada, e confronta seus patrões quando diante do que considerava uma injustiça.

A vida das criadas retrata, com muito menos glamour, a vida de mulheres trabalhadoras e as dificuldades específicas de suas condições econômicas, sociais e de gênero. Há uma romantização dessas situações, e também uma romantização da relação entre patrões e criados (necessária para que não se quebre a simpatia sentida pelas personagens principais): mas em se falando da construção de personagens femininas na televisão contemporânea, ainda mais em contextos históricos, há de se admirar a contribuição de “Downton Abbey” e de seus cenários, tanto trágicos quanto, às vezes, cômicos, que tocam nossas experiências reais como mulheres – e das mulheres que vieram antes de nós.

Autora convidada: Carolina Simionato adora escrever. É formada em Letras, Artes e Mediação Cultural pela UNILA, e mora em Hamburgo com seu marido e seus livros.

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