O Mau Exemplo de Cameron Post: por que a cura gay persiste?

O Mau Exemplo de Cameron Post: por que a cura gay persiste?

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Ambientado na década de 90, “O Mau Exemplo de Cameron Post” conta a história da jovem Cameron (Cholë Grace Moretz) que vê sua vida virada do avesso ao ser flagrada pelo namorado Jamie (Dalton Harrod) aos beijos e carícias com a amiga Coley (Quinn Shepard). O longa, dirigido e roteirizado por Desiree Akhavan, além da co-roteirista Cecilia Frugiuele, é baseado no livro homônimo de Emily M. Danforth e estreia dia 18 de abril nos cinemas.

Cameron, cujo os pais morreram, vive com sua tia Ruth (Kerry Butler), uma mulher jovem e cristã que, influenciada pelo pastor (Steve Hauck) da igreja que frequenta, acaba decidindo enviar a sobrinha para uma espécie de centro cristão, com o objetivo de submetê-la a uma terapia de reorientação sexual, a famosa cura gay.

Até ser enviada ao centro de “reabilitação” – se é que podemos usar esse termo -, Cameron ainda não parecia ter assumido sua homossexualidade, nem para si mesma. Assim como qualquer jovem adolescente, ela experimentava as dores e delícias de se descobrir, inclusive sexualmente. Com os hormônios à flor da pele, nada mais natural que uma adolescente saudável esteja louca para conhecer seu corpo e explorar sensações de prazer oriundas do sexo; sem tabus e regras normativas baseadas em conceitos moralistas, puritanos e religiosos.

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Chloe Moretz e Quinn Shepard em cena de “O Mau Exemplo de Cameron Post” (Imagem: divulgação)

A história da produção e suas interseccionalidades 

A jovem, aparentemente, correspondia ao que era esperado dela socialmente: estudava, tinha um namorado, ia à igreja, enfim, agia conforme as expectativas de sua família e da comunidade local. Porém, ao ser flagrada com a amiga, Cameron abre uma espécie de caixa de Pandora social, que contém uma certa fantasia de pais de filhos adolescentes que desconsidera o fato de que a puberdade é um momento de inúmeras descobertas, mas principalmente as de ordem sexual. Vale lembrar que no mundo machista e patriarcal em que vivemos hoje, os meninos são incentivados a serem ativos sexualmente desde muito cedo, mas as meninas não!

É na adolescência que aprendemos o que nos dá prazer sexual em uma relação pessoal consigo mesmo e/ou com o outro. Se tudo der certo, os desdobramentos dessa fase culminam com o entendimento da própria identidade de gênero e com um posicionamento definido de identificação dentro do grupo social. Ou seja, talvez a descoberta mais importante acerca de si mesmo aconteça exatamente no momento da vida em que tudo ainda é tão incerto e difícil. Descobrir-se sexualmente pode ser um momento difícil e delicado, principalmente quando o jovem passa por situações complicadas de abusos, preconceitos, desencontros amorosos ou, até mesmo, a simples falta de informação.

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Quinn Shepard e Chloe Moretz em cena de “O Mau Exemplo de Cameron Post” (Imagem: divulgação)

Em pleno século 21, sexo continua sendo tabu. Se para algumas famílias é difícil abordar assuntos triviais dessa esfera, como reprodução, gravidez, uso de preservativos, doenças sexualmente transmissíveis, prazer, gozo, aborto, estupro e abuso, imagina falar sobre homossexualidade e diversidade de gênero.

Sexualidade escondida e as consequências psicológicas

Com o forte apelo da igreja e da política conservadora, não é de se espantar que a jovem Cameron tenha sido enviada para a cura gay. Afinal, quantas personalidades e artistas só se assumiram gays depois de anos alimentando uma falsa identidade pela dificuldade em lidar com seus desejos e com o impacto de sua orientação sexual em sua aceitação social? É bem provável que você conheça alguém que “saiu do armário” mesmo tendo sido casada (o) por anos e constituído família heteronormativa.

Pois bem, isso acontece quando não há espaço e acolhimento para que esse jovem se descubra em sua sexualidade e, de quebra, ainda sofra com uma carga de normas que visam determinar sua orientação, garantindo que meninos gostem de meninas e vice-versa, de maneira que o patriarcado continue a determinar como as famílias devem ser formadas, garantindo também a função reprodutiva das mulheres.

As inadequações, no entanto, não param por aí e podem explicar do comportamento violento masculino à falta de controle com sua pulsão sexual. Ao chegar no centro de tratamento, Cameron encontra outros jovens em situação similar à sua: foram encaminhados por suas famílias para serem tratados da homossexualidade, como se fosse uma doença.

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Chloe Moretz e Quinn Shepard em “O Mau Exemplo de Cameron Post” (Imagem: divulgação)

O enredo real na sociedade

Vale ressaltar que, somente em 17 de maio de 1990, a Assembleia Geral da Organização Social da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais – a Classificação Internacional de Doenças (CID). O governo do Reino Unido seguiu o exemplo em 1994, seguido pelo Ministério da Saúde da Rússia e pelo Conselho Federal de Psicologia do Brasil em 1999, além da Sociedade Chinesa de Psiquiatria, em 2001.

Em O Mau Exemplo de Cameron Post”, no Centro de Tratamento, são acolhidos pelos irmãos – ambos cristãos, obviamente – John (Gallangher Jr.), que faz uma espécie de guru espiritual dos jovens, e Drª Lydia (Jannifer Ehle), uma psicóloga que aplica a Terapia de Reorientação sexual* no grupo. Enquanto está internada, Cameron começa a entender o que se passa com ela. Apesar de não lutar contra seu desejo por garotas (no filme, parece que ela está à vontade com seu desejo) e estar consciente de que só está recebendo esse “tratamento” por ter sido pega com uma menina, a protagonista é levada a acreditar que algo nela está errado e que não há outra alternativa senão se submeter à terapia e ceder ao senso comum.

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Cena de “O Mau Exemplo de Cameron Post” (Imagem: divulgação)

Não fosse a aproximação dela com outros internos – Jane (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck) – que, ao contrário dela, estão seguros sobre quem são e demonstram mais habilidade com o jogo imposto pela sociedade, de normatizar e controlar, talvez nossa heroína tivesse sucumbido à terapia e assumido uma personalidade ficcional negando quem é e entrando para o hall de “ex homossexuais” (não conhecemos nenhum!).

Mas qual o impacto e o custo disso na vida de um jovem?

Negar sua condição humana, aquilo que define seu papel social e o que naturalmente se impõe desde muito cedo dentro de si, é, sem dúvida, um sofrimento inimaginável. No Brasil, há muito lidamos com o tema da cura gay, mesmo a homossexualidade não sendo considerada uma doença e não haver reconhecimento científico para tratamentos – como a terapia de reorganização sexual.

Quer dizer então que tia Ruth, os pais dos outros jovens do centro – e boa parte da população mundial – é cruel ao desejar “curar” esses adolescentes? Eles agem conscientemente? Acreditamos que não, mas é preciso evoluir nesses debates acerca de orientação sexual, gêneros, aborto e violência de gênero, ou jamais conseguiremos diminuir a ignorância, vencer o religiosismo normativo e a moral que, invariavelmente, está por trás de atos de crueldade como os do filme.

O Mau Exemplo de Cameron Posté um convite ao debate extremamente oportuno no momento em que estamos diante de um enrijecimento das regras moralizantes e de cunho religioso. Muitos políticos da bancada religiosa no Brasil se interessam pelo tema e tentam emplacar leis que viabilizem o projeto da cura gay. Apesar de pouco profundo, “O Mau Exemplo de Cameron Post” é bem feito, retrata de forma leve um assunto doloroso e consegue trazer para o debate essa questão que urge pela mobilização social. Imperdível pela importância e relevância!

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Forrest Goodluck, Sasha Jane e Chloe Moretz em cena de “O Mau Exemplo de Cameron Post” (Imagem: divulgação)

*A Terapia de reorientação sexual (chamada ainda terapia de conversão ou terapia reparativa) compreende um conjunto de métodos que visam eliminar a orientação sexual homossexual de um indivíduo. Essas terapias podem incluir técnicas comportamentais, cognitivo-comportamentais e psicanalíticas, além de abordagens médicas, religiosas e espirituais. Estes tipos de procedimentos têm sido fonte de intensa controvérsia nos EUA, no Brasil e em outros países. O consenso científico é de que tais terapias não são efetivas e podem causar danos físicos e psicológicos.

Atualmente, há um grande número de evidências que afirmam que ser homossexual ou bissexual é compatível com uma saúde mental e um ajustamento social completamente normais e saudáveis. Por isso, as principais organizações de saúde mental não incentivam este procedimento. De fato, essas intervenções são eticamente suspeitas, porque elas podem ser prejudiciais para o bem-estar psicológico daqueles que passam por elas; observações clínicas e relatos pessoais indicam que muitas pessoas que tentam mudar a sua orientação sexual experimentam um considerável sofrimento psicológico. Por estas razões, nenhuma organização profissional de saúde mental apoia esforços para mudar a orientação sexual e praticamente todas elas adotaram declarações de política da profissão e alertas ao público sobre os tratamentos que se propõem a mudar a orientação sexual.

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Confira o trailer de “O Mau Exemplo de Cameron Post”:


O Mau Exemplo de Cameron Post 

Emily M. Danforth (Autora), Alice Mello (Tradutora)

Editora HarperCollins

448 páginas

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Edição realizada por Aline Vessoni e Gabriela Prado. Revisão por Isabelle Simões.


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Autora

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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